"Assumi a direção de uma Ferrari, não de um Fusca 66", diz Sérgio Dávila sobre a Folha
"Assumi a direção de uma Ferrari, não de um Fusca 66", diz Sérgio Dávila sobre a Folha
Atualizado em 05/04/2010 às 15:04, por
Ana Ignacio/Da Redação e Thaís Naldoni/Redação Portal IMPRENSA.
"Assumi a direção de uma Ferrari, não de um Fusca 66", diz Sérgio Dávila sobre a Folha
Por Em janeiro deste ano, quando fazia a cobertura de uma conferência dos doadores do Haiti, em Montreal, no Canadá, o jornalista Sérgio Dávila - embora tivesse a ideia de pedir seu retorno ao Brasil, depois de dez anos como correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York, Califórnia e Washington - não esperava que um telefonema de Otávio Frias Filho pudesse concretizar seus planos e ainda dar a ele um novo desafio: assumir a edição executiva de um dos maiores jornais do país.| Reprodução |
| Dávila em videocast |
Em seu período como correspondente, o jornalista cobriu diversos acontecimentos importantes da história mundial como o atentado de 11 de setembro, a guerra do Iraque e a eleição de Barack Obama. Além disso, a vivência no exterior possibilitou a ele ter uma visão ampla das transformações pelas quais passaram os jornais, sobretudo os norte-americanos. "Desde 2004, a imprensa dos Estados Unidos já discute questões como abrir e fechar conteúdo, multiplataformas, a preocupação em dar a mesma qualidade editorial no papel, no online, no celular, no tablet. Acompanhei isso como jornalista interessado e acabei escrevendo sobre o tema e reportando isso ao jornal", observou.
Dávila recebeu a reportagem do Portal IMPRENSA no prédio da Folha , no centro da capital paulista, que já está fisicamente diferente: redação reformada e jornalistas do impresso e do online juntos. Aos poucos, as modificações do jornal ficam mais claras. Os projetos - e expectativas - são muitos: mudança gráfica e editorial para maio, investimento em mídias sociais, maior interação entre impresso e online e caderno especial de eleições.
Sobre esses e outros assuntos, Dávila falou com exclusividade à IMPRENSA, em sua primeira entrevista desde que assumiu efetivamente o novo cargo. Acompanhe.
IMPRENSA - Foram 10 anos como correspondente internacional da Folha . Que balanço você faz desse seu tempo fora? Sérgio Dávila - Do ponto de vista jornalístico foi uma sorte pra mim estar fora esses dez anos. Nessa década, peguei a eleição Bush versus Al Gore, que foi muito importante; peguei 11 de setembro, morando a vinte quadras do atentado; a guerra do Iraque in loco; a reeleição do Bush, toda a crise econômica e a eleição do Obama. Então não posso dizer que tive um ano sequer de tédio nesse tempo fora. Foi muito empolgante, com muitos assuntos determinantes pra nossa época.
E do ponto de vista não jornalístico, mas ainda profissional, foi muito bom ficar justamente essa década fora porque vi a transformação do jornalismo americano que, devagar, está chegando aqui. Vi as empresas americanas abrirem tudo na internet, depois quebrarem a cara fazendo isso e começar a repensar tudo e cobrar por conteúdo. Foi muito bom ver esse movimento do ponto de vista de mercado, estar atento aos erros que eles cometeram para não cometer os mesmos.
IMPRENSA - E como foi essa transição de cargos? De repórter de campo para um cargo de editor de um veículo gigante? Ter sido repórter por tanto tempo ajuda? Dávila - Eu tenho um passado negro, fui editor por duas vezes. Editor da Veja SP por três anos e da "Ilustrada", então eu já tinha essa experiência do outro lado do balcão, de gerenciar equipe, ego, parte administrativa e tal. Agora, obviamente, as equipes que coordenei eram de umas trinta pessoas e hoje é uma redação de 350, então a escala é diferente, o desafio é enorme. Estou tendo ideia desse desafio porque estou só há três semanas no cargo.
Acho que o fato de eu ter passado tantos anos como repórter me qualifica para trabalhar de igual para igual com os repórteres. É mais fácil de entender as exigências deles, de exigir mais porque sei o que eles podem render ou não, por ter sido um por muitos anos e também ajuda a não ser enrolado por eles [risos]. É muito difícil um repórter enrolar outro repórter. Antes de ser o editor-executivo, sou um repórter também. Sei até onde posso ir com o reportariado e até onde eles podem ir comigo. Esse back ground é muito interessante. Me dá muito manejo e ferramenta para lidar com o pessoal.
| Divulgação | |
| Sérgio Dávila |
IMPRENSA - O que prevê esse novo projeto? Dávila - Ele prevê um novo visual que acho que vai ser ousadíssimo, muito impactante. Vai tornar o jornal mais agradável de ler, em se tratando do aspecto visual. Já do ponto de vista do conteúdo, o que é quase um paradoxo, uma dicotomia, já que ao mesmo tempo que vamos ter textos mais enxutos, eles serão mais analíticos. As pessoas querem se informar rapidamente, mas não querem só saber que fulano morreu ontem, por exemplo. Ele quer saber o que isso significa, de que forma isso vai influenciar na vida dele. Tem que ir além do "aconteceu ontem". Queremos agregar valor com análise e didatismo.
Ao mesmo tempo, não vamos abrir mão do arroz com feijão que é o furo e a informação exclusiva, isso vai ser nossa prioridade zero. É ir para a rua e trazer o exclusivo. E furo não é só o do "Mensalão". O furo é também um olhar exclusivo sobre uma coisa que todo mundo sabe. Em cima do que a gente chama de informação commodity, que é uma mercadoria que todo mundo tem, você tem que aplicar um olhar que só a Folha tem. E a terceira parte desse projeto é uma integração maior dos meios online e papel, eles vão conversar mais. Você vai sentir isso no papel e no online.
IMPRENSA - Vocês já realizaram uma integração física das redações. Isso já surtiu algum efeito? Dávila - Já surtiu. A ideia da integração física era colocar os repórteres juntos para que as culturas se contaminassem. Um exemplo disso foi o caso Nardoni. Mandamos cinco repórteres entre online e papel. Fizemos uma cobertura muito importante no dia seguinte da sentença, mas ao mesmo tempo, na reta final do julgamento, a gente fez o live blogging . Então, estávamos preocupados com o que daríamos de exclusivo no dia seguinte e com o que podemos dar agora pro leitor online. Na web, a gente teve 800 mil unique visitors só nesse live blogging e, no dia seguinte, todos os exemplares do jornal foram vendidos. Então, você vê que um não roubou nada do outro, um não canibaliza o outro e você atendeu os dois tipos de leitor.
IMPRENSA - As mudanças pelas quais o jornal vai passar visam o leitor mais jovem? Como as mídias sociais vão entrar nesse projeto? Dávila - Mídia social é uma das prioridades da Folha . Você não pode ignorar essa ferramenta e queremos estar cada vez mais presentes e interativos nas mídias sociais. Quanto a isso, vamos ter novidades em maio. Em relação aos leitores mais jovens, todo mundo quer esse leitor, é o futuro dos veículos de comunicação. Pelas pesquisas, esse leitor mais jovem entra no jornal por três portas: o "Folhateen", a cobertura de esportes e a cobertura de cultura. Estamos reforçando essas três áreas para que elas sejam cada vez mais atraentes para esse leitor jovem e, no online, é um pouco mais difícil saber isso porque é um universo muito amplo. Tem de tudo. Mas temos a impressão de que os leitores do online são mesmo mais jovens.
IMPRENSA - As pessoas que estavam na direção antes ocupavam esses cargos há muito tempo no jornal. Como sua chegada foi encarada pela equipe? Dávila - Essa equipe que estava antes de mim [Eleonora de Lucena, Vaguinaldo Marinheiro e Susana Singer] são três dos melhores jornalistas da Folha , tanto que vão continuar na empresa. O Vaguinaldo vai para Londres, a Susana vai ser ombudsman e a Eleonora foi convidada para ser correspondente em Washington e está estudando a proposta. São três cargos dos mais importantes do jornal. Só houve essa visão da direção de que era preciso fazer essa mudança de comando, mas não tem nenhuma implicação de valores nisso, não é que saiu quem era pior e quem entrou é melhor. Nosso desafio é mostrar que somos tão bons quanto, porque esse pessoal que estava aqui era muito bom. Mas sem trauma, sem rompimento.
IMPRENSA - Além da mudança na diretoria, funcionários de longa data do jornal também saíram. Há quem diga que a Folha estaria passando por algum tipo de crise. Como você vê este cenário? Dávila - O jornal continua sendo líder, temos o plano de que ele continue líder por décadas e décadas, não vamos abrir mão de nenhum leitor do papel, pelo contrário, queremos crescer a circulação do papel, aumentar também no online. Aqui, não há qualquer sinal de crise. Na minha opinião, inclusive, essa crise que foi verificada no jornalismo norte-americano não chegou ao Brasil.
IMPRENSA - O cineasta Fábio Barreto disse, em entrevista à Playboy , que o Otavinho [Otávio Frias Filho] estaria afundando o jornal que o pai tanto lutou para colocar onde está. O que você acha de críticas desse tipo? Dávila - Eu confesso que não li essa entrevista e não falaria nada contra o que ele disse porque ele nem tem chance de se defender. E também não vou defender o Otávio porque ele tem condição de fazer isso sozinho, mas se eu pudesse colocar um dado factual nessa história, o Otávio está no comando da Folha desde os anos 80, então dizer que ele está piorando o jornal agora em 2010, é desconhecer a história da publicação. Ele tem poder de decisão no jornal há 30 anos. Quer dizer, não vejo essa guinada. Eles trabalharam lado a lado todo esse tempo. Tudo que o Otávio faz, tenho certeza, teria a chancela do Sr. Frias, se ele estivesse vivo. Não tem rompimento nenhum aí.
IMPRENSA - Seria bobagem falar em qualquer tipo de crise na Folha ? Dávila - Seria bobagem completa tanto do ponto de vista editorial, quanto comercial, quanto de empresa. Eu conheço a empresa e posso te dizer que não tem fundamento nenhum.
IMPRENSA - Estamos às vésperas de um período eleitoral. O que a sua experiência em cobertura de eleições nos EUA pode ajudar no jornal neste ano? Dávila - A gente quer fazer uma cobertura vigorosa das eleições. Eu venho com essa experiência de ter passado dois anos cobrindo a eleição presidencial americana, que foi impressionante de todos os pontos de vista: ideológico, econômico, o profissionalismo das pessoas que faziam e cobriram a campanha. Eu aprendi muito ali e vou tentar trazer um pouco dessa experiência para a eleição brasileira.
Temos um time muito bom, estamos preparando uma editoria especial, vai ter um caderno especial, uma equipe separada da cobertura de dia a dia. Essa eleição é muito diferente da de 2006. Não só politicamente, mas do ponto de vista global. Se você pensar, em 2006, não existia Twitter e Youtube, duas coisas que já mudaram o mundo. É outro universo. Estamos encarando essa corrida eleitoral como um mundo novo. Promete ser histórica.
Os dois candidatos [José Serra e Dilma Rousseff] são até semelhantes entre si, mas são muito diferentes, programas diferentes. Vai ser um desafio, mas vai ser um desafio muito bom. Até maio vamos ter uma dimensão mais exata de qual vai ser o exército com que vamos cobrir essa guerra.
IMPRENSA - O que funciona nos EUA, dos jornais tomarem partido publicamente durante as eleições, funcionaria no Brasil? Dávila - Na Folha não funcionaria. A Folha se fez sendo apartidária, crítica, pluralista e independente. Se o jornal declarar apoio a um ou outro candidato, mesmo que no editorial e não no noticiário, esse patrimônio seria arranhado de alguma maneira, então não temos intenção de fazer isso. O leitor brasileiro talvez não perceba muito a diferença entre o que é editorial e o que é reportagem pura. Talvez você confunda quem lê e isso não nos interessa de jeito nenhum, então podem esperar para 2010 a Folha isenta.
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