Artigo: Intimidação e covardia, por Leonardo Attuch
Artigo: Intimidação e covardia, por Leonardo Attuch
O ataque de Veja a minha honra, feito na última edição da revista, é parte de um longo processo de intimidação e covardia a que venho sendo submetido. Tudo começou em setembro do ano passado, quando Lauro Jardim, colunista da seção Radar, de Veja, publicou uma nota chamada "Vem aí a Operação Gutenberg". No texto, ele dizia que a Polícia Federal iria investigar profissionais de imprensa envolvidos em "venda ou engavetamento" de reportagens e utilizou a expressão "isto é", pouco usada nas revistas da Editora Abril.
Dias depois, a Polícia Federal pediu a quebra de meu sigilo telefônico ao juiz Luiz Renato Oliveira, da 5a Vara Criminal de São Paulo. Apontou, como indícios de favorecimento a uma quadrilha, a elaboração de algumas reportagens. Entre elas, uma entrevista on the records com Jules Kroll, fundador da Kroll. Depois da primeira nota de Jardim, surgiram muitos rumores na imprensa. Alguns colunistas divulgavam a informação de que 100 jornalistas - ou mais - estariam sendo investigados pela PF. Lauro Jardim voltou ao tema, em outubro do ano passado, com uma nota chamada "Subproduto da Kroll". Nela, afirmou que a Gutenberg investigava apenas quatro jornalistas e diz que seu foco era o caso Kroll. Na nota, ele utilizou a expressão "isto é" duas vezes.
Os boatos na imprensa voltaram-se, então, contra minha pessoa. Recebi ligações de amigos, que diziam ter informações da Polícia Federal, avisando que haveria até operações de busca e apreensão na minha residência - é desnecessário narrar a angústia e os abalos psicológicos sofridos. Até porque já houve uma operação Gutenberg num Brasil de triste memória. Foi aquela que matou Vladimir Herzog. No entanto, em outubro do ano passado, o juiz Luiz Renato negou o pedido de interceptação telefônica, apontando o óbvio, ou seja, que fiz apenas jornalismo. Em novembro, Lauro Jardim retomou o tema da operação Gutenberg, com uma nota chamada "Murchou", dizendo que a ação policial havia "subido no telhado". Suas notas, portanto, guardam perfeita sincronia com a investigação policial a meu respeito.
Achei que o assunto havia terminado. No entanto, no início deste ano, foi a vez de Márcio Aith, editor-executivo de Veja, mencionar meu nome numa reportagem chamada "O Dia da Caça". Aith citou um e-mail que a Polícia Federal atribui a mim e, no mesmo texto, disse que a PF não pode assegurar se o e-mail é meu ou não. Agora, é a vez de Thays Oyama e Marcelo Carneiro produzirem uma matéria que, segundo as palavras de Eduardo Ribeiro, editor do Jornalistas & Companhia, representa um "soco certeiro" na minha imagem. Nela, meu nome aparece cinco vezes, algumas em negrito, e sou acusado de favorecer, com reportagens, uma quadrilha.
Antes da publicação da reportagem de Veja, fui procurado por Marcelo Carneiro. Ele o fez por volta do meio-dia da sexta-feira 13, duas horas antes do fechamento da edição. Dizia que queria ouvir "o outro lado" e eu respondi que o faria por escrito. Na minha resposta, esclareci que as acusações feitas pela PF contra mim no seu relatório final sobre o caso Kroll já haviam surgido num pedido de quebra de sigilo telefônico. E que tal pedido havia sido negado pela Justiça. Ora, se estou no relatório da PF sem ser réu ou indiciado, permito-me supor que isso faça parte de uma estratégia planejada de difamação. Disse ainda a Carneiro que todas as minhas reportagens citadas pela PF no pedido de quebra de sigilo telefônico não foram contestadas no foro competente - a Justiça, com base na Lei de Imprensa. Por isso, se eu já estava convicto de que minhas reportagens são verdadeiras, hoje as tenho como irrefutáveis.
Diante do ataque que sofri, já estou em busca da reparação devida. Até porque jornalistas vivem de sua imagem. Como ex-jornalista de Veja e Exame, tomei a liberdade de escrever uma carta diretamente ao Dr. Roberto Civita. Nela, narrei o que julgo ser um ato de covardia de Veja e anexei um bilhete que o Dr. Civita escreveu, dm próprio punho, para mim em 1995, com cópia para José Roberto Guzzo, então diretor de Redação de Exame. É um bilhete em que ele me elogia muito e diz que pretende usar trechos de um paper escrito por mim num discurso que faria em Londres. Na carta a Civita, anexei também o meu pedido de direito de resposta, que já foi preparado por meus advogados e entregue a Veja.
Não posso afirmar quais foram as motivações da Polícia Federal e da revista Veja, ao me atacar tão duramente. Posso supor que seja intimidação, uma vez que investiguei assuntos polêmicos. Uma de minhas reportagens é uma denúncia formulada por dois executivos ligados à Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, apontando que a Brasil Telecom teria sido forçada pelo governo e pela Telecom Italia a superfaturar em US$ 250 milhões a compra de uma empresa. No caso de Veja, cabe a seus jornalistas e editores explicarem o porquê de tão duro ataque contra mim. Até porque o que está em jogo não é apenas a honra de Leonardo Attuch - é a liberdade de imprensa. O que hoje acontece comigo, amanhã pode acontecer com eles. E se Veja tem qualquer dúvida a meu respeito, ofereço aberta e voluntariamente não apenas o meu sigilo telefônico (que a Polícia Federal tentou quebrar num processo sigiloso) como o meu próprio sigilo bancário. Ofereço-lhes ainda minhas declarações de Imposto de Renda e a análise de todo meu patrimônio: uma casa em Cotia, um Renault Scénic 1999 e um Renault Clio 1.0 2001 na cor branca - branco porque, sem pintura, era 400 reais mais barato. As portas estão abertas. Basta me telefonar.
· Editor de Economia da revista Istoé Dinheiro e da Dinheiro Rural






