As pintas de Fátima Bernardes e outras bobagens

As pintas de Fátima Bernardes e outras bobagens

Atualizado em 04/04/2008 às 18:04, por Rodrigo Manzano.

I

No dia em que a televisão digital chegou em casa, um novo universo, literalmente, se descortinou para mim. "Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas", diria Drummond. E foi bem isso o que aconteceu. Durante os dez primeiros minutos, a forma se sobrepôs violentamente ao conteúdo. E depois, ao longo dos dez primeiros dias, era como se de repente eu fosse seqüestrado pelas imagens tão cristalinas, nítidas e vivas da TV digital.

A Fátima Bernardes, a quem estamos tão habituados, virou uma outra pessoa. Nenhum assunto do Brasil ou do mundo daquela noite foi tão importante para meus olhos quanto as pintas no rosto dela. Só quem tem televisão digital sabe que a Fátima Bernardes tem pintas no rosto. Nunca mais consegui prestar atenção a nada do que ela fala. Era como se alguém tivesse limpado meus óculos.

II

Ontem veio à redação Alberto Tamer, hoje colunista de Economia no Estadão . Ele trabalha para os Mesquita há 50 anos e soma 57 de jornalismo. Quando olhou nossa redação, disse ter saudade do contato diário com a notícia, da balburdia do jornal, do corre-corre da apuração. Parecia uma fala sincera, que tocou a todos nós, que não chegaremos a 57 de idade, imagine de profissão. Alberto Tamer deu uma longa entrevista à repórter Ana Moulatlet, do Portal IMPRENSA. Só não revelou o segredo mais importante: como ele conseguiu sobreviver.

III

De uma revista-laboratório de estudantes de jornalismo: "'Será que é aqui, nessa casa amarela, a Associação Cultural Catalonia?', questionamos ao avistarmos a pequena residência. Não convencidos, resolvemos investigar em uma padaria próxima ao local. O funcionário Jefferson não soube informar, mas disse que sempre vê torcedores do Barcelona entrando na casa. Parecia que estávamos no caminho certo. A confirmação veio minutos depois, com a aposentada Nadir de Camacho, de 75 anos. 'Sim, é ali mesmo'". Na foto que acompanha a matéria está a tal casa, com uma placa bastante visível: "Associação Cultural Catalonia". Esses jovens repórteres investigativos são um azougue, não são? Ou então analfabetos.

IV

Uma praga toma conta das assessorias de imprensa. Você liga, se apresenta, fala no que está trabalhando e do que precisa e explica, detalhadamente, a sua pauta. Depois de uma ou outra pergunta, o adorável assessor de imprensa diz: "Então..." e logo solicita: "...você pode me mandar isso tudo por e-mail?". Oras, se tivesse falado antes, eu já tinha escrito. Os assessores de imprensa devem ter feito estágio em algum cartório.