"Autoritarismo, monopólio e narcotráfico ameaçam a imprensa", diz ex-presidente
O jornalista Carlos Mesa Gisbert governou a Bolívia entre 2003 e 2005. Seu mandato foi marcado por tumultos e crises governamentais. O político assumiu após a renúncia do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, forçada por protestos e greves que pararam o país.
Atualizado em 21/10/2011 às 12:10, por
Luiz Gustavo Pacete.
Longe da política e engajado em discutir a liberdade de imprensa na América Latina, Mesa falou recentemente na 67ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, sigla em espanhol), realizada pela Sociedad Interamericana de Imprensa (SIP).
Alf Ribeiro Carlos Mesa Como jornalista, Mesa venceu o prêmio internacional "Rey de España", com um documentário sobre a acusação de vínculos do governo com o narcotráfico, de 1989 a 1993, e já trabalhou nos jornais Ultima Hora e no Canal 6 América.
Recém chegado do Peru, ele falou à IMPRENSA sobre a atual situação boliviana e as ameaças à liberdade de expressão na América Latina.
IMPRENSA - Qual a situação dos veículos de imprensa na Bolívia atualmente? Carlos Mesa - Em geral, os meios gozam de uma razoável liberdade de expressão. O governo optou por criar um jornal próprio e aumentar o número de rádios que divulgam as mensagens da rádio governamental. Além do canal oficial, importantes meios privados foram comprados por empresários estrangeiros sem tradição no país, mas com estreitas relações com o governo.
IMPRENSA - E a segurança em relação a jornalistas? Violência faz parte da realidade da imprensa boliviana? Mesa - Não pode ser comparado com outros países, como México e Colômbia. Até agora, estamos vivendo casos isolados, mas o exercício de violência contra os veículos é moderado. Quero dizer: ameaças de setores sociais que não davam entrevista a tais meios, jornalistas que são agredidos fisicamente ou golpeados, edifícios de emissoras atacados por gangues... Em 90% dos casos, os jornalistas não correm riscos de morte, mas podem quebrar o braço ou destruir o material de trabalho. O Presidente da República, em uma coletiva de imprensa, se referiu ao jornalista com nome e sobrenome, e o afrontou por uma notícia publicada. Evo fez isso, chamou o jornalista, acusou-o em uma coletiva e disse que não iria permitir que o jornal tivesse publicado tal informação.
IMPRENSA - Que tema o senhor tratou na Conferência da SIP que aconteceu em Lima? Mesa - Tratei sobre a Liberdade de Expressão na América Latina. Apesar de estarmos em uma situação razoável em termos de liberdade, não podemos esquecer que existem duas grandes ameaças: em alguns países, o autoritarismo ataca os meios privados mediante pressões judiciais ou mediante a censura aberta, e as multas multimilionárias. Em outros países, o crime organizado e o narcoterrorismo estão pressionando os meios e assassinando jornalista. Finalmente, a concentração de meios privados em poucas mãos é uma forma de concentrar o poder da palavra.
IMPRENSA - Podemos dizer que o presidente Evo segue encurralado em função da crise no país? Mesa - Provavelmente é o maior momento de crise em sua gestão, salvo - por outras razões - a temporada de violência que atravessou no mês de setembro e outubro de 2008. Sua derrota nas eleições para o Poder Judicial, em que a soma dos votos nulos e brancos superou 60%, muito mais que os votos válidos, isso tem sido um duro golpe para quem nunca havia perdido uma eleição.
IMPRENSA - A marcha indígena contra o presidente seria o indicio de que as coisas realmente estão ruins? Mesa - A marcha indígena colocou em evidência uma grave contradição. Como é que a bandeira da luta pela 'mãe terra', que pretende construir uma rodovia que divide em dois o parque nacional amazônico e afete a três das 36 nações indígenas, seja reconhecida pela Constituição? O problema suscitado pela marcha ainda está longe de ser resolvido.
IMPRENSA - Com os problemas de saúde de Hugo Chávez a influência ideológica e política da Venezuela podem diminuir na Bolívia? Mesa - Essa influência já está mudando. A estrela do presidente Chávez está declinando, além de sua enfermidade. É um modelo que começa a mostrar sinais de esgotamento. Evo Morales possui 35% de aprovação, são dados importantes que marcam o fim da hiperideologização da América do Sul nos últimos anos e um realinhamento em posições de centro-esquerda.
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Alf Ribeiro Carlos Mesa Como jornalista, Mesa venceu o prêmio internacional "Rey de España", com um documentário sobre a acusação de vínculos do governo com o narcotráfico, de 1989 a 1993, e já trabalhou nos jornais Ultima Hora e no Canal 6 América.
Recém chegado do Peru, ele falou à IMPRENSA sobre a atual situação boliviana e as ameaças à liberdade de expressão na América Latina.
IMPRENSA - Qual a situação dos veículos de imprensa na Bolívia atualmente? Carlos Mesa - Em geral, os meios gozam de uma razoável liberdade de expressão. O governo optou por criar um jornal próprio e aumentar o número de rádios que divulgam as mensagens da rádio governamental. Além do canal oficial, importantes meios privados foram comprados por empresários estrangeiros sem tradição no país, mas com estreitas relações com o governo.
IMPRENSA - E a segurança em relação a jornalistas? Violência faz parte da realidade da imprensa boliviana? Mesa - Não pode ser comparado com outros países, como México e Colômbia. Até agora, estamos vivendo casos isolados, mas o exercício de violência contra os veículos é moderado. Quero dizer: ameaças de setores sociais que não davam entrevista a tais meios, jornalistas que são agredidos fisicamente ou golpeados, edifícios de emissoras atacados por gangues... Em 90% dos casos, os jornalistas não correm riscos de morte, mas podem quebrar o braço ou destruir o material de trabalho. O Presidente da República, em uma coletiva de imprensa, se referiu ao jornalista com nome e sobrenome, e o afrontou por uma notícia publicada. Evo fez isso, chamou o jornalista, acusou-o em uma coletiva e disse que não iria permitir que o jornal tivesse publicado tal informação.
IMPRENSA - Que tema o senhor tratou na Conferência da SIP que aconteceu em Lima? Mesa - Tratei sobre a Liberdade de Expressão na América Latina. Apesar de estarmos em uma situação razoável em termos de liberdade, não podemos esquecer que existem duas grandes ameaças: em alguns países, o autoritarismo ataca os meios privados mediante pressões judiciais ou mediante a censura aberta, e as multas multimilionárias. Em outros países, o crime organizado e o narcoterrorismo estão pressionando os meios e assassinando jornalista. Finalmente, a concentração de meios privados em poucas mãos é uma forma de concentrar o poder da palavra.
IMPRENSA - Podemos dizer que o presidente Evo segue encurralado em função da crise no país? Mesa - Provavelmente é o maior momento de crise em sua gestão, salvo - por outras razões - a temporada de violência que atravessou no mês de setembro e outubro de 2008. Sua derrota nas eleições para o Poder Judicial, em que a soma dos votos nulos e brancos superou 60%, muito mais que os votos válidos, isso tem sido um duro golpe para quem nunca havia perdido uma eleição.
IMPRENSA - A marcha indígena contra o presidente seria o indicio de que as coisas realmente estão ruins? Mesa - A marcha indígena colocou em evidência uma grave contradição. Como é que a bandeira da luta pela 'mãe terra', que pretende construir uma rodovia que divide em dois o parque nacional amazônico e afete a três das 36 nações indígenas, seja reconhecida pela Constituição? O problema suscitado pela marcha ainda está longe de ser resolvido.
IMPRENSA - Com os problemas de saúde de Hugo Chávez a influência ideológica e política da Venezuela podem diminuir na Bolívia? Mesa - Essa influência já está mudando. A estrela do presidente Chávez está declinando, além de sua enfermidade. É um modelo que começa a mostrar sinais de esgotamento. Evo Morales possui 35% de aprovação, são dados importantes que marcam o fim da hiperideologização da América do Sul nos últimos anos e um realinhamento em posições de centro-esquerda.
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