Aplicativo “Você Fiscal” ajuda a verificar possíveis fraudes nas urnas eletrônicas

Projeto que reúne pesquisadores, jornalistas e profissionais da comunicação estimula eleitor brasileiro a fiscalizar as urnas eletrônicas.

Atualizado em 24/10/2014 às 17:10, por Christh Lopes*.

O que acontece depois que você tecla confirma na urna eletrônica? Após conquistarmos o direito de eleger nossos representantes, muita coisa mudou, entre elas o interesse pela política. Você já deve ter parado para se perguntar se, de fato, o voto foi computado. No “ ”, reúnem-se aqueles que estão descontentes com o sistema atual, os que não acreditam na tecnologia e, também, quem deseja apenas conferir a credibilidade apresentada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Crédito:Divulgação Aplicativo ajuda a verificar possíveis fraudes nas urnas eletrônicas
Com uma equipe formada por comunicadores e especialistas, foi possível delinear um simples que coloca no poder do cidadão a oportunidade de batalhar por mais transparências e lutar para que as muitas partes inauditáveis do processo eleitoral venham à luz. Nas palavras de Helder Ribeiro, um dos idealizadores da iniciativa, a causa central que os move é a noção de que a liberdade exige injeção constante de esforço. "Não é algo que se conquista e depois está garantido".
“Uma parte fundamental da manutenção dos direitos democráticos que conquistamos é a eleição direta. Estamos acostumados, porém, a prestar muita atenção ao que acontece antes da votação, e muito pouca ao que acontece depois. Como se chega ao resultado final?”, questiona. Junto com Diego Aranha, que identificou falhas na urna em 2012, busca trazer tais dúvidas ao debate público.
Para desenvolver o projeto, contudo foi necessário atrair a atenção dos internautas. Por meio da ferramenta de financiamento coletivo , a ideia deixou de ser feita apenas no tempo livre dos envolvidos para virar algo abrangente, que atende a demanda do país. Com a meta financeira batida, o próximo passo foi reunir um time de pessoas capazes de desenvolver a iniciativa numa curta janela de tempo, entre a concepção do programa e a data das eleições 2014.
Embora muita gente tenha se voluntariado, as primeiras equipes que desenvolveram o aplicativo foram contratadas. A partir daí, com a estrutura montada e consolidada pelo auxílio de uma assessora de imprensa, a iniciativa seguiu. A ideia é simples: por meio de um celular, tablet, ou dispositivo móvel com câmera, o eleitor pode fiscalizar a urna que votou. Para tanto, ele deve registrar uma imagem do Boletim de Urna (BU) na sua seção eleitoral e enviar ao site da plataforma.
As fraudes são identificadas através de uma amostragem colaborativa e os resultados do primeiro turno já foram apresentados. Na verdade, colocar na mão do cidadão a chance de fiscalizar e dar transparência nas eleições, conforme propõe o projeto, atraiu o público e superou todas as expectativas. Empreendedor digital de sucesso no país, Ribeiro afirma que jamais imaginou tanta participação e interatividade dos internautas. Era esperado receber fotos de cerca de 1000 BU’s.
Para a surpresa de todos os envolvidos, foram mais de 19 mil imagens enviadas no total. As análises dos resultados já foram iniciadas. Mas, para quem quiser conferir, já há um técnico preliminar no blog do “Você Fiscal”.

“Para o segundo turno, voltamos ao tamanho de equipe que tínhamos antes, então estamos nos dividindo entre a análise do turno anterior e a mobilização para o próximo, mas foram feitas várias melhorias com o que aprendemos ‘em campo’ no primeiro turno”.
Para o empresário, o apoio e a interação no projeto têm sido inspiradores. “Temos recebido apoio de lados diferentes da disputa, todos interessados em transparência eleitoral e, salvo poucas e inevitáveis exceções, se tratando com civilidade e trabalhando juntos”. É justamente a falta de clareza no processo de coleta dos dados apreciados na máquina eleitoral que liga esse sentimento. “Você Fiscal” alerta para transparência aparente
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Dias Toffoli, disse em coletiva após o primeiro turno das eleições que o sistema da urna eletrônica é seguro e não apresenta margem de erro. Ele disse ainda, na ocasião, não ver necessidade de fazer os testes nos aparelhos. No último deles, em 2012, Aranha coordenou uma equipe de investigadores que identificou as falhas na urna.
Segundo Toffoli, como não houve mudanças no sistema, não era preciso fazer os testes. Argumento refutado por Ribeiro. “Somos o único país que ainda tem votação eletrônica sem trilha independente de auditoria. Isto é, não há um plano B: os votos são todos registrados em memória e, se a contagem sair errada, seja por causa de algum bug acidental (software nenhum é livre de bugs), seja por fraude intencional, nunca descobriremos, porque não há com o que comparar”, denuncia.
Sem examinar os dados, não há como comparar o resultado e nem saber o que a máquina está fazendo para produzi-lo. O desinteresse pelo processo eleitoral parte principalmente dos políticos. Durante o desenvolvimento da plataforma utilizada pelo Tribunal Eleitoral, os partidos podiam se cadastrar para acompanhar os trabalhos. Dos mais de 32, apenas sete partidos se cadastraram em julho deste ano para participar da cerimônia de lançamento do sistema e o assinar digitalmente.
“Os mecanismos de segurança devem ser projetados não apenas para proteger a autoridade eleitoral de ameaças externas, como também para proteger os eleitores de ameaças dentro dela (autoridade)”, completa. O poder centralizado no órgão é visto como problema. Em outros países, por exemplo, o Executivo compra o aparelho e executa. O Legislativo legisla e o Judiciário julga. “No Brasil, o TSE projeta o hardware, desenvolve o software, regulamenta, julga e executa as eleições”. Um caso prático ocorreu recentemente: quando partidos denunciaram falhas encontradas durante uma auditoria ao TSE. O órgão arquivou o caso alegando que os seus técnicos (os mesmos que produziram o software) analisaram e concluíram que não havia mérito técnico. “Isso é equivalente a um juiz dizer: perguntamos ao réu e ele disse que é inocente. Caso encerrado”, ironiza Ribeiro.
Ele acredita que a falta de transparência e prestação de contas na parte eletrônica do processo é apenas um reflexo da estrutura institucional. Acompanhe o “Você Fiscal” no ou no .

Estratégia de comunicação explica sucesso da iniciativa
Responsável pelo planejamento da campanha do “Você Fiscal”, a Agência Fervo apostou na interatividade para atrair o público. Pouco mais de uma semana antes da iniciativa ir ao ar no site de financiamento coletivo Catarse, a jornalista Priscila Cotta já estava imersa no projeto. Com a ajuda de Denize Guedes, foi desenhada uma estratégia com base no engajamento dos internautas.
“Decidimos abraçar a causa e adotamos a postura de colocar nosso conhecimento à disposição durante todo o processo, ajudando a tomar as decisões e preparando o material necessário sempre equilibrando a equação: necessidade x tempo x verba”, conta Priscila. Com tempo limitado, criaram um grupo em uma rede social com pessoas interessadas em participar da comunicação do projeto.
De lá, saíram coisas interessantes como a sugestão de uma exibição do filme “Hacking Democracy” no Labhacker, seguida de bate-papo com os idealizadores do "Você Fiscal". Em outra via, foram produzidos streamings das conversas. “Nós tivemos boas participações, que acabaram ajudando na comunicação do projeto para a comunidade ligada à transparência hacker, por exemplo”, afirma.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves