ABI - Talentos de Nelson Pereira dos Santos

ABI - Talentos de Nelson Pereira dos Santos

Atualizado em 02/06/2006 às 08:06, por Por: Associação Brasileira de Imprensa.

ABI - Talentos de Nelson Pereira dos Santos

Na tarde desta terça-feira, 30 de maio, Nelson Pereira dos Santos, primeiro cineasta imortal, foi o convidado do "ABI pensa o cinema" e falou sobre sua trajetória nas telas, a experiência como revisor nos áureos tempos da imprensa fluminense e a Academia Brasileira de Letras. O ciclo de palestras integra o projeto Estação ABI.

Paulistano, Nelson contou que veio para o Rio em 1952, a convite de Rui Santos e Alex Viany, com quem trabalhou como assistente de direção em "Agulha no palheiro":
- Foi nessa época que escrevi o roteiro de "Rio, 40 graus". Não consegui nenhum produtor que tivesse vontade de fazê-lo, mas montei um esquema de produção, através de uma cooperativa, em que vendia cotas para a família e amigos e depois para alguns capitalistas. O roteiro foi inspirado no que vi quando fui assistente do filme "Balança, mas não cai", realizado num estúdio na favela do Jacarezinho.

Sobre sua forte ligação com a ABI, Nelson explicou que "Rio, 40 graus" ficou famoso após a proibição de exibição pelo Coronel Geraldo de Menezes Cortes:
- Graças a ele, o filme foi parar na primeira página dos jornais. Pompeu de Souza, então diretor do Diário Carioca, comandou uma campanha pela liberação do filme. Foi organizada, aqui na ABI, uma sessão para jornalistas e intelectuais, que repercutiu na mídia e resultou na liberação do filme para exibição.

Em seguida, o cineasta dirigiu "Rio, Zona Norte", um fracasso de bilheteria:
- Por conta disso, bati na porta do Diário Carioca para pedir emprego. Fui revisor, numa época em que os salários eram maravilhosos. Depois, fui para o Jornal do Brasil, e também recebia um salário suficiente para pagar o aluguel da minha casa e do meu escritório e ainda manter meus dois filhos em escolas particulares. Pensei que jamais voltaria a fazer cinema - brincou.

No entanto, em 58, Nelson participou de um encontro de cineastas da América Latina em Montevidéu, onde "Rio, 40 graus" e "Rio, Zona Norte" fizeram muito sucesso:
- Daí tomei força novamente. Fiz "Mandacaru vermelho", "Boca de ouro", baseado em peça homônima de Nelson Rodrigues, e "Vidas secas", que, baseado no livro de Graciliano Ramos, teve o apoio da Herbert Richers, fez sucesso em Cannes e tomou dimensão mundial.

O cineasta falou também sobre seu último filme, "Brasília 18%", que comenta os bastidores da vida política no Distrito Federal:
- Acabou ficando pouco tempo em cartaz porque hoje, no cinema brasileiro, se um filme não alcançar a renda prevista no fim de semana de estréia, na semana seguinte sai da sala. O problema também é a falta de tempo de leitura. No Cinema Novo, eram lançados uns dois filmes por ano. Atualmente, os lançamentos são semanais.

Sobre o convite para assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Nelson diz que partiu de uma proposta da entidade de acolher representantes de outras áreas culturais:
- Foi um privilégio ter sido convidado para a ABL, coincide com a minha aposentadoria. Pretendo fazer apenas um documentário sobre a vida de Tom Jobim, antes de me dedicar exclusivamente à Academia.