“As voltas que o mundo dará e o efeito borboleta”, por Flavio Ferrari
É relativamente fácil identificarmos o impacto de grandes acontecimentos, como o da pandemia que nos acometeu. Nos últimos meses, fomos soterrados por notícias do presente e previsões para o futuro próximo, nos cenários humano, econômico, científico e tecnológico.
Nos últimos meses, fomos soterrados por notícias do presente e previsões para o futuro próximo, nos cenários humano, econômico, científico e tecnológico.
Mas esses não são os únicos olhares possíveis.
Numa escala universal, qualquer fenômeno que nos abale, por mais importante que seja para a humanidade, tem dimensões que poderiam ser consideradas insignificantes.
Com ou sem pandemia, a Terra continua a girar e o Sol segue brilhando, insensíveis ao nosso sofrimento.
Por outro lado, aqui mesmo em nosso singular cafofo cósmico, pequenas mudanças, nem sempre tão evidentes, irão transformar nosso futuro.
Crédito: montagem PixabayChamamos isso de “efeito borboleta”, um conceito da teoria do caos que se refere ao que acontece quando alteramos o valor de uma variável no início de uma sequência de eventos relacionados. Uma reação em cadeia.
A breve experiência com o trabalho remoto (home office), por exemplo, deverá levar à transformação gradativa das relações de trabalho, e acelerar o modelo de trabalho flexível (a GIG economy). Com isso, as pessoas terão menor necessidade de deslocamento e poderão escolher locais mais agradáveis ou mais baratos para morar. O vetor de concentração populacional, que vinha apontando para os grandes centros urbanos e os conglomerados de escritórios das grandes empresas, perderá força e a população, gradativamente, será mais bem distribuída. As grandes cidades sofrerão transformações significativas em suas dinâmicas, demandando a revisão da estrutura de serviços públicos e incentivando o desenvolvimento de negócios locais. Em 10 anos, veremos uma redução da concentração do PIB e novos polos de desenvolvimento espalhados pelo país. Tudo isso porque parte da população foi obrigada a passar alguns meses trabalhando em casa.
A restrição do deslocamento é um outro fator que poderá gerar desdobramentos interessantes. Uma pesquisa realizada pela MindMiners em junho do corrente ano, aponta que 62% das pessoas que costumam fazer viagens internacionais darão preferências a viagens domésticas após a pandemia, buscando hotéis de médio ou pequeno porte (82%). O ecoturismo nacional deverá ser privilegiado, gerando empregos com menor demanda de especialização, estimulando a economia de pequenas comunidades e contribuindo para o desenvolvimento da consciência ecológica nacional. Em 10 anos, podemos esperar que o Brasil se transforme em um relevante destino turístico também para o mercado internacional, não mais apenas pelo Carnaval ou pelas praiais do Nordeste, mas pela oportunidade de encontro com a natureza, as caminhadas com significado e o turismo de aventura. A pressão para cuidarmos de nossas reservas naturais deixará de ser externa, e as próprias comunidades cuidarão de sua preservação. Outras trilhas de conhecimento serão valorizadas, como a história, a biologia, a sociologia, as artes e a cultura. Tudo isso porque passamos algum tempo confinados e refletindo sobre o significado da vida.
O mundo seguirá dando as mesmas voltas, mas as experiências disruptivas que vivemos neste ano colocaram em marcha processos de mudança que terão desdobramentos surpreendentes.
Crédito: Gladstone Campos
é coautor do livro “Acumen – The future castles’ stones”.
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