Artigo 19 lança publicação sobre cuidado e segurança de mulheres em protestos
Após debates e entrevistas sobre o assunto, estudo concluiu que riscos vão além do momento das manifestações e ocorrem online e offline
“Amiga, chegou?” É essa a pergunta que mulheres se fazem após participarem de protestos com pautas feministas, especialmente em países da América Latina, onde a violência contra a liberdade de manifestação tem se mostrado crescente. E é essa a pergunta que dá nome à publicação do Artigo 19 sobre cuidado e segurança de mulheres em protestos, lançada este mês.
Crédito:Agência BrasilA organização realizou uma pesquisa em que entrevistou argentinas, brasileiras e chilenas para apresentar as principais questões relacionadas ao tema, como os desafios, riscos e vulnerabilidades enfrentados por diferentes tipos de mulheres em contextos de protestos e as estratégias de cuidado que as ativistas têm desenvolvido para mitigar esses riscos.
A pesquisa contou com a participação de várias organizações e foi conduzida em três etapas entre 20 de agosto de 2020 e 20 de janeiro de 2021. Na primeira etapa, foi realizado um workshop com especialistas para debater e identificar os principais desafios enfrentados por mulheres em protestos. Participaram intelectuais e ativistas do Brasil, Argentina e Chile.
A segunda etapa foi uma revisão bibliográfica com palavras-chave relacionadas ao tema e a terceira, as entrevistas. Os resultados foram divididos em uma espécie de passo a passo da ida delas às manifestações até a chegada em casa, junto aos familiares.
Momentos críticos
Uma das entrevistadas, a brasileira Amanda, 24 anos, militante autonomista, comentou que homens se sentem autorizados a bater nas mulheres que estão dentro da manifestação, principalmente nos atos feministas e pró-aborto. Ela já presenciou um homem tentando atropelar meninas que se manifestavam, e ela própria foi agredida e chamada de “vagabunda” por homens que tentaram tomar sua faixa.
A militante também contou que várias companheiras já foram assediadas durante as revistas policiais e lamenta que as mulheres não tenham nenhuma garantia que o trabalho será feito por uma mulher.
Chegar em casa também não significa necessariamente estar segura. Muitas entrevistadas relataram desafios enfrentados dentro de casa, com os familiares, na busca pelo direito de se manifestar. Além disso, elas enfrentam a violência nas redes sociais.
“Quando falamos de segurança das mulheres que protestam é preciso pensar para além dos atos de ir, atravessar e voltar de uma marcha, mas também refletir sobre todas as consequências – e punições sociais – que essa mulher poderá sofrer por exercer o seu direito à manifestação. Esse processo de retaliação, que muitas vezes corrói a subjetividade, o empoderamento e a autoestima proporcionada pelo coletivo de mulheres, ocorre simultaneamente online e offline”, afirma o estudo.
Nas redes sociais, os ataques vêm de diversos grupos e partem do Estado (polícia e exército), grupos extremistas organizados e milícias virtuais. Eles vão desde o bullying até ameaças de morte.
Conclusões
As conclusões da pesquisa revelam que a soma de interesses, estratégias e lutas é o caminho para se conquistar mais força e, por consequência, garantir uma maior segurança das manifestantes, antes, durante e após o ato.
O estudo aponta três principais direcionamentos: a segurança das mulheres precisa ser pensada de forma holística, ou seja, com a discussão de estratégias políticas transversais que encorajem as mulheres a ocupar as ruas; precisa ser pensada de forma interseccional: mulheres singulares possuem demandas singulares e, por isso, a transversalidade das lutas é fundamental para que se possa tratar do tema de forma interseccional; e a violência sexista é estrutural e as lutas também: a mais eficiente medida protetiva para mulheres que protagonizam protestos são os próprios protestos, pois são neles que, em última instância, se luta para acabar com a lógica autoritária, sexista, racista e heteronormativa.
A publicação completa está disponível no site artigo19.org. .





