Anúncio do Plano FHC completa 20 anos; veja como a imprensa noticiou a base do Real

Há 20 anos, o Brasil vivia uma época de incertezas. Em um momento instável, no qual a inflação assolava o País, profissionais reunidos pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, elaboraram um programa com objetivo de estabilizar a economia: o então "Plano FHC", anunciado no dia 7 de dezembro de 1993.

Atualizado em 06/12/2013 às 16:12, por Alana Rodrigues e  Edson Caldas e Igor Santos*.


Crédito:Reprodução Construção do Plano Real completa 20 anos

Não era a primeira vez que uma nova moeda tentava contornar a situação. Fernando Collor de Mello, que governou entre os anos 1990 e 1992, criou três diferentes planos para tentar estabilizar a economia — Marcílio,Collor I e Collor II. Eles, no entanto, mostraram-se ineficazes.


Após o impeachment, seu sucessor, Itamar Franco, tinha em suas mãos um país com uma grave crise econômica. A inflação chegava a 1100% em 1992, e alcançou mais de 2700% no ano seguinte (a maior da historia do Brasil).O mandatário foi obrigado a trocar de ministro da Economia diversas vezes, até que decidiu nomear, em maio de 1993, seu então ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique.


No fim daquele mesmo ano, FHC anunciou um plano econômico que prometia enfim resolver o problema da inflação. Primeiro chamado de Plano FHC, foi com a alcunha de Plano Real que a estratégia conseguiu estabilizar a economia do país e ficar conhecida.


Demanda por mudança


O professor do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP e economista, Ladislau Dowbor, explica que a transferência de renda dos assalariados, aposentados e dos pequenos produtores foi uma forte característica do governo.


“Essa divisão entre renda fixa e rendas variáveis, em que as pessoas podem repassar a inflação para os outros, é essencial para entender o caráter concentrador de renda que a inflação tinha”, defende. “Não por ausência de soluções técnicas, mas por ausência de poder político que mantinha a inflação nesse porte.”


Dowbor diz que havia certo ceticismo sobre o plano quanto às soluções, mas ressalta que não era só o Brasil que passava por uma manutenção da estabilidade econômica. Havia 44 países com hiperinflações. Ele destaca que Israel, México, Argentina e muitos outros estavam em situação semelhante.


Para o economista, não houve grandes riscos, pois o apoio político e de intermediários financeiros estava garantido. “No geral se revelou a estabilização. Então, houve a solução técnica adequada, o essencial apoio político dos grandes especuladores financeiros e uma confiança na moeda”, completa.


Olhar da imprensa


O jornalista Carlos Alberto Sardenberg, da Globo e rádio CBN, que na época trabalhava na Folha de S.Paulo , conta que quando o plano foi implementado “o presidente vinha fazendo um trabalho muito ruim na área da economia, (...) desorganizando as contas públicas”.


Contudo, Sardenberg explica que, diferente das estratégias econômicas anteriores, o Plano FHC não foi uma medida que chocou a imprensa. Segundo ele, a população foi avisada com antecedência e isso deu tempo para que os meios de comunicação se preparassem e fizessem uma análise mais profunda do que seria essa nova jogada.


Em 7 de dezembro, logo quando a medida foi anunciada, a Folha destacou em seu caderno de "Economia": “Como o plano mexe com seu bolso”. No dia seguinte, o jornal trouxe em sua capa: “Congresso reage amais imposto; FHC planeja sair em abril de 2014”. O Estado de S. Paulo destacou: “Plano sai hoje com UR arbitrada pelo BC” e, no dia 8, manchetou: “Começa o teste político do FHC”. Já O Globo , destacou em sua capa do dia 8: “Plano FH depende do Congresso”.


Sobre a expectativa da mídia, Sardenberg diz que houve muita crítica por parte da esquerda, mas que, em sua maioria, a imprensa encarou o plano de maneira positiva.


Sônia Mossri, repórter de economia da Folha de S.Paulo naquela época, diz que o momento não poderia ser mais propício para a implantação. Ela, que hoje é jornalista independente e analista de risco político e econômico, já havia cobrido todos os planos anteriores, mas, desta vez, enxergava a novidade de maneira positiva. “Era o contexto político certo,o ministro certo.”


Também repórter da Folha , Tales Faria, hoje publisher do iG, diz que os meios de comunicação receberam o anúncio de forma favorável.“Primeiro, todo mundo queria que desse certo, já havia um desgaste grande. Segundo, o plano em si já era resultado de uma série de planos que não tinham dado certo. O que não tinha dado certo: eles não tinham sido pactuados com a sociedade”, afirma.


Sardenberg não titubeia ao dizer: o Plano FHC foi um sucesso. “Se você entende a estratégia como ela é, percebe que não foi apenas a introdução de uma nova moeda, mas sim de uma nova estrutura econômica para o país. Você olha e vê que tudo que está funcionando no Brasil hoje é graças ao Plano Real.”


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves


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