“Ataques cibernéticos e o impacto na reputação”, por Roberta Lippi
Em 72 horas, todos os possíveis cenários deveriam estar traçados, assim como uma estratégia de comunicação pronta para cada um deles, com es
Opinião
Sexta-feira, 16h. Eu já estava começando a entrar no ritmo do fim de semana, quando recebo uma mensagem por whatsapp:
- Oi, Roberta, tudo bem? Preciso falar com você com urgência. Aqui é o Fulano da empresa Y. Sofremos um ataque cibernético no início da semana e o hacker está ameaçando divulgar informações confidenciais da companhia na deepweb nessa próxima segunda-feira. Não sabemos exatamente o que ele tem em mãos. Os advogados e especialistas da área de segurança da informação estão trabalhando nessa apuração. Já havíamos bloqueado todas as possíveis entradas do hacker no sistema e acreditávamos que a situação estava sob controle, mas agora que recebemos essa ameaça percebemos que temos um problema grande de comunicação. Precisamos de ajuda.
Aciono imediatamente minha equipe e marcamos a primeira reunião com o cliente. Os executivos da empresa, filial de uma multinacional, estavam tensos e não sabiam por onde começar. O comitê de crise montado até então era composto por equipes técnicas e operacionais, mas ninguém de comunicação tinha sido envolvido até o momento. Entre os dados roubados pelo invasor poderia haver informações pessoais e financeiras de milhares de clientes, contratos com o governo, remunerações de executivos e e documentos estratégicos de uma transação.
Mesmo sem ter todas as respostas, precisaríamos preparar no fim de semana todas as mensagens, documento de perguntas e respostas (o famoso Q&A), posicionamento reativo para a imprensa e comunicado para os órgãos reguladores. Detalhe: em português e em inglês, porque tudo teria de ser aprovado pela matriz. Além disso, seria preciso decidir em qual momento deveria ser feita uma comunicação proativa para os demais stakeholders – investidores, funcionários, imprensa, clientes. pecificidades de linguagem para cada público.
Antes restritos à área de tecnologia, os ataques cibernéticos já se tornaram há um bom tempo um risco importante para a gestão dos negócios. CEOs passaram a ver a segurança de dados como uma prioridade – até mesmo para atender às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) – e, nas grandes empresas, o debate subiu para o nível do conselho de administração. Mas, ainda assim, poucas organizações no Brasil estão de fato preparadas para enfrentar um ataque cibernético sob a ótica da reputação.
A forma como se constrói a narrativa em torno de uma crise desse perfil e a transparência da comunicação com os seus diferentes públicos, a ser desenhada em conjunto com a equipe jurídica especializada, é determinante para minimizar o impacto negativo que ela terá sobre a imagem da companhia e, consequentemente, sobre o negócio. É fundamental ter consciência que uma crise de cybersegurança vai muito além das questões legais e de segurança de dados – ela esbarra no grave risco da perda de confiança.
* é sócia da Brunswick Group, consultoria internacional de comunicação estratégica. Jornalista com pós-graduação em gestão empresarial pelo Insper e especialização em comunicação internacional pela Universidade de Syracuse/Aberje, tem 25 anos de experiência na área de comunicação, com foco em posicionamento corporativo, mídia, crises, comunicação interna e treinamento de executivos. É membro desde 2015 do Programa Diversidade em Conselho, iniciativa de B3, IBGC, IFC, Spencer Stuart e WCD para ampliar a diversidade em conselhos de administração.





