Ao ignorar alertas de especialistas, imprensa falhou na cobertura da tragédia da Braskem
Em sua coluna publicada no site da Agência Pública em 9 de dezembro, a jornalista Marina Amaral explorou o desastre provocado pela Braskem em Maceió para analisar as falhas e omissões da imprensa na cobertura de escândalos e tragédias envolvendo grandes empresas.
Atualizado em 11/12/2023 às 16:12, por
Leandro Haberli.
Seu texto começa lembrando que, em setembro de 2022, quando já era consenso entre engenheiros e geólogos que a exploração de sal-gema no subsolo da capital alagoana havia provocado abalos sísmicos, crateras e desabamentos que ameaçam o frágil ecossistema da região e expulsaram dezenas de milhares de pessoas de suas casas, negócios e empresas, a Braskem recebeu do Jornal Valor o prêmio de melhor companhia do setor químico e petroquímico do país.
À época, informa Marina, Marcelo Arantes de Carvalho, um dos vice-presidentes globais da companhia, publicou em seu Linkedin que a conquista foi baseada na análise, por duas instituições, de informações financeiras e práticas de ESG. Crédito: Reuters/reprodução BBC Brasil Rompimento de mina da Braskem em Maceió: tragédia com consequências imprevisíveis A colunista da Agência Pública lembra que especialistas que durante décadas alertaram sobre os enormes riscos de perfurar o subsolo de Maceió, cidade situada em uma área de restinga ecologicamente vulnerável, foram ignorados pela imprensa.
Foi o caso de Abel Galindo, engenheiro e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ele foi um dos primeiros a atribuir à Braskem a responsabilidade pelos tremores de terra que começaram a ser sentidos em Maceió em março de 2018. Abel também foi enfático ao relacionar as atividades de mineração da gigante petroquímica às rachaduras nas casas e ao afundamento do asfalto nos bairros afetados.
Ao invés de assumir a culpa, a Braskem insistiu em negar qualquer responsabilidade - postura que teria sido mantida inclusive após a divulgação de um laudo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em maio de 2019, atribuindo a instabilidade do solo em Maceió à empresa.
A atividade de mineração de sal-gema em Maceió teria sido tocada pela Braskem até novembro de 2019, meses após os moradores de três bairros terem sido evacuados.
Casas Bahia e Vale
A imprensa de Maceió tampouco teria percebido a gravidade do problema. Ao podcast “O Assunto”, a jornalista Lenilda Luna, da Ufal, reconheceu que até 2018 não tinha ideia de que a exploração de sal-gema estava transformando Maceió em um "queijo suíço". "(...) a Braskem investiu muito em responsabilidade social, e meio que a sociedade alagoana se acomodou e, talvez, nós jornalistas também."
Ainda de acordo com Lenilda, a petroquímica criou um cinturão verde com criação de abelhas, educação ambiental e outros atrativos ecologicamente corretos. Ao contrário dos alertas de especialistas, a aparente tática de "greenwashing" - como é chamada a apropriação de questionáveis virtudes ambientais mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas - recebeu ampla cobertura da imprensa local.
A colunista da Pública lembra que o caso da Braskem está longe de ser o único escândalo envolvendo uma grande empresa que recebe cobertura falha da imprensa. Para ficar em dois exemplos, ela cita o esquema de exploração sexual do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, e o caso da Vale, que teria sido premiada por grandes veículos de imprensa como melhor empresa de mineração do país, a despeito de protagonizar tragédias que mataram centenas de pessoas.
Para Marina, a omissão da imprensa é resultado de vários fatores, incluindo o patrocínio publicitário das empresas envolvidas em escândalos. Um ponto que ela não menciona, mas que pode ser incluído na discussão, é o sucateamento dos veículos de notícias, que promovem passaralhos sem fim e em muitos casos agonizam frente à concorrência com redes sociais, influencers e outras fontes de informação.
Seja como for, o fato é que o jornalismo investigativo independente ainda é essencial para a defesa da sociedade e do interesse público. Como deixa tragicamente cristalino o caso do afundamento do solo Maceió.





