Antibaixaria: a programação nas TV's e o pacto civilizatório
Antibaixaria: a programação nas TV's e o pacto civilizatório
Em Baader-Meinhof Blues, Renato Russo ousou dizer que " a violência é tão fascinante... e nossas vidas são tão normais!...", retratando na canção uma discussão que é de uma seriedade que perpassa o estoicismo, cuja profundidade é maior do que se pensa numa análise superficial: o universo mítico que a televisão apresenta às pessoas, que , mais que convence, seduz.
No último dia 17 de outubro a sociedade civil e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal promoveram o Dia Nacional contra a Baixaria na TV. O dia, que permitiu uma redução de pelo menos 14 pontos percentuais no Ibope das emissoras comerciais na grande São Paulo , já pode ser visto como um marco na história da televisão brasileira, embora as emissoras comerciais esperneiem em minimizar a importância do momento e contra-alardear, na efeméride do terrorismo de que " se está querendo fazer censura" nos meios de comunicação, sabendo, no expertise comercial que têm, que, após os anos de calabouço ditatorial, o povo brasileiro repugna esta palavra: censura. Repugnamos mesmo. Todos.
Embora o argumento seja bem planejado, é uma falácia. O que os movimentos sociais têm buscado não é - e não poderia jamais ser - o fantasma da censura à televisão. E neste "decifra-me ou devoro-te", podemos dizer que a palavra é controle social. O movimento cresce, de um nascedouro que é a própria sociedade civil organizada, alvo das emissoras de televisão, estas concessões públicas mas que, em nosso país, ganham ares de empresas privadas, meramente comerciais, veiculando o que querem, da forma como querem. E ainda cometem o descalabro de afirmar que, se baixaria dá Ibope, é porque o povo gosta...
Não, o povo não gosta de baixaria! Quando a própria sociedade civil começa a se organizar, em busca de um regramento ético para as televisões brasileiras , é porque chegou a hora de se conter o excesso. É porque a programação nas TV's brasileiras não tem tido medidas, não tem tido sequer cuidado, está fora de controle. Extrapola, surpreende, excede, prende os olhos em cenas das quais não podemos escapar, porque vêm sem aviso-prévio. Estamos espantados, horrorizados, de tal forma impactados que não conseguimos sair da frente do aparelho, e às vezes nem nos damos conta disso.
Não, não gostamos de baixaria, não gostamos desse mundo cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para nos impactar: ah, o Ibope, claro! O que excede captura, deixa o sujeito sem recursos para reagir.
De forma mítica, sabemos, nos contam Hobbes, Rousseau, Freud, dentre alguns, do por que de uma ordem social. A civilização é o contraponto ao estado de natureza. No estado de natureza, o homem bruto, o tempo da barbárie, do gozo sem limite: da violência como forma única de se conseguir responder ao perigo do estado natural para atingir um quantum de satisfação da necessidade. A civilização então nos vem enquanto recurso inventado pela humanidade, após adquirir racionalidade, para enfrentar os perigos que vinham da própria natureza humana, renunciando àquilo que os aproximava do perigo, ou seja, seu gozo narcísico antes de tudo. Por isso, renunciamos à barbárie, sacrificando parte de nossas pulsões , e passamos a respeitar a dimensão do outro enquanto semelhante. Em vez do matar ou morrer, o pacto civilizatório que regra, oferecendo a lei e civilizando as pulsões. Nesse espaço de trocas simbólicas, o respeito. Para quem desrespeita o pacto, a sanção.
Mas a agressividade faz parte da nossa natureza. Então, como fizemos um pacto, exige-se orientar o caminho das pulsões dentro do trilho consentido pelas normas da civilidade: faremos desvios para não violentar o outro, tendo o projeto de civilização orientando as nossas vidas. E, nesse contexto, quando um programa de televisão nos mostra a cena bárbara que não deveria existir e nos prende de tal forma que não conseguimos fugir ( e dá Ibope!) é porque consegue, à revelia do público, nesse momento, a suspensão do recalque civilizatório. É como se, por um instante, a barbárie fosse de novo consentida: pode ser mostrada, banalizada, como expressão de uma possibilidade para a qual não há sanção. Quando as cenas apresentadas na TV banalizam o pacto social e invadem a nossa casa, provocam a manifestação dos sentidos arcaicos que, milenarmente, a humanidade empreende esforços para recalcar.
E gostamos disso?
Não, não gostamos dessa baixaria. Somos capturados por ela. É diferente. Por isso paramos na frente da TV. Por isso não mudamos de canal , e não é porque não haja programação melhor . A banalização da violência, da sexualidade, da própria vida, ganha audiência , porque nos fala de algo da nossa natureza humana que deveria estar recalcado , e não estar ali, exposto num canal aberto. É preciso dizer não. É preciso pôr um basta nessa compulsão pela audiência a qualquer custo, que desrespeita o cidadão e desrespeita a civilização. O que está em jogo é o projeto de civilização que temos construído. Se bem pensadas e planejadas, as programações das TV's são fundamentais para a transmissão de valores, normas, cultura. Para nos fazer crer que um mundo melhor é possível. E é isso o que queremos: a concretização de um projeto civilizador que seja plural e participativo, fonte inesgotável de possibilidades, informações, entretenimento e o que mais couber, com qualidade, que possa efetivamente contribuir para se viver melhor.
* Ricardo F. Moretzsohn , psicólogo, é presidente do Conselho Federal de Psicologia, membro do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, membro da Executiva da Campanha Nacional contra a Baixaria na TV e conselheiro do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.






