A saga de uma entrevista | por: Mário Kempes - FIC(CE)
A saga de uma entrevista | por: Mário Kempes - FIC(CE)
Atualizado em 03/02/2006 às 15:02, por
Por: Mário Kempes e estudante de jornalismo da Faculdade Integrada do Ceará (FIC).
A saga de uma entrevista | por: Mário Kempes - FIC(CE)
Em 2003, quando o segundo semestre da faculdade iniciou, uma disciplina pela qual sou entusiasmado, História do Jornalismo, me ajudou a chegar cedo à aula (trabalho até às 18h e às vezes chego atrasado) para presenciar a apresentação da professora, que se anunciava com um sobre nome bastante conhecido para os amantes do futebol: Louiseanne Parreira.Foi instantâneo, muitos, na sala de aula, me chamam de gaiato, devido ao meu jeito extrovertido (acho que é moleque mesmo), logo surgiu a pergunta, claro que de maneira despretensiosa, impelida pelo adjetivo na qual meus colegas me nomeiam: "Professora a senhora é parente do Parreira, técnico da seleção? A resposta veio rápida como o pensamento: "Ele é meu tio". Respondeu a docente, que seguiu a sua apresentação sem dar muita bola para o aluno sentado no final da sala de pernas em cima das cadeiras.
Após a aula, agora mais comedido, fui ao encontro da professora e pedi que, se fosse possível, quando o "tio" dela viesse aqui para o Ceará, ela lembrasse deste aluno, fã do treinador da seleção e que por várias vezes gritava o seu nome no kitinete onde morava sozinho, no período glorioso em que Parreira fora treinador do Corinthians em 2002. A professora sorriu e disse: "Quando ele aparecer por aqui eu te chamo". Naquele momento, pensei que ela era mais um daqueles famosos, que a gente manda centenas de e-mails e eles nem se lembram da gente.
Os anos foram passando e reencontro a professora, neste semestre, na disciplina de Agência de notícias. Num belo dia, ela entrou no laboratório e disse que após a aula, queria me contar algo. Achei que seria sobre alguma matéria que entregara a ela equivocado e a critica seria tão severa, que teria de ser isolada. Ledo engano, ou melhor, caudaloso engano. Jamais poderia imaginar o pedido da docente:
"Mário, é que o tio Parreira vem pra Fortaleza dar uma palestra e eu estou pensando em trazê-lo aqui pra FIC, pra ele conhecer a faculdade, e como eu sei que você gosta de futebol, queria que você fizesse uma entrevista com ele".
Acho que nem preciso discorrer a resposta. Quando ela terminou, o coração já disparava em uma taquicardia que derrubaria qualquer vovô sedentário, as pupilas dilatadas evitavam qualquer colírio para um exame de vista rotineiro, além das mãos suadas que me impossibilitavam de jogar, como nos velhos tempos de infância, time de botão. Eu queria apenas conhecê-lo e, agora, iria fazer uma entrevista, não havia felicidade maior.
Lembro que ao chegar em casa, com um sorriso "de orelha a orelha", a Vanessa, minha esposa, indagou: "o que foi que aconteceu menino?" A alegria foi tamanha, que a gente terminou, meu eufórico depoimento, com ela afirmando: "eita diacho, hoje tu não dorme, ein!". Confesso que foi difícil, mas dormi (me perdoem o pleonasmo) sonhando com um sonho próximo de ser realizado.
Na segunda-feira, antevéspera da tão sonhada entrevista, a professora me enviou um e-mail, pedindo que eu fosse aos estúdios de TV da FIC para falar com o diretor Michel. Ao ler, achei que seria para auxiliar alguém que fosse entrevistar o Parreira, na TV FIC. Todo mundo sabe na Faculdade que eu quero ser jornalista de jornal e não de Televisão, não possuo formosura para aparecer diante das câmeras.
Na faculdade, à noite, encontro a professora Louiseanne. Ela me diz que o Michel só vai estar no estúdio no outro dia e que, como sem falta, eu fosse falar com ele, pois a entrevista será exclusiva, no estúdio de TV, e eu precisava pegar algumas dicas de roupa e "como se comportar à frente de uma câmera".
Anestesiado e a procura de algumas palavras para evitar algum vexame, eu comento: "Professora, eu pensava que era uma entrevista com gravador pra colocar no site da FIC". Ela responde: "Não, isso vai ser melhor ainda". E o calor aumentou.
Á véspera da entrevista, fui ao estúdio de TV e vejo um alvoroço para requintar o recinto e encontro o Diretor Michel, pergunto se tudo isso é para o Parreira, ele responde: " não, isso tudo é para o Parreira e pra você". Eu comigo: "valha-me Deus do céu, tô lascado". O Michel me deu umas dicas e disse que tudo seria tranqüilo não haveria ninguém no estúdio na hora da entrevista, somente eu e o treinador da seleção. Agradeci e fui pra casa rezar.
O dia tão sonhado chegou, e depois de muita oração, fui à FIC entrevistar o atual TÉCNICO DA SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL, campeão do Mundo em 1994, depois de o Brasil passar 24 anos sem títulos, o treinador mais vitorioso do Corinthians dos últimos anos.. Chegando lá, já estava tudo preparado, estúdio de TV, sala de entrevista coletiva para a imprensa, auditório da palestra que ele daria para alunos da escolinha de futebol da FIC.
Mas, para ganhar ares de tensão, houve um atraso de 30 minutos, e eu, pior do que noivo quando espera a prometida na igreja: inquieto e altamente nervoso. Alguns colegas passavam me davam boa sorte e o momento se aproximava, depois da palestra e da entrevista coletiva, o grande momento iniciava.
Às Dez e quarenta da manhã, Parreira entrou no estúdio, calça jeans e camisa azul clara, os cabelos brancos apareciam com maior nitidez do que na TV, a estatura é mediana, um pouco suado do calor de rachar de Fortaleza, e impaciente, na entrevista coletiva abusaram de sua inteligência.
A Professora me apresentou, e penso que qualquer um podia notar na minha camisa vermelha, algo diferente no meu peito direito, batendo forte e rápido, e claro uma alegria no rosto inigualável, e por incrível que pareça, acredito que também por causa do forte ar condicionado, não estava suando. Parreira olhou pra mim e perguntou se eu jogava bem futebol, em alusão ao grande jogador argentino e artilheiro da copa de 78, Mário Kempes. Notei aí, a simplicidade do professor Parreira e acho que ele notou o meu nervosismo.
A professora Louiseanne o informou que seria um bate papo informal, nada demais, e que seria uma tarefa da disciplina que ela ministrava. Eu, para tirar a tensão, e observar se ele entrava na brincadeira comentei: "é só umas perguntinhas triviais, tipo, em quem o senhor vai votar, no Lula ou no Serra?". Ele sorriu (deve ter pensado: "gaiatinho, esse rapaz"). Fomos para o sofá e perguntou: "e esse sofá?". Respondi: "é da Hebe." Foi a primeira coisa que veio à mente (pensei, agora ele me dá uma cutucada; que nada, só fez sorrir). Testamos os microfones e notei que não dava pra colocar as perguntas em cima da minha perna, como havia feito nos vários ensaios que fiz no sofá de casa, junto com minha esposa, ela, evidente, como Parreira.
Tive, então, que guardar as perguntas no bolso e, para completar, dentro do estúdio estavam: o Diretor-geral da Faculdade, Jessé Holanda e a Professora Louiseanne; na sala ao lado, também assistindo, o coordenador do Curso de jornalismo, Professor Alejandro. Eu perguntei ao Parreira: "o Senhor acha que eu devo estar nervoso, estou entrevistando o técnico da seleção, é a minha primeira entrevista à frente de uma câmera de TV, o dono da faculdade está ali, junto com a minha professora e o coordenador do curso ali do lado?" Ele, mais uma vez, sorriu e brincou: " que é isso rapaz, isso não é motivo pra você ficar nervoso'.
Começou a entrevista, e na primeira fala agradeci-o pelo momento e disse que era uma honra recebê-lo na FIC, principalmente para esse bate papo. Ele respondeu: "A honra é toda minha, nunca pensei que seria entrevistado pelo Mário Kempes".
A partir de então, deu pra controlar o imenso nervosismo, algumas correções ali, pensamentos distantes não acreditando em tudo aquilo, mas deu pra chegar "vivo" até o final da entrevista.
Quando terminou, eclodiram as fotos, elogios, suspiros e muito agradecimento pela experiência única. Eu, em nenhum momento na minha tentativa de persuadir a professora Louiseanne de conhecer o tio dela, por eu ser um conhecedor de futebol e fã do Parreira, pensava, ao menos, em conversar com ele, queria apenas um autografo, no máximo, uma foto. Foi muito gratificante, e ela foi a responsável direta por tudo o que aconteceu.
Realizar este sonho foi de uma importância enorme, academicamente falando é indiscutível, contudo acho que representará muito mais principalmente pelo lado pessoal. Àqueles que um dia realizaram um de seus sonhos de infância ou de sua profissão sabem o que estou sentindo, e acredito que não há formas de escrevê-los.






