Ariel Palacios fala sobre regulação da mídia na América Latina e expectativas para o Brasil

Desde as eleições, no último dia 26 de outubro, as discussões sobre uma possível regulação econômica da mídia tomou conta do noticiário brasileiro, levando favoráveis e contrários a defenderem abertamente suas opiniões.

Atualizado em 18/11/2014 às 09:11, por Danubia Paraizo.

dia 26 de outubro, as discussões sobre uma possível regulação econômica da mídia tomou conta do noticiário brasileiro, levando favoráveis e contrários a defenderem abertamente suas opiniões.
De um lado, há o temor na imprensa de que a liberdade de expressão seja afetada, enquanto o governo argumenta que não haverá regulação do conteúdo, mas apenas nas questões econômicas para evitar a formação de monopólios e oligopólios nos meios de comunicação.
Crédito:Danúbia Paraizo Ariel Palacios participou do painel "Os desafios de ser jornalista na América Latina" Durante a terceira edição do seminário internacional de comunicação mídia.JOR, na última segunda-feira (17/11), o jornalista Ariel Palacios, correspondente do canal GloboNews na Argentina, falou com exclusividade à IMPRENSA sobre a experiência de países da América Latina que já adotaram leis de regulação da mídia.
IMPRENSA - Neste ano o grupo Clarín começou seu processo de desinvestimento para se adequar à Lei de Meios na Argentina. Como anda a relação da imprensa com o governo?
Ariel Palacios - A relação do governo Kirchner com a imprensa continua ruim como foi nos últimos anos. Os governos argentinos de forma geral sempre tiveram uma relação tensa com a imprensa. Nesse caso é o maior estado de tensão desde a volta da democracia. Desde 2013 as relações estão apreensivas por diversas ameaças, grampos telefônicos, demissões, pressões financeiras. Este ano tem sido a mesma coisa, não foi nem melhor nem pior, mas continua sendo péssima essa relação.
Quais são as principais causas para esta relação ter chegado a esse ponto? Curioso que são fases. Às vezes passam três, quatro meses sem muitos confrontos. O que a gente percebe é que a existência de confrontos quase sempre está amarrada com problemas de popularidade do governo ou com problemas econômicos e a imprensa acaba sendo um bode expiatório.
Infelizmente, como a população só vai para a rua quando os problemas estão ligados ao bolso e não quando há ameaças a liberdade de expressão, não há manifestações. A imprensa não conta com o respaldo dos próprios leitores, que minimizam ou relativizam essas pressões. Mas são problemas que levaram jornais a fecharem, jornalistas serem demitidos etc.
O governo Kirchner está prestes a terminar. Está otimista de que esse cenário mude? Basta saber o que vai acontecer nesses últimos 13 meses de governo Kirchner em matéria de liberdade de imprensa. Existe um clima otimista de que vai ser melhor, mas sou muito cético. A gente tem no ocidente o velho ditado que diz que “depois da tempestade vem a bonança”. Os russos há uns 120 anos têm um provérbio mais realista que diz que “depois da tempestade vem a inundação”. Vamos aguardar.
Tendo em vista a regulação da mídia adotada nos países da America Latina, como Argentina, Venezuela e Equador, o que esperar se houver de fato algo semelhante no Brasil? A regulação da mídia na América Latina é aquela coisa clássica do governo que não gosta de crítica nem que divulguem fatos concretos e da oposição. Não gosta quando a imprensa diz que tal obra está atrasada ou quando dá o cálculo correto de inflação, ou ainda quando publica a foto de um ministro usando indevidamente um avião de uma empresa privada, por exemplo. Os governos, de centro, direita ou esquerda não gostam quando a imprensa publica a realidade. Eles preferem aquela coisa da ilha da fantasia. Isso em todo o mundo. Alguns governo não gostam, mas pelo menos sabem coexistir com a imprensa, outros não sabem.
A Inglaterra e França, por exemplo, têm legislação para a mídia muito bem estabelecidas... Exatamente. A pluralidade é algo interessante no caso da Inglaterra porque as empresas estatais de notícias como a BBC são ultra rigorosas com a informação. Isso no sentido positivo, então, elas se preocupam para dar espaço para todas as vozes. Isso acontece também na Suécia, na França. Mas o problema é que na América do Sul os governos não costumam saber como lidar com isso. É só ver os debates nos parlamentos. São sempre uma coisa selvagem de os políticos se xingando. Você já nota que se entre eles não sabem dialogar, muito menos vão saber lidar com o que se publica nos jornais ou que se comentam num canal de TV ou rádio.