Análise: Buscando informações por si mesmo, por Lucas Bombana*

Análise: Buscando informações por si mesmo, por Lucas Bombana*

Atualizado em 29/11/2006 às 11:11, por .

Análise : Buscando informações por si mesmo, por Lucas Bombana*

*Lucas Bombana é aluno do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero Torna-se cada vez mais perigosa a escolha de seguir na profissão de jornalista, principalmente no caso daqueles enviados para cobrir conflitos armados, como no Iraque e no Afeganistão, além de outros locais como a Colômbia e México, onde jornalistas sofrem represálias de traficantes de drogas, ou ainda casos como Cuba e Estados Unidos, onde pouco camufla-se a censura à mídia.

Segundo relatório da Federação Internacional de Jornalistas, 2005 foi o ano mais letal para os comunicadores, com 150 mortes contabilizadas, tendo 89 delas ocorrido durante o cumprimento do dever. Por haver algumas associações organizadas que visam o bem-estar do profissional de jornalismo, os números por vezes se desencontram pela diferença usada nos critérios das instituições.

Os atentados contra jornalistas estão ocorrendo com tamanha freqüência que, no 40° Dia Mundial das Comunicações Sociais, o papa Bento XVI publicou sua primeira mensagem voltada aos profissionais da mídia: "A comunicação autêntica deve basear-se na coragem e na decisão".

O local que sem dúvida representa mais perigo à vida dos repórteres atualmente é o Iraque. Desde o início da invasão americana, em março de 2003, 86 jornalistas já foram mortos, segundo dados da organização francesa Repórteres Sem Fronteiras, número de mortes que supera as ocorridas na 2ª Guerra Mundial e nos 20 anos da Guerra do Vietnã. Para o grupo francês, a elevação no número de jornalistas mortos está diretamente ligada a crimes com motivações político-militares, tanto é que nos Tribunais Internacionais jornalistas não estão sendo obrigados a depor mesmo quando intimados.

Um ataque direto foi sofrido por um grupo de jornalistas autônomos, ou não incorporados às tropas militares que cumprem a missão no Iraque, numa investida do exército norte-americano contra o Hotel Palestina, dia 08/04/2003 em Bagdá, onde muitos jornalistas estavam hospedados. A informação mais tarde vinculada pelas forças americanas foi a de que o reflexo que as miras das armas usadas pelos rebeldes iraquianos produziam confundiam-se com as das lentes de câmeras fotográficas, daí o equívoco que levou a morte de dois jornalistas, Taras Protsyuk, da britânica Reuters, e José Couso, da espanhola Telecinco, após um tanque de guerra ter ido de encontro à estrutura do edifício.

Outro ataque patrocinado pelos EUA que gerou protestos de organizações jornalísticas foi à rede de televisão nacional iraquiana Al Jazeera. É o terceiro ataque norte-americano a canais de televisão desde 1999, quando a sede da televisão sérvia, em Belgrado, foi atacada pela OTAN, matando 16 pessoas. O que os americanos alegaram pelo ataque ao canal iraquiano foi que ele transmitia códigos para as tropas iraquianas se insurgirem contra eles. Robert Ménard, secretário-geral do Repórteres Sem Fronteiras, criticou com veemência o ataque americano, lembrando que os EUA só fazem uso das convenções de Genebra quando diz respeito aos seus soldados: "(...) deviam ter atenção em não deixar no ar a idéia de que alvejarão regularmente qualquer estação de televisão que lhes faça frente", disse o secretário.

A maioria dos 86 jornalistas mortos no Iraque é de nativos, o que levou os Repórteres Sem Fronteiras a criar um fundo de ajuda as famílias, principalmente aquelas em que o parente perdido prestava serviço a canais de comunicação de pequeno porte, que não possuem recursos para ajudar os familiares desamparados.

Numa tentativa de diminuir esse alto índice de mortes de profissionais da mídia, o secretário geral da Federação Internacional de Jornalistas, Aidan White, fez um apelo às tropas anglo-americanas responsáveis pela ocupação, para fornecer proteção também aos jornalistas que não estão incorporados nas unidades militares.

O secretário pediu também bom-senso por parte dos próprios jornalistas: "A pressão competitiva entre as empresas de mídia, para ser o primeiro a dar a notícia, não deve sobrepor-se à necessidade de proteger as pessoas no terreno" disse, colocando os freelancers como os que têm sido os mais vulneráveis em tais situações.

Infelizmente não é só no Iraque que jornalistas têm suas vidas postas em risco. No último dia 7, dois jornalistas alemães foram encontrados mortos no Afeganistão, apesar do Talibã, grupo armado da região, dizer que não ataca jornalistas.

Outro local que representa risco aos jornalistas é a América Latina, em especial o México, que desde a posse de seu atual presidente Vicente Fox, há 6 anos, já contabilizou 23 jornalistas mortos, segundo dados da Federação Latino-Americana de Jornalistas. Pela FLAJ, de janeiro a junho de 2006, 9 jornalistas foram mortos, em países onde a corrupção de políticos aliados a gangues de narcotráfico faz do serviço dos jornalistas uma tarefa árdua. Desde a fundação da FLAJ, em 1976, já passam dos 800 os jornalistas mortos na região da América Latina e Caribe.

Para o Coronel Carbonell, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército brasileiro, que esteve presente na missão de paz no Haiti, os jornalistas brasileiros deixam muito a desejar em relação aos de outros países, tanto em relação à verba, para locomoção, contrato de intérpretes e materiais sofisticados, como o próprio conhecimento da área, que segundo o coronel é muito aquém do necessário.

Encontra-se nessa região também a ilha de Cuba, local que gera as mais distintas controvérsias em relação ao trabalho de jornalistas. O grupo RSF, que teve seus membros expulsos da ilha esse ano, com o aval da ONU, é um dos que mais criticam a forma de governo de Fidel Castro, apontando que em 2006 18 jornalistas já foram mortos, acusando-o também de censurar comunicadores que falem contra o governo. Já para Salim Lamrani, que escreveu livros sobre o embargo econômico sofrido por Cuba, a RSF, do milionário francês François Pinault, não busca a liberdade de imprensa verdadeiramente, mas apenas perseguir grupos com pensamentos ideológicos distintos dos seus, criticando a falta de visibilidade que se deu a outros casos de censura da imprensa.

Segundo a Associação Mundial de Jornais, em 2006 75 jornalistas foram mortos. O RSF criou um braço jurídico chamado Rede Damocles, buscando levar aos tribunais os assassinos dos jornalistas, sendo a impunidade um motivo de preocupação para que esses números não continuem crescendo. Na cidade francesa de Bayeus, a primeira libertada na 2ª Guerra após o desembarque dos aliados, vai ser inaugurado o primeiro Memorial dos repórteres na Europa, para homenagear os mais de 2.000 jornalistas mortos desde 1944.