Amnésia, indigência, exclusão, por José Marques de Melo

Quando a Unesco decidiu criar uma rede mundial de Cátedras de Comunicação, 25 países foram inicialmente consultados, entre eles o Brasil. Es

Atualizado em 20/07/2015 às 18:07, por José Marques de Melo.

Crédito:Leo Garbin sa enquete mobilizou intelectuais reconhecidos por suas contribuições às ciências da comunicação. Eles foram desafiados a mediar uma tríplice aliança entre os Estados nacionais, as universidades top naquela área do conhecimento e as respectivas comunidades acadêmicas.
Coube-me o privilégio de representar o Brasil nesse novo organismo internacional, na condição de titular da cátedra em processo de instalação na Universidade Metodista de São Paulo. Em novembro de 1995, participei, em Paris, da assembleia de fundação da Orbicom, apresentando a plataforma de trabalho a ser desenvolvida no Brasil. Lembro que meus colegas de outros países ficaram perplexos com os indicadores brasileiros que lhes apresentei. Particularmente com a meta principal da nossa cátedra, buscando superar três estigmas civilizatórios: amnésia histórica, indigência cognitiva e exclusão informativa.
O primeiro estigma projetava-se na formação dos profissionais que “fazem a cabeça” do povo brasileiro. O diagnóstico feito na última década do século passado apontava uma tendência a-histórica ou até mesmo anti-histórica. Tornou-se preocupante a supressão de disciplinas dessa natureza das estruturas curriculares e o cancelamento ou desestímulo de projetos de pesquisa que focalizam variáveis enraizadas em episódios precedentes.

Foi justamente para neutralizar esse tipo de distorção que fundamos a Rede Alfredo de Carvalho (Alcar), mobilizando as instituições responsáveis pela preservação dos vestígios da memória nacional e sensibilizando os gestores pedagógicos para valorizar os elementos diacrônicos na compreensão dos fenômenos comunicacionais.
Isso vem sendo observado nas diretrizes curriculares nacionais aprovadas pelo Ministério da Educação, preparando os futuros profissionais para o cultivo de formatos interpretativos na cobertura jornalística. Mas também fomentando a presença de especialistas nos espaços midiáticos que demandam explicações contextuais sobre o nosso passado, atuando como fontes, entrevistados, consultores ou analistas, biógrafos ou conjunturalistas.

Entretanto, a mais importante evidência dessa mutação substantiva está contida naqueles aspectos que atestam a oportunidade e a operacionalidade da Alcar: o crescimento dos pesquisadores da área está explícito no volume de trabalhos inscritos nos congressos anuais: em 2003 (RJ) contabilizamos 65 pesquisas; em 2015, temos 435. Mas também na predominância do contingente jovem e na competente liderança feminina. Permanece insolúvel o estigma da indigência cognitiva, o que nos convoca para fomentar a “leitura do mundo” em uma sociedade em que a maioria não tem acesso ao saber acumulado, engrossando as fileiras da exclusão informativa, o que representa sério perigo para a democracia.