As tiragens de ficção

As tiragens de ficção

Atualizado em 28/09/2009 às 10:09, por Nelson Varón Cadena.

Em 24 agosto de 1954 o jornal "Ùltima Hora" de Samuel Wainer teria registrado um dos maiores recordes de circulação de jornais brasileiros em toda sua história.: 700.000 exemplares vendidos da edição que noticiou o suicídio do Presidente. Recorde que foi possível, segundo todas as fontes já consolidadas (infelizmente), em função dos demais jornais cariocas terem sido impedidos de circular pelo populacho que identificava a imprensa oposicionista como co-responsável pelo trágico desfecho. Não sei a origem dessa informação, mas tenho a suspeita de que é falsa. Também não me parece viável a circulação estimada para o "Última Hora", em dias correntes, independente de fatos de impacto, de 330 mil exemplares. Este último número equipara-se com a circulação dos maiores jornais brasileiros, hoje, isto é, meio século depois.

Será que os brasileiros da década de 50 liam mais jornais do que os brasileiros do século XXI? Claro que não. E já que nos reportamos a números de circulação, já consolidados pela história, convido os leitores desta coluna a refletirmos em torno de estatísticas oficiais da época, para confronto com os números de tiragens, então, divulgados. Para começar, o censo de 1950 apurou uma população de 2,37 milhões de habitantes para o Rio de Janeiro. Em 1960 apurou 3,28 milhões. De onde podemos estimar em 2,75 milhões a população em 1954, ano do suicídio do Presidente Getúlio Vargas. População esta residente em torno de 550 mil domicílios, segundo o IBGE.

Analfabetismo de 65%
Naquele tempo a taxa de analfabetismo funcional era de 65%, segundo a "Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos",já incluído nesse índice os 25% da população na faixa etária entre 0 e 7 anos. Crianças. Ou seja, o Rio de janeiro de 1954 tinha (2,75 milhões de habitantes, menos 65% de analfabetos) 962 mil pessoas aptas para a leitura de jornais e revistas. Então, podemos acreditar que naquele 24 de agosto de comoção popular pela morte do Presidente mais de 70% da população que sabia ler comprou o jornal? Isso significaria admitir que a maioria da população tinha recursos para comprar o "Ultima Hora; que foi adquirido, na média, mais de um jornal por domicílio (700 mil jornais para 550 mil domicílios) e que o índice de leitura foi praticamente individual quando a média corrente é hoje de quatro leitores por exemplar e naquele tempo certamente era bem maior.

Até Ruy Barbosa
Citei o caso do Ùltima Hora como exemplo para ilustrar que algumas publicações conseguiram consolidar como informação verdadeira, já assimiladas pela história. É o caso, também das circulações recordes da revista "O Cruzeiro" que Luiz Maklouf de Carvalho teve a oportunidade de desmistificar em seu livro "Cobras Criadas". Interessava aos editores difundir números fora da realidade para impressionar o mercado publicitário e atrair anunciantes. E ainda para marcar posição de "liderança"; fazia bem ao ego nas relações de poder.

Nem Ruy Barbosa, um baluarte de honestidade e ética, escapou dessa tentação. Em 1901, em editorial de "A Imprensa", afirmava com todas as letras que seu jornal ostentava uma circulação de 100 mil exemplares. Se Ruy não mentia, ou exagerava, podemos considerar um milagre. Naquele ano a população do Rio de Janeiro era de 600 mil habitantes e o índice de analfabetismo em torno de 85%. Ou seja, tínhamos 90 mil pessoas aptas para ler "A Imprensa" "O Paíz", "Jornal do Commercio" e o "Jornal do Brasil", os jornais diários que circulavam na capital.

Pois é: 90 mil leitores para 100 mil exemplares. Tá certo. Não se briga com a história!.