Ativismo, governança e crime ambiental
Ativismo, governança e crime ambiental
Atualizado em 21/06/2010 às 18:06, por
Wilson da Costa Bueno.
O vazamento de petróleo no Golfo do México, sob a responsabilidade da BP, e que já se constitui em um dos maiores acidentes (crimes, é a palavra mais acertada!) ambientais de toda a história, continua trazendo lições importantes para as empresas, investidores, comunicadores, advogados etc.
O impacto brutal (e merecido) do acidente ambiental na imagem e reputação da BP tem sido acompanhado por prejuízos imensos (infelizmente menores para a empresa do que a agressão ao meio ambiente que ela protagonizou) e evidenciado aos investidores que é preciso estar atento aos riscos inerentes a determinados setores e atividades. Nesse caso, eles têm sido dramaticamente penalizados (não vão receber os dividendos referentes ao primeiro período do ano) porque as ações da BP despencaram (45% desde abril) e seu valor de mercado correspondentemente caiu mais de 80 bilhões de dólares. Uma pancada daquelas porque a sociedade cada vez mais pune as empresas predadoras e que atentam sistematicamente contra a sustentabilidade planetária.
Não é apenas a BP que andou correndo riscos perigosos e que está agora pagando o pato porque muitos setores fazem o mesmo sistematicamente. Quem garante que as empresas de transgênicos, que insistem - sem provas concludentes - que os organismos geneticamente modificados não fazem mal à saúde e ao meio ambiente não possam, num determinado momento, levar uma cacetada dessas também? Há pesquisas suficientes (muito pelo contrário) que provam que os transgênicos são seguros (você acredita nas empresas de biotecnologia e não leu O mundo segundo a Monsanto?). As empresas de tabaco já levaram a sua tempos atrás, depois de mentirem vergonhosamente sobre os malefícios do cigarro e serem desmascaradas (você não sabia que elas pagaram e ainda pagam uma indenização de bilhões de dólares em ação movido por estados americanos?). Quantas empresas agroquímicas (lembra-se do acidente de Bhopal?) não se ferraram e quantas não irão ainda se ver em apuros por danos ambientais causados pela poluição do ar, da água e do solo? E quantos foram os processos em que se envolveram (e ainda se envolvem) os laboratórios farmacêuticos (a Big Pharma tem uma ética suspeitíssima!) por culpa de deslizes éticos, falta de transparência, manipulações escandalosas da verdade etc? Você já leu A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angell? Pois é, precisa ler e rapidamente.
Assim como todos nós, cidadãos do planeta, os ativistas, particularmente aqueles que, estrategicamente, participam do conjunto de acionistas de algumas empresas estão vigilantes e se mobilizam no mundo todo (somos ainda tímidos por aqui, mas deveríamos estar mais dispostos a cobrar das empresas transparência e excelência na gestão de riscos) para exigir uma governança sintonizada com os novos tempos.
Artigo publicado no dia 21 de junho último no Valor Econômico, sob o título Desastre da BP coloca acionistas em alerta (p.D4), indica que os acionistas nos EUA não estão dormindo de touca; muito pelo contrário, mesmo antes do acidente da BP, cobram, denunciam, promovem manifestações em favor de maior atenção com os riscos, especialmente os relacionados com o meio ambiente. A BP está sentindo na pele o que isso significa, especialmente porque agiu irresponsavelmente e não estava preparada para uma situação como a que ela provocou, embora estes riscos estejam presentes sempre na atividade de exploração de petróleo (quantos acidentes ambientais não envolveram a nossa querida Petrobras nas últimas décadas, hein? Você lembra do acidente da Vila Socó ou da plataforma que afundou? Você se lembra da sujeira na Baia da Guanabara?)
Além dos investidores, os comunicadores (incluindo principalmente os jornalistas que cobrem finanças) deveriam estar capacitados para esta análise, buscando chamar a atenção para a ação de determinadas empresas e setores que continuam apostando contra a natureza, a saúde, os direitos dos cidadãos.
Todos sabemos que, apesar da mudança da legislação que dita as regras para a chamada governança corporativa, as empresas insistem em fraudar os balanços (quantas não foram para o beleléu ou estão no fundo do poço por causa disso, não é verdade?) e em ocultar a verdade de investidores e da própria sociedade. Você não se lembra do escândalo que veio à tona na última crise quando empresas quase falidas (muitas das montadoras que arrogantemente estão por aqui) foram surpreendidas pagando altos salários para seus diretores enquanto corriam o pires para governos, que as salvaram da bancarrota, temendo a demissão em massa (que ocorreu mesmo assim)?
Ao mesmo tempo, os promotores, os advogados em geral precisam capacitar-se na área do Direito Ambiental e estarem dispostos a defender a sociedade e clientes específicos (a BP até agora já recebeu mais de 42 mil pedidos de indenização!) prejudicados pela atuação predadora de empresas. Isso porque estas companhias de lucros fabulosos e ética reduzida têm sempre uma banca de advogados do maior quilate, visto que estão sempre à beira do desastre. Você imagina que é fácil ganhar uma ação das empresas de tabaco, agroquímicas ou de laboratórios? Se a rotulagem dos transgênicos e o rastreamento não for feito, como culpar as fabricantes de OGMs? (não é por isso que elas fazem lobby na CTNBio para impedir que tenhamos provas?)
O acidente da BP tem mais este efeito pedagógico e ele precisa ser assimilado de agora em diante, se investidores, dirigentes de movimentos sociais, defensores dos direitos humanos, ambientalistas etc não quiserem ser atropelados pelas empresas que, dinossauricamente, atentam contra tudo e contra todos, movidas pela ganância e pela postura não ética.
Está na hora de acompanharmos mais de perto os passos de determinadas empresas, setores, atividades para que não sejamos surpreendidos como foram os atingidos pelo desastre da BP, pescadores, prestadores de serviços de turismo da região ou mesmo os investidores que acreditavam estar botando seu dinheiro em porto seguro.
Esperamos que o governo e a sociedade americanos punam exemplarmente a BP para que crimes ambientais como esse não se repitam. Esperamos também que a nossa Petrobras redobre sua atenção com o seu projeto de exploração do pré-sal e é saudável que, apesar de gostarmos dela - um verdadeiro orgulho para todos nós -estejamos atentos aos riscos que esta atividade representa. Você acha que, se algo como o que ocorreu no Golfo do México, acontecesse com a nossa querida Petrobras ela teria uma saída melhor para enfrentar o problema?
A cobertura ambiental deve incorporar estas preocupações e se caracterizar, como sempre temos insistido, pela multi e interdisciplinaridade, conjugando aspectos técnicos com políticos, econômicos, financeiros e sócio-culturais.
Infelizmente, a imprensa brasileira continua enxergando os grandes projetos (hidrelétricas, novas plantas industriais em mineração, celulose, agroquímica, siderurgia etc) apenas pelo olhar míope do faturamento das empresas e da criação de empregos, sem avaliar adequadamente o impacto ambiental. Cada nova fábrica de automóveis que se instala em solo brasileiro consome brutalmente recursos naturais, impacta o seu entorno e emporcalha o ar (e contamina a nossa saúde) com carros quase sempre poluidores (a Petrobras já melhorou a sua suja gasolina e diesel ou vamos ficar com aquela porcaria que mata muita gente em nossas grandes cidades?). E o que dizer da indústria de bebidas (as grandes cervejarias, como a AMBEV) que querem convencer o governo a reduzir a carga tributária em troca de novas fábricas (mais latinhas, mais impacto brutal no meio ambiente e mais acidentes de automóveis envolvendo jovens incautos!).
Crimes ambientais merecem punição equivalente ao dano que causam. Mas, pelo menos no Brasil, empresas pagam pouco (quando pagam) e continuam agredindo a natureza, a nossa saúde, sem prestar contas a ninguém. Infelizmente, o ditado, muitas vezes repetido, costuma não ser verdade na terra brasileira: a justiça por aqui tarda mas também falha. Alguém imagina que acontece o contrário?
Olho vivo com as empresas predadoras. Elas costumam ser lucrativas enquanto os acidentes, como o da BP, não acontecem. Não seria melhor, em nome do planeta, da saúde, do meio ambiente etc, você colocar dinheiro em outro lugar e pensar a médio e longo prazos? As ações das empresas de cigarro costumam dar lucro, mas vale a pena investir contra a saúde de todos nós? Você é que decide, mas uma mãozinha na consciência poderia ser saudável nos dias atuais.
O século XXI exige novas posturas, novas atitudes, mas tem gente que vive lucrando com o olhar comprometido com o passado. Um pé nos fundilhos de todos que agem desta forma. E ainda é pouco. Se pudesse, arrancava as orelhas deles com um puxão fenomenal. Não iria fazer falta alguma: são surdos mesmo.

O impacto brutal (e merecido) do acidente ambiental na imagem e reputação da BP tem sido acompanhado por prejuízos imensos (infelizmente menores para a empresa do que a agressão ao meio ambiente que ela protagonizou) e evidenciado aos investidores que é preciso estar atento aos riscos inerentes a determinados setores e atividades. Nesse caso, eles têm sido dramaticamente penalizados (não vão receber os dividendos referentes ao primeiro período do ano) porque as ações da BP despencaram (45% desde abril) e seu valor de mercado correspondentemente caiu mais de 80 bilhões de dólares. Uma pancada daquelas porque a sociedade cada vez mais pune as empresas predadoras e que atentam sistematicamente contra a sustentabilidade planetária.
Não é apenas a BP que andou correndo riscos perigosos e que está agora pagando o pato porque muitos setores fazem o mesmo sistematicamente. Quem garante que as empresas de transgênicos, que insistem - sem provas concludentes - que os organismos geneticamente modificados não fazem mal à saúde e ao meio ambiente não possam, num determinado momento, levar uma cacetada dessas também? Há pesquisas suficientes (muito pelo contrário) que provam que os transgênicos são seguros (você acredita nas empresas de biotecnologia e não leu O mundo segundo a Monsanto?). As empresas de tabaco já levaram a sua tempos atrás, depois de mentirem vergonhosamente sobre os malefícios do cigarro e serem desmascaradas (você não sabia que elas pagaram e ainda pagam uma indenização de bilhões de dólares em ação movido por estados americanos?). Quantas empresas agroquímicas (lembra-se do acidente de Bhopal?) não se ferraram e quantas não irão ainda se ver em apuros por danos ambientais causados pela poluição do ar, da água e do solo? E quantos foram os processos em que se envolveram (e ainda se envolvem) os laboratórios farmacêuticos (a Big Pharma tem uma ética suspeitíssima!) por culpa de deslizes éticos, falta de transparência, manipulações escandalosas da verdade etc? Você já leu A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angell? Pois é, precisa ler e rapidamente.
Assim como todos nós, cidadãos do planeta, os ativistas, particularmente aqueles que, estrategicamente, participam do conjunto de acionistas de algumas empresas estão vigilantes e se mobilizam no mundo todo (somos ainda tímidos por aqui, mas deveríamos estar mais dispostos a cobrar das empresas transparência e excelência na gestão de riscos) para exigir uma governança sintonizada com os novos tempos.
Artigo publicado no dia 21 de junho último no Valor Econômico, sob o título Desastre da BP coloca acionistas em alerta (p.D4), indica que os acionistas nos EUA não estão dormindo de touca; muito pelo contrário, mesmo antes do acidente da BP, cobram, denunciam, promovem manifestações em favor de maior atenção com os riscos, especialmente os relacionados com o meio ambiente. A BP está sentindo na pele o que isso significa, especialmente porque agiu irresponsavelmente e não estava preparada para uma situação como a que ela provocou, embora estes riscos estejam presentes sempre na atividade de exploração de petróleo (quantos acidentes ambientais não envolveram a nossa querida Petrobras nas últimas décadas, hein? Você lembra do acidente da Vila Socó ou da plataforma que afundou? Você se lembra da sujeira na Baia da Guanabara?)
Além dos investidores, os comunicadores (incluindo principalmente os jornalistas que cobrem finanças) deveriam estar capacitados para esta análise, buscando chamar a atenção para a ação de determinadas empresas e setores que continuam apostando contra a natureza, a saúde, os direitos dos cidadãos.
Todos sabemos que, apesar da mudança da legislação que dita as regras para a chamada governança corporativa, as empresas insistem em fraudar os balanços (quantas não foram para o beleléu ou estão no fundo do poço por causa disso, não é verdade?) e em ocultar a verdade de investidores e da própria sociedade. Você não se lembra do escândalo que veio à tona na última crise quando empresas quase falidas (muitas das montadoras que arrogantemente estão por aqui) foram surpreendidas pagando altos salários para seus diretores enquanto corriam o pires para governos, que as salvaram da bancarrota, temendo a demissão em massa (que ocorreu mesmo assim)?
Ao mesmo tempo, os promotores, os advogados em geral precisam capacitar-se na área do Direito Ambiental e estarem dispostos a defender a sociedade e clientes específicos (a BP até agora já recebeu mais de 42 mil pedidos de indenização!) prejudicados pela atuação predadora de empresas. Isso porque estas companhias de lucros fabulosos e ética reduzida têm sempre uma banca de advogados do maior quilate, visto que estão sempre à beira do desastre. Você imagina que é fácil ganhar uma ação das empresas de tabaco, agroquímicas ou de laboratórios? Se a rotulagem dos transgênicos e o rastreamento não for feito, como culpar as fabricantes de OGMs? (não é por isso que elas fazem lobby na CTNBio para impedir que tenhamos provas?)
O acidente da BP tem mais este efeito pedagógico e ele precisa ser assimilado de agora em diante, se investidores, dirigentes de movimentos sociais, defensores dos direitos humanos, ambientalistas etc não quiserem ser atropelados pelas empresas que, dinossauricamente, atentam contra tudo e contra todos, movidas pela ganância e pela postura não ética.
Está na hora de acompanharmos mais de perto os passos de determinadas empresas, setores, atividades para que não sejamos surpreendidos como foram os atingidos pelo desastre da BP, pescadores, prestadores de serviços de turismo da região ou mesmo os investidores que acreditavam estar botando seu dinheiro em porto seguro.
Esperamos que o governo e a sociedade americanos punam exemplarmente a BP para que crimes ambientais como esse não se repitam. Esperamos também que a nossa Petrobras redobre sua atenção com o seu projeto de exploração do pré-sal e é saudável que, apesar de gostarmos dela - um verdadeiro orgulho para todos nós -estejamos atentos aos riscos que esta atividade representa. Você acha que, se algo como o que ocorreu no Golfo do México, acontecesse com a nossa querida Petrobras ela teria uma saída melhor para enfrentar o problema?
A cobertura ambiental deve incorporar estas preocupações e se caracterizar, como sempre temos insistido, pela multi e interdisciplinaridade, conjugando aspectos técnicos com políticos, econômicos, financeiros e sócio-culturais.
Infelizmente, a imprensa brasileira continua enxergando os grandes projetos (hidrelétricas, novas plantas industriais em mineração, celulose, agroquímica, siderurgia etc) apenas pelo olhar míope do faturamento das empresas e da criação de empregos, sem avaliar adequadamente o impacto ambiental. Cada nova fábrica de automóveis que se instala em solo brasileiro consome brutalmente recursos naturais, impacta o seu entorno e emporcalha o ar (e contamina a nossa saúde) com carros quase sempre poluidores (a Petrobras já melhorou a sua suja gasolina e diesel ou vamos ficar com aquela porcaria que mata muita gente em nossas grandes cidades?). E o que dizer da indústria de bebidas (as grandes cervejarias, como a AMBEV) que querem convencer o governo a reduzir a carga tributária em troca de novas fábricas (mais latinhas, mais impacto brutal no meio ambiente e mais acidentes de automóveis envolvendo jovens incautos!).
Crimes ambientais merecem punição equivalente ao dano que causam. Mas, pelo menos no Brasil, empresas pagam pouco (quando pagam) e continuam agredindo a natureza, a nossa saúde, sem prestar contas a ninguém. Infelizmente, o ditado, muitas vezes repetido, costuma não ser verdade na terra brasileira: a justiça por aqui tarda mas também falha. Alguém imagina que acontece o contrário?
Olho vivo com as empresas predadoras. Elas costumam ser lucrativas enquanto os acidentes, como o da BP, não acontecem. Não seria melhor, em nome do planeta, da saúde, do meio ambiente etc, você colocar dinheiro em outro lugar e pensar a médio e longo prazos? As ações das empresas de cigarro costumam dar lucro, mas vale a pena investir contra a saúde de todos nós? Você é que decide, mas uma mãozinha na consciência poderia ser saudável nos dias atuais.
O século XXI exige novas posturas, novas atitudes, mas tem gente que vive lucrando com o olhar comprometido com o passado. Um pé nos fundilhos de todos que agem desta forma. E ainda é pouco. Se pudesse, arrancava as orelhas deles com um puxão fenomenal. Não iria fazer falta alguma: são surdos mesmo.






