Amputados: A realidade de pessoas que perderam uma parte do corpo, por Kety Marinho*

Amputados: A realidade de pessoas que perderam uma parte do corpo, por Kety Marinho*

Atualizado em 04/10/2006 às 12:10, por .

Amputados : A realidade de pessoas que perderam uma parte do corpo, por Kety Marinho*

*Kety Marinho é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco Datas servem para marcar acontecimentos importantes. Aniversários, casamentos, batizados, perdas, mortes. São lembradas com carinho, saudade ou tristeza. E podem ser também o momento que muda a vida de alguém. No caso do lanterneiro Anry Rodrigues, 53 anos, o dia 10 de janeiro de 2006 é o que ele mais se lembra e também o que mais quer esquecer.

Anry trabalhava em sua oficina quando derrubou, em seu pé, um pára-choque de um automóvel que estava consertando. "Dei uma olhada para o ferimento, era pequeno, e deixei para lavar depois". Esse esquecimento lhe custou caro. Diabético desde a infância, Rodrigues, quinze dias depois do acidente, precisou ser levado às pressas para um hospital. Hoje, nove meses depois de amputar o membro, o lanterneiro já não trabalha, passa o dia na oficina e afirma com lágrimas nos olhos: "Herdei de minha mãe a diabetes e essa doença vai me matar aos poucos. Perdi, junto com o meu pé, a capacidade de sonhar.”

A amputação de membros no Brasil atinge 8% da população, na faixa etária entre 30 e 70 anos. O Sistema Único de Saúde, SUS, atende a apenas 2% desse percentual. No Recife, o Hospital Agamenon Magalhães e o Hospital Getúlio Vargas, HGV, estão habilitados, pelo SUS, para atender a demanda de pacientes que buscam recuperar a auto-estima com a utilização de próteses.

Por mês, vinte pacientes procuram o setor de órtese e prótese do HGV para iniciar o processo, que dura em média seis meses até a aquisição do membro artificial. De acordo com a assistente social Macelani Ferreira, a procura pela órtese ainda é a mais comum: “Para os pacientes que precisam de cadeiras de rodas, é simples e não demora tanto, por isso a demanda é maior”.

A utilização de recursos especiais que visam à substituição parcial de um membro também pode ser feita através da compra de prótese em estabelecimentos específicos. Na Região Metropolitana do Recife existem 11 lojas que trabalham para atender esse público. Segundo a técnica em órtese e prótese Mônica Marques, a procura mensal é de pelo menos 30 pacientes: “Apenas dez pedem orçamento. Uma prótese para substituir um pé, por exemplo, em fibra de carbono, custa R$ 1.400 reais. É um valor elevado para a maioria da população.”

As causas mais comuns de amputação são de origem vascular e o Hospital da Restauração é uma referência no estado nesse tipo de tratamento. A médica e cirurgiã vascular Cláudia Albuquerque convive diariamente com amputados. "É preciso ficar claro que a amputação é uma maneira de recuperar o paciente e não uma mutilação. É melhor que ele tenha um membro amputado do que perder a vida. Aqui eles recebem todos os cuidados necessários para uma boa recuperação."

No hospital existe um andar inteiro dedicado a pacientes vasculares. O aposentado Romildo Correia, 64 anos, está à espera de uma cirurgia que permita a revascularização, ou seja, a irrigação de sangue, do seu pé esquerdo. Ele já tem um pedaço do pé direito amputado. Diabético, sempre esquecia de tomar os remédios para controlar a doença e agora espera o pior: “Eu andava usando apenas o calcanhar. Nunca aceitei a amputação e ter que perder o outro pé é horrível.”

A dor e a vontade de conseguir superar o trauma caminham juntas. O ex-catador de lixo Jorge "Valente", como é conhecido, carrega no nome a determinação de superar a perda da perna esquerda num acidente de trânsito. "Fui atropelado, a pessoa fugiu, e hoje, quatro anos depois do dia 27 de maio de 2002, preciso pedir esmola para sobreviver. Não tenho aposentadoria. E nunca mais vou conseguir arrumar emprego."

Valente se arrasta pelas ruas do bairro de São José, apoiado em duas muletas e gritando alto o pedido de ajuda. O acidente o deixou, ainda, sem a visão do olho direito. A coragem para vencer e o apoio da família têm sido fundamentais em sua caminhada. "Ainda sou muito revoltado, mas tenho a sorte de ter uma esposa boa, que me bota para frente. Eu preferia não ser assim. O olhar de medo e desprezo das pessoas me deixa triste."

Ele não é único que encara diariamente olhares e dificuldades, mas é uma prova de que é possível recomeçar, que a vida continua e que com tratamentos adequados e apoio psicológico o paciente pode voltar a ter uma vida normal, talvez até com muito mais determinação para seguir em frente.