Assis Chateaubriand: "O Petróleo é Vosso"

Assis Chateaubriand: "O Petróleo é Vosso"

Atualizado em 21/02/2011 às 12:02, por Nelson Varón Cadena.

Há meio século esquentava no Brasil a polêmica em torno da nacionalização do petróleo, com vários protagonistas de peso se manifestando nos espaços de opinião da imprensa, dentre eles o Diretor-Presidente dos Diários e Emissoras Associadas Assis Chateaubriand que não poupou tintas e argumentos e nesse ano de 1951 escreveu mais de uma dezena de artigos e editoriais defendendo a participação de capital estrangeiro na extração e distribuição do petróleo brasileiro. "O petróleo é vosso" provocava o jornalista.
A nacionalização do petróleo já era um tema recorrente na imprensa, desde o "affaire" entre o escritor Monteiro Lobato e o Presidente da República, mas foi em 1948 que o assunto tornou-se de fato midiático após os eventos da Associação Brasileira de Imprensa-ABI e a repressão de Dutra ao movimento que resultou no lançamento da célebre campanha "O Petróleo é Nosso".
Em 1951 com a volta ao poder de Getúlio Vargas o movimento se consolidava a partir do apoio do executivo multiplicando os atores políticos. Na Mídia dois desses atores chamavam a atenção, ambos contrários à nacionalização do petróleo: Carlos Lacerda pela virulência da linguagem e o tom raivoso quando tratava do assunto na sua "Tribuna da Imprensa" e Assis Chateaubriand, mais contido, mais firme nas suas posições à respeito da importância do capital estrangeiro para desenvolver a indústria petrolífera nacional. Lacerda visava Getúlio e batia no fígado; Chateaubriand defendia interesses, provavelmente seus.
Para fazer escolas
O dono dos Diários Associados entrou na polêmica com a publicação em 10 de janeiro de 1951 do editorial "O petróleo e a iniciativa privada". Argumentava que o dinheiro do estado era para fazer escolas e proporcionar outros benefícios à população e não para investir em prospecção de poços e pontificava "Se há um empreendimento comportando toda a sorte de riscos, é o petróleo. Seria justo o Estado tomá-lo para si, envolvendo os fundos do erário na empresa, para vir depois, de público e raso, dizer que os milhões que ele desviou das escolas, dos hospitais, a pesquisa frustrada do petróleo os consumiu?".
Retomava o discurso na semana seguinte 198/01/1951 com a publicação do artigo "O problema da industrialização do petróleo pela iniciativa privada". Desta vez alegava em defesa do capital estrangeiro que as probabilidades de êxito na prospecção eram de um para oito e concluía: "Aliviaria o Governo e os contribuintes brasileiros do pesado fardo de aplicação de largas quantias em aventuras petrolíferas, sem resultado, as quais nenhum governo tem suficiente experiência para levar a cabo remunerativamente". Em 30 de janeiro de 1951 no artigo "a participação estrangeira no aproveitamento do petróleo brasileiro", desmistificava o argumento dos nacionalistas em torno da soberania nacional: "O Brasil é uma potência cuja soberania está fora de qualquer discussão. Nação adulta tem suficiente confiança em si e meios para impor a sua jurisdição e super-vigilância sobre qualquer indústria que se desenvolva dentro de suas fronteiras, à qual ficará sob o exclusivo império das leis brasileiras".
Petróleo não é banha
O jornalista continuou a defender a participação da iniciativa privada na pesquisa e exploração do petróleo em editoriais pontuais: "Legislação petrolífera da província de Alberta" em 13 de fevereiro; "Horizontes do petróleo" em 13 de abril; "Petróleo, café e dólares" em 15 de abril; "O petróleo" em 13 de junho; "500 milhões de dólares gastos em quatro anos" em 24 de julho; "O jogo russo do petróleo" em 26 de agosto; "A lição do governo trabalhista inglês no caso do petróleo" em 26 de setembro; "O petróleo é vosso; Nossos ficarão sendo os dólares, as libras e os florins", em 29 de setembro; "Duzentas companhias estão desenvolvendo o Petróleo do Canadá" em 7 de dezembro.; "Resultado da liberdade da procura do petróleo no Canadá" em 8 de dezembro; "Cem milhões de dólares de novas refinarias" em 9 de dezembro.
O proprietário dos Diários Associados manteve a coerência em toda a sua exposição de motivos e uma certa elegância na abordagem do tema, em nenhum momento atacando o Governo e as suas decisões em prol da nacionalização do petróleo. Defendia uma causa com determinação, porém sem unhas e dentes e não fez disso uma questão de honra.
Tudo podia ser resolvido, argüia, com Leis que regulassem a exploração do petróleo por empresas estrangeiras e provocava : "Tratamos a pesquisa de combustíveis líquidos e sólidos, em nosso subsolo, como se petróleo e carvão fossem ferro, banha, manteiga, cacau, manganês, ou mica. Não há porque proibir um estrangeiro de explorar petróleo, se o petróleo que ele vai vender tem a sua produção e o seu comércio regulados por leis do país onde ele é encontrado".