As primeiras cartas dos leitores em Veja

As primeiras cartas dos leitores em Veja

Atualizado em 01/07/2008 às 12:07, por Nelson Varón Cadena.

Em 11 de setembro de 1968, Veja publicava meia dúzia, apenas seis cartas dos leitores, nesse seu número de estréia. Não eram correspondências forjadas como de hábito na imprensa brasileira, naquele tempo, mas efetivamente cartas de cidadãos que tinham visto nas ruas e na TV a campanha publicitária de lançamento da nova revista semanal. Interesses os mais diversos motivaram as missivas: Elzeário Schmitt de Florianópolis, por exemplo, se candidatava a uma possível vaga no quadro de colaboradores. O editor de Veja não lhe dava esperanças: "Obrigado, mas nosso quadro de colaboradores no momento está completo". Uma outra carta, assinada por Gilberto Collares de Pelotas (RS), indagava sobre como fazer assinaturas?. O editor o desaconselhava, sugerindo que adquirisse a revista em bancas, pois a Abril não podia lhe garantir uma entrega rápida.

Quarenta anos depois Veja recebe em meia 1.241 correspondências por semana, sendo apenas 50, ou seja, 3,8% do total em forma de cartas, segundo os números publicados na sua última edição semanal. A tecnologia favorece o correio eletrônico (os e-mails), hoje preferência de 95% dos leitores. Pelo visto, breve, Veja terá de rever o nome da seção que não mais se justifica.

O espaço nobre
Mas, naqueles primórdios da revista, "Cartas" tinham o seu espaço garantido logo na primeira página da publicação. Foi assim durante alguns anos, até quando a publicidade descobriu o impacto do anúncio de página dupla, na chamada segunda capa, e não mais abriu mão dele. Na segunda edição de Veja, por exemplo, as correspondências triplicaram em relação ao número de estréia o que parece razoável. A maioria cartas laudatórias, outras contidas como a do Deputado Pedro Simon, mas também de protesto. O leitor Lamberto Wiss, estudante do 3º ano de Economia em São Luiz, lamentava a cobertura internacional: "Seu comentário, especialmente no artigo sobre o mundo comunista está tendencioso".

Dois meses depois, às vésperas da decretação do AI5, na sua edição Nº 13 a revista já apresentava três colunas completas de cartas. Uma delas, assinada por Walter Sampaio, Diretor de Telejornalismo da TV Tupi, sugeria que a revista escrevesse "certo" sobre televisão "sem insinuar reduções ou circunscrições, mas também criticando construtivamente, para que ela cresça e melhore". Mas, o tema predominante era outro: uma polêmica
entre os leitores em torno da recente visita da Rainha Isabel ao Brasil.

Marcos Vieira da Silva cumprimentava Veja pela cobertura; Paulo Maranhão se reportava ao leitor Raul Amorim a quem chamava de "pobre de inteligência" por ter chamado o Recife de subdesenvolvido diante do excesso de cuidados na recepção à Rainha; Yvette Gadelha, por sua vez, lamentava "a pobreza de espírito" do já referido leitor, acrescentando: "Subdesenvolvido não é apenas o Nordeste. É todo o Brasil".

Polêmicas aparte, o leitor Geraldo Feitosa do Rio de Janeiro apelava: " Sr. Diretor, Insisto em que não se de apoio a este movimento alienado que é o tropicalismo de dois fulanos antes tão geniais e hoje apenas preocupados em promoção grupista. Abaixo a capa do Nº 12 de Veja ". Referia-se a Gilberto Gil e Caetano Veloso.