Amizades sem aspas

Amizades sem aspas

Atualizado em 16/08/2010 às 10:08, por Igor Ribeiro.

Até pouco tempo atrás, a internet era considerada o antro dos segredos. Não é muito complicado rememorar o que lhe trouxe essa fama. Em meados dos anos 1990, mesmo depois de se tornar conhecida por muitos cidadãos, a web ainda era um universo estranho, algo que se retringia a militares, pesquisadores, nerds e endinheirados. Poucos arriscavam prever seu futuro e ainda menos gente ousava dizer que assumiria a proporção que hoje tem. Fornecido por raras empresas, o serviço era lento e caro, e o conhecimento técnico era restrito. Códigos em HTML eram hieróglifos. O uso funcional da rede era desacreditado pelos mais céticos - muitos jornalistas respeitados acreditava num entusiasmo curto com a novidade, enquanto tantos outros proclamavam a reviravolta tecnológica que trazia o CD-ROM (lembram dele?). A internet virou ainda uma referência de covil da hipocrisia, onde pessoas poderiam se enganar facilmente umas às outras, fosse em salas de chat, fossem em sites de notícias copiadas, requentadas e mal verificadas. O investimento era mal gerido e, para piorar, houve a bolha de 2000, que desacelerou a evolução das tecnologias digitais. Em sua coluna de agosto da revista IMPRENSA, Luli Radfahrer conta como a bolha foi consequência direta do pânico das empresas com perda de dados durante o "bug do milênio", evento que nunca ocorreu.
Hoje, o cenário é completamente diferente. A internet não só deixou de ser o antro dos segredos - e, para muitos, da mentira - para se tornar o lugar símbolo da transparência. Não graças aos usuários - frise-se - sejam da sociedade, do governo ou do empresariado. Mas pelo que ela se transformou. Uma via rápida de dados e informações que pode ser facilmente criada, acessada, compartilhada, fiscalizada e consertada. Hoje, espera-se que instituições - principalmente governos e empresas - publiquem sistematicamente seus relatórios e balanços, sob o risco de sua falta de transparência sofrer o escrutínio de público, mídia e stakeholders . Além disso, por questões tão diversas como marketing e atendimento ao consumidor, espera-se que tais entidades marquem presença em tantas redes sociais quanto possíveis: Twitter, Orkut, Facebook, wikis, blogs etc.
Essa expectativa de transparência deve muito a esses mídias sociais. Foi graças a elas que os usuários - indivíduos mesmo, não pessoas jurídicas ¬- depositaram na internet seus diários, expectativas, fotos, vídeos, sonhos. Foi entre amigos e familiares que se espalhou e se tornou comum fazer da vida pessoal um arquivo digital personalizado. Se por um lado o acesso é restrito a um leque de "amigos" ou "seguidores", a membrana de amizade dessas redes se tornou tênue e generosa, a ponto de muita gente estabelecer contatos mais efetivos pela internet do que na vida real, no trabalho, no lazer, no romance. Se há alguns anos seria normal fechar este parágrafo com um comentário como "louco, não?", hoje o maluco é aquele que não se faz presente digitalmente.
Sou desapegado convicto de nostalgias fúteis e ilusões novidadeiras. Não acho nada pior nem melhor, não acho nada mais "moderno" nem "revolucionário". É a simples passada dos tempos que, como bom andarilho, sigo caminhando e assisitindo às pessoas, aos carros e às vitrines, como naquela canção do Rumo. Mas para mim ainda é inevitável analisar esses relacionamentos com os olhos da minha geração, e fazer algumas comparações curiosas com o mundo pré-internet.
A mais famosa remonta a uma pesquisa que descreveu que uma pessoa normal poderia gerir, numa rede social tradicional, o máximo de 200 amigos. Não lembro ao certo a fonte da pesquisa, era uma faculdade ou instituição acadêmica renomada, mas a metodologia garantia uma convivência mínima para entrar na definição clássica de amizade. Critérios como "liga de vez em quando" ou "comparece aos aniversários"? Sei lá. Mas isso era previsto. O que obviamente é antiquado se comparado às atuais amizades de internet. A convivência física se tornou uma barreira pequena diante da possibilidade de fazer contatos, trabalhar, gostar ou amar alguém.
É cada vez mais comum sentir-se à vontade com alguém digitalmente, mas nem tanto ao vivo. Ainda me causa estranheza quando, de vez em quando, vejo alguém das minhas listas de "amigos" pelas ruas ou num restaurante e a pessoa me olha enviesada, como se temesse um cuprimento meu. Nos casos em que eu de fato aceno ou cumprimento, pareço um doido, alguém por fora da etiqueta básica das mídias sociais, cuja informalidade não cria expectativas sobre a consumação física de uma amizade digital. Numa dessas vezes meu interlocutor foi até simpático, mas poderia jurar, segundo a expressão dele, que não se lembrava de mim e nem de algumas mensagens já trocadas no MSN. É comum ver "amigos" conversando em murais de Facebook e Orkut que não falam ao vivo e nem tem motivo para tal.
Mas essa é a verdade destes tempos, legítima e transparente. Se não for por sentimento, é por decreto, pois afinal está escrito, registrado num timeline acessível a todos interessados como se fosse um relatório ou um balancete de uma empresa. A internet está se tornando uma realidade muito maior do que a vida tangível do dia-a-dia. Eu que tenho de aprender a tirar as aspas das minhas amizades.