Anúncios de sites de apostas colocam cobertura esportiva em conflito de interesse

Doutor e livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o professor Carlos Eduardo Lins da Silva analisou hoje, em sua coluna Horizontes do Jornalismo, que vai ao ar quinzenalmente na Rádio USP, o recente banimento, pelo britânico Guardian Media Group, responsável pelos jornais The Guardian, Observer e Guardian Weekly, de anúncios publicitários pagos por sites de apostas esportivas.

Atualizado em 26/06/2023 às 14:06, por Redação Portal IMPRENSA.


Lembrando que as empresas de apostas passaram a gastar enormes somas de dinheiro em publicidade e que muitos meios de comunicação dependem cada vez mais desse dinheiro para sobreviver, o especialista elogiou a decisão do Guardian, que foi anunciada em 15 de junho último sob alegação de que é "antiético receber dinheiro de serviços que podem levar ao vício e à ruína financeira”. Crédito: Reprodução Depois de proibir propaganda de combustíveis fósseis, Guardian baniu anúncios de empresas de apostas Além de concordar que as apostas são deletérias para a sociedade e para o esporte em si, à medida que estimulam o vício e a manipulação de resultados e de estatíscas de competições esportivas, como está sendo demonstrado por uma CPI focada no tema, o professor da ECA-USP afirma que os anúncios de sites de apostas em veículos de notícias colocam em potencial conflito de interesse toda a cobertura esportiva.
R$ 3 bilhões/ano

"Você passa a ter a potencialidade de duvidar que o comentário de um comentarista seja isento. Pode ser que esse comentarista esteja em algum esquema em que se ele disser que o time A pode ganhar do time B, isso pode fazer com que se aumentem as apostas no time A. Isso pode ser considerado (...) uma espécie de suborno."
No Brasil estima-se que haja mais de 500 empresas de apostas online, que investiriam R$3 bilhões por ano em publicidade. Em 2023, a previsão é que o faturamento do setor seja de R$12 bilhões. Como esse mercado não foi regulamentado por aqui, nem um centavo desse valor deve ser pago em impostos.
Para Anna Bateson, diretora-executiva do Guardian Media Group, estudos destacam uma "clara correlação entre a exposição à publicidade de jogos de azar e o aumento das intenções de se envolver" nesse tipo de atividade. “Em última análise, acreditamos que nossa principal obrigação é fazer a coisa certa para nossos leitores, e é por isso que decidimos que existem outras maneiras de gerar receita."
A empresa já havia banido, em 2020, anúncios promovendo combustíveis fósseis. A decisão atual abrange todas as formas de publicidade de jogos de azar, incluindo promoções para apostas esportivas, cassinos online e raspadinhas. Apenas a publicidade de loteria governamental foi excluída da proibição, sob a alegação de que ela pode ter benefícios sociais ao arrecadar dinheiro para boas causas e envolver sorteios não instantâneos.