Autor do texto 'Ficaralho', Bruno Toturra critica falta de visão dos jornalistas

No dia 5 de junho, as redes sociais começaram a repercutir um texto intitulado “Ficaralho”, escrito e publicado pelo jornalista Bruno Torturra no seu site, Casca de Besouro.

Atualizado em 11/06/2013 às 18:06, por Camilla Demario.

Em algumas horas, centenas de usuários compartilharam o “desabafo” de Torturra, que traz uma releitura da expressão “passaralho”, usada para explicar grandes demissões em redações jornalísticas. Na sua versão – em referência aos cortes recentes na Folha de S.Paulo , Estadão e Valor Econômico – “as demissões são, na verdade, Ficaralhos. Se ‘fode’ quem fica”.

Crédito:Arquivo Pessoal Bruno Torturra Torturra propõe uma reflexão sobre o futuro do jornalismo e convida “profissionais de mídia, desempregados ou a fim de se desempregar, para apresentar um projeto que vem sendo elaborado em fogo brando há mais de um ano” em uma reunião aberta que irá acontecer no dia 13 de junho, no centro de São Paulo. O projeto, batizado de NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), será tema central da reunião.

“Existe uma confusão enorme sobre a crise, principalmente entre os próprios jornalistas. A gente acha que a profissão está morrendo. Não, o nosso salário, nossa CLT está morrendo, mas a nossa relevância, nossa capacidade de se comunicar é maior do que nunca”, diz Torturra.

Bruno nasceu no Rio de Janeiro, mas começou sua carreira em São Paulo, como editor de música na revista Trip , onde foi ainda repórter especial, correspondente internacional e diretor de redação. Atualmente colabora como roteirista do programa “Esquenta”, da Globo, e prepara um livro reportagem sobre “a renascença psicodélica em tempos de crise”, como define em seu site.

Á IMPRENSA, ele falou sobre a inspiração para escrever o texto e o que ele pretende com o projeto NINJA:

IMPRENSA - Quando surgiu a discussão sobre o “ficaralho”?

Bruno Toturra - Eu escrevi no mesmo dia em que publiquei [05/6], mas a discussão sobre o NINJA tem mais de um ano. É uma iniciativa que tem sido construída por comunicadores que promovem também o movimento Fora do Eixo, o movimento Existe Amor em SP, por pessoas que se identificam com essa ideia. O NINJA vem da necessidade de descobrir uma nova forma de fazer jornalismo sem precisar necessariamente passar pelos grandes veículos, mas ao mesmo tempo fazer um veículo reconhecível e forte o suficiente para ter repercussão, para não ficar simplesmente reféns de blogs, Facebook e Twitter.

Mas o que é o NINJA na prática?

Vamos fazer um portal e listar nesse site uma série de blogs, canais de streaming, galerias de fotógrafos, pessoas interessadas em entrar embaixo desse “selo”. Quem quiser fazer parte vai ser super bem vindo. Depois a gente vai catalogar esses comunicadores dispostos a entrar nessa nova lógica que a gente está tentando propor, com princípios que devem ser discutidos coletivamente e que passam por uma questão de horizontalidade, de espírito colaborativo. Que a credibilidade dessas pessoas, juntas, acabe fortalecendo esse veículo, para criar uma editora independente.

E como vai ser a reunião marcada para quinta-feira?

A gente não tem ideia de quantas pessoas vão aparecer. A reunião está sujeita à lotação do espaço, então quem estiver interessado, é legal não se atrasar. Vamos fazer uma apresentação, montar uma tela para mostrar algumas coisas, abrir para ser uma conversa com o máximo de pessoas que quiserem tirar dúvidas. Temos confirmação de pessoas muito interessantes, que seguem trabalhando em redações, mas estão interessadas no assunto.

As demissões adiantaram o momento de abrir a discussão ao público?

Não exatamente, esse chamado público ia acontecer de uma forma ou de outra. Eu fiz o texto depois de passar feriado com alguns amigos. Muitos deles haviam sido despedidos recentemente, passado por passaralhos de editoras diferentes e senti que ficaram muito aliviadas, não estavam com sentimento pesado de rejeição, com medo. E as pessoas que ficaram estavam assustadas, tristes, não vendo sentido do trabalho deles. Todos, de alguma maneira, perdidos em relação ao que fazer sobre a sua profissão.

E você imaginava que o texto teria essa repercussão?

Escrevi aquele texto sem a pretensão que fosse repercutir tanto, e digo isso muito sinceramente: tomei um susto depois que vi o retorno. É mais um sinal de que a gente está no caminho certo, que a gente tocou num ponto que muitos se identificaram. Mas muita gente ficou revoltada, achou que eu estou querendo piorar ainda mais a situação dos jornalistas.

Foram muitas reações negativas?

Uma galera viu umas coisas ali, por visão equivocada – eu digo isso porque nunca foi minha intenção mesmo de comemorar – que estava cuspindo no prato que eu comi. Outra [crítica] interessante é a de que uma iniciativa como essa, independente, jogava contra a nossa profissão, que eu não estava tendo um espírito de classe. Eu achei essa crítica super estranha e demonstra uma visão anacrônica e meio tacanha do que o jornalismo e a comunicação no fundo são.

Entre as críticas na internet, uma delas levantava a questão do dinheiro, sobre como jornalistas que acreditam nessa nova forma de jornalismo pagarão suas contas.

Essa é uma pergunta seríssima. Essa crítica eu recebi de algumas pessoas, mas quem não precisa pagar conta? Eu também preciso! Não tenho herança, não sou rico, não tenho nenhuma fonte de renda, não planto a minha própria comida, não tenho casa própria. Eu estou rigorosamente duro, quebrado, com dívida no banco. Mas uma coisa é pagar conta, outra é ter um salário. Se você acha que pagar conta é ter um salário, então realmente o jornalismo é uma profissão morta. Se os jornalistas querem apenas, através de um salário, ter a possibilidade de pagar suas contas, acho que deveriam correr para outra profissão, porque vai sobrar pouca gente com esse salário, cada vez menores e o trabalho cada vez mais precarizado.

Qual seria a solução, em sua opinião?

Se o jornalista achar que a defesa do trabalho dele é defender uma estabilidade empregatícia, ele está indo no contramão do fluxo do mundo hoje, porque aí não é só uma questão do jornalismo, é da própria crise da lógica de emprego, de como você troca cinco dias da sua semana por dinheiro. Eu nunca tive interesse em perder a minha liberdade, minha autonomia, em nome de um salário, então eu me sinto muito confortável nesse novo mundo. Posso ser ingênuo, estar equivocado, mas eu realmente quero continuar sendo jornalista, quero continuar me comunicando, cobrindo coisas, e acho isso importante demais para abandonar sem ao menos ter tentado algo novo.