Argentina: Kirchner, a mídia e a lua de mel

Argentina: Kirchner, a mídia e a lua de mel

Atualizado em 14/10/2004 às 13:10, por Renato Barreiros e  de Buenos Aires.

Néstor Kirchner, carinhosamente chamado por aqui de "El Pinguino", devido sua inegável semelhança com os pinguins patagônicos, completa, em setembro, um ano e quatro meses no comando da Casa Rosada. Pode se dizer, sem exagero, que esse período foi marcado como a lua de mel mais prolongada e apaixonada de um presidente argentino com a mídia desde o primeiro mandato de Carlos Meném. Vou mais longe: alguém sabe de algum presidente sul - americano, dos tempos atuais, que tenha completado um ano e meio de mandato com 75% de aprovação popular? Os números são do respeitado instituto Ipsos - Mora Y Araujo, o Datafolha portenho. Também não tenho notícias de nenhum chefe de estado do Mercosul que siga sendo paparicado por todos o canais de TV aberta depois de quase um ano e meio no poder.

A TV argentina adora Kirchner. Dos 5 canais abertos existentes, três não passam um dia sem vincular reportagens apologéticas ao presidente.

Dizem os opositores da redação, que são poucos mas sabem fazer barulho, que o alto endividamento das emissoras e a falta de publicidade, resultado de uma economia sem muitos investimentos, fizeram com que o adesismo ao governo fosse generalizado. Nada mais natural, uma vez que as mais altas verbas publicitárias do país saem dos cofres estatais.

Para começar a desenhar o mapa do adesismo televisivo na Argentina podemos citar o Canal 7, lanterna em termos de audiência, e que é estatal. Nessa condição, seria de se esperar que a emissora funcionasse como a BBC de Londres. Seria, não fosse a principal diretora do canal nomeada por Kirchner. Ana Skalon, justicialista de carteirinha, é também esposa do Deputado Kirchinerista número um do parlamento: Miguel Bonasso, homem de extrema confiança do presidente.

Das redes privadas, a que aderiu com mais fervor ao governo foi a América, cujos donos são o empresário Carlos Ávila e o ex Ministro Menemista Jose Luis Manzano.

A emissora protagonizou uma cena aberta de alinhamento ao governo, que acabou se transformando em capa de todas as revistas semanais, ao recusar-se a renovar o contrato com um importante jornalista portenho, Jorge Lanata, fundador do jornal Página 12 e da Revista Vein Ti tres.

Lanata, que é conhecido por sua independência jornalística, já tinha todos os detalhes acertados com a emissora para começar seu programa. Eis que, de um dia para outro, sem mais explicações, foi avisado que não teria o seu contrato renovado. A demissão de Lanata e a aproximação com o governo valeram ao canal um milhão de pesos a mais em publicidade governamental este ano, fato alardeado amplamente pela diminuta oposição nativa. .

O canal 9, uma espécie de Record argentina, devido a colocação no rancking da audiência, também tem uma história peculiar. Foi só o Governo Kirchner permitir que o banqueiro acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, Raul Moneta, se associasse a emissora para que esta passasse a vangloriar os feitos governamentais.

O outro dono do Canal 9 se chama Daniel Haddad . Junto com Moneta, ele foi um dos grandes aliados de Menem, atual arquiinimigo de Kirchner. Por isso, houve um grande espanto entre os jornalistas em geral quando a emissora menemista por excelência começou a elogiar o atual governo. Vai entender.

A segunda emissora mais assistida, Canal 13, pertence ao Grupo Clarín e, apesar de ser a mais endividada é sem dúvida a única que expõe uma visão crítica sobre o governo. Mas nada que possa deixar a Casa Rosada de mau humor.

A campeã de audiência na Argentina se chama Telefé, seu acionista majoritário é a companhia Telefônica da Espanha e sua programação é quase toda voltada a novelas, séries e programas de humor.

O programa mais visto na Argentina atualmente é uma novela da emissora chamada Los Roldán que chega a alcançar 40 pontos de raitting. Programas sobre política na grade de programação nem pensar.

Nos anos noventa a Telefé chegou a até mesmo ficar sem nenhum conteúdo jornalístico e atualmente tem apenas dois informativos sem muita importância. Seu principal programa de humor, Videomatch, apresentado pelo mais popular apresentador do país, Marcelo Tinelli, em outras épocas fazia intermináveis piadas com o ex-presidente Fernando De La Rua. Agora faz apenas pequenas brincadeiras pontuais e comportadas com o atual presidente.

A relação entre Kirchner e Tinelli é tão estreita que o presidente compareceu a festa de lançamento da rádio que Tinelli comprou este ano.

Assim a líder da audiência praticamente se omite de emitir qualquer opinião que possa influenciar seus tele espectadores e engorda suas contas de propaganda com enormes verbas governamentais.

O principal encarregado de fazer o meio de campo do Governo Kirchner com a mídia é o todo poderoso Chefe de Gabinete Alberto Fernandez, uma espécie de Zé Dirceu antes do caso Waldomiro.

A relação entre Fernandez e os principais meios argentinos ficou explicita em uma matéria publicada pela Revista Notícias onde era reproduzida uma cópia da agenda do Chefe de Gabinete que mostrava que as reuniões com importantes jornalistas, empresários da área de comunicação e apresentadores de programas superavam 50% dos compromissos.

Talvez o forte apoio dado pelas emissoras de tv seja um importante fator para que a popularidade de Kirchner continue em alta, na última pesquisa divulgada pelo jornal Clarín no dia 1 de agosto, 68% dos argentinos aprovavam o atual governo e 76% consideravam favorável a imagem do presidente.

Se bem é verdade que a economia Argentina vem melhorando muito desde a sua posse e que algumas demandas populares estão sendo atendidas, como a política de direitos humanos na questão dos desaparecidos políticos, o Governo Kirchner vem mostrando a sua faceta mais autoritária no seu relacionamento com a imprensa utilizando métodos que incluem desde a troca de propaganda governamental pelo apoio dos canais de televisão até o péssimo hábito de ligar para jornalistas para dar bronca por alguma matéria considerada desfavorável.

Em um de seus ataques contra o jornalismo independente o Presidente Kirchner mandou que um jornalista do jornal La Nación descesse do avião presidencial depois de ler uma matéria considerada "desfavorável".

Assim os argentinos que desejam ter uma visão crítica sobre o governo já sabem que tem que recorrer as páginas dos jornais ou das revistas semanais, pois enquanto durarem as verbas publicitárias governamentais os erros da gestão Kirchner não poderão ser vistos na telas de suas tvs.