Ameaça de morte pesa sobre jornalista em Ilhabela
Ameaça de morte pesa sobre jornalista em Ilhabela
O jornalista Fernando de Santis, 14 anos de carreira, é um exemplo da violência com que o poderio econômico, ligado ao banditismo, podem fazer contra o profissional que pretende praticar um jornalismo ético, comprometido com a apuração e a divulgação da verdade. Autor de uma série de matérias sobre os desmandos da prefeitura de Ilhabela nos últimos três anos, De Santis foi demitido de dois jornais da região, o Imprensa Livre e o Correio do Litoral. E sofreu ameaças de morte por telefone, por três vezes. A última ocorreu em 12 de abril, quando o autor das ameaças citou o nome do seu filho, a idade e a escolinha que este freqüenta.
De Santis procurou o Sindicato dos Jornalistas para buscar apoio, ironicamente às vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Disse também que pretende deixar Ilhabela, onde mora com a mulher e o filho de um ano e três meses. Com muita dificuldade e só de vez em quando De Santis consegue ver um texto seu publicado nos jornais da região. Tudo por causa dos compromissos desses veículos com a Prefeitura de Ilhabela, o que acaba impedindo que se pratique um jornalismo sério, como está no manual do bom profissional.
O relato feito por Fernando à repórter do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo descreve como a censura pode se manifestar por vários caminhos – muitos deles velhos conhecidos de jornalistas que atuam em veículos pelo o país a fora. É o seguinte o depoimento do jornalista:
“Ilhabela tem uma máfia de registro de terra, uma máfia ligada a acertos fundiários. E essa máfia tem um braço dentro da prefeitura. O prefeito Manoel Marcos Ferreira (PTB), que foi reeleito, tem uma imobiliária que foi aberta 43 dias depois da posse dele em 2001. Essa imobiliária vende terrenos em área de proteção ambiental. A partir desse tipo de informação, eu fiz várias matérias, disso e de outras (denúncias), como de documentos apagados do cadastro dentro da prefeitura. A maioria das denúncias parte dos processos feitos pela Amailha (que é a associação de defesa da cidadania de Ilha Bela). Fiz várias matérias, isso gerou um certo desconforto nessa máfia.
A partir daí, tenho acompanhado e venho sendo vítima de perseguição política. Fui demitido de dois empregos e recebi três ameaças de morte – a última vez é que me deixou mais com a orelha em pé. Isso significa que se está mexendo numa coisa delicada, não é?
É uma espécie de rede que protege esse tipo de informações. Um juiz tem terra num loteamento feito pela Ilhabela Imóveis, no nome do pai. Dois delegados – um foi preso por vender a liberação de carros furtados...outro delegado tem vários terrenos numa área de preservação permanente, dadas pela Ilhabela Imóveis...
Até o Estadão, quando chegou nas bancas no dia 23 de março deste ano com a manchete “Prefeito avança na mata”, gerada por uma das minhas matérias, foi recolhido e provocou uma denúncia numa associação internacional. Isso partiu de uma matéria minha (sobre o empreendimento imobiliário do prefeito o Siriúba que ocupa área de preservação), que não consegui publicar, não sei porquê. Veio a repórter do Estadão, Barbara Souza, que foi perseguida após entrevistar o prefeito. O carro de reportagem do Estadão foi seguido por todos os lugares e foi fotografado pelo diretor de meio ambiente do município... No dia seguinte, o jornal foi recolhido das bancas pela prefeitura. Na quinta-feira saiu uma matéria (no Estadão) relatando o ocorrido. O episódio rendeu também um editorial: “Ilhabela é ameaçada”.
Mas o que me trouxe ao Sindicato é um conjunto complexo. Por exemplo, a demissão da primeira vez aconteceu em 2003, quando fiz uma matéria para o jornal Imprensa Livre sobre 80 casas construídas com recursos do governo do Estado, das quais 20 estavam no terceiro pavimento... só que a Lei Orgânica de Ilhabela permite a construção de até dois pavimentos. Ou seja, a prefeitura enganou o Governo do Estado. Daí (a prefeitura e a Câmara) tentaram aprovar uma lei em cima dessa denúncia que eu fiz para regularizar a situação daquelas 20 casas populares. Fiz outra matéria explicando como foi... Isso gerou uma matéria na Band (Bandeirantes). O repórter foi lá, fez a denúncia, entrou ao vivo chamando o prefeito, fizeram a entrevista. Surpreendentemente, depois de três matérias colocada no ar, apareceu um negócio chamado Casa da Band – uma publicidade gigante de Ilhabela e a rede calou a boca...
Isso gerou uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) na Câmara. Fizeram (a CEI) para apurar essas irregularidades na construção de imóveis. E descobriram que tinha uma série de casas com três pavimentos. Onde? Nos loteamentos vendidos pelo prefeito. Como ele responde a isso?: ‘Estou afastado da Ilhabela Imóveis desde o dia que entrei na prefeitura’. Mas como, se ele constituiu a empresa 42 dias depois da posse?
Essa foi a primeira demissão.
Bom, daí fui para outro jornal chamado Correio do Litoral, que é concorrente do Imprensa e é semanal... Fiquei um tempo escrevendo para eles. Daí surgiu a matéria do cadastro de imóveis que foi apagado de dentro da prefeitura e isso gerou uma matéria. Fui demitido no dia seguinte ao que o prefeito foi lá pedir minha cabeça – na semana que fiz essa matéria. Começou o cerceamento econômico...
Minha esposa, que também é jornalista, trabalhava na Câmara Municipal, até quando o presidente da Câmara aderiu à candidatura de reeleição de Manoel Marcos... Ela foi preterida, mas não podia ser demitida porque tinha acabado de ter filho, tenho um filho de um ano e três meses. Começou a ser preterida e foi demitida faltando dois meses para o final do contrato, no ano passado.
Além de um ambiente altamente servil ao poder, existe esse comprometimento econômico. Mas eu não estou conseguindo publicar nada e é isso que está me deixando cabreiro, porque tem grandes matérias. Quando começaram as matérias do Estadão sobre o Siriúba, esse empreendimento da imobiliária do prefeito, a partir desse momento começou a existir uma perseguição maior a algumas pessoas.
Um é advogado, ligado à Amailha. Foi parado pela polícia, com alegação que tinha drogas no carro dele.
Moro em frente à casa do prefeito. É até uma ironia até, tinha uma denúncia na PM que estavam traficando drogas na frente da casa do prefeito, na minha casa. Quer dizer, ou eu, ou minha mulher, ou meu filho de um ano e três meses estava traficando drogas. Nos apresentamos à polícia, para nos defender, para dizer que não tinha nada disso. Depois me tiraram dois empregos, fizeram que minha esposa não trabalhasse mais na Câmara. Ela agora trabalha no Correio do Litoral, mas ganha menos que o piso.
Depois disso eles viram que o estrangulamento econômico não funciona, porque continuei a fazer as matérias. E daí, alguém ligou uma vez pra mim, dizendo: ‘Olha, toma cuidado, você está falando demais, você vai aparecer boiando lá no canal’, canal aí é o canal de São Sebastião. Na segunda vez - quando saíram matérias de uma imobiliária de um concunhado do prefeito que recebeu R$ 1 milhão de uma dívida prescrita - me ligaram a segunda vez. `Olha, você foi avisado`, mas não levei muito a sério... Daí a terceira vez, eles citaram o nome do meu filho, o dia de nascimento e falaram que eu estava falando demais. Quem? Não sei. Imagino que seja da mesma máfia, mas não posso afirmar.
Eu vim aqui também para o Sindicato pedir que verifiquem os jornais de lá e vejam onde tem o trabalho regular (de jornalista). Em Ilhabela, talvez tenha três vagas preenchidas regularmente, a assessoria de imprensa da prefeitura é feita por uma professora. Todos os jornais de lá trabalham sem jornalista responsável, inclusive o jornal oficial da prefeitura, quer dizer, um ambiente profissionalmente frágil fez com que os jornais fossem frágeis também, e os jornais sendo frágeis, o combate à corrupção, a esse tipo de coisa foi diminuído... A mesma coisa acontece em São Sebastião, que tem dois jornais maiores, que são o Correio do Litoral e o Imprensa Livre, que cobrem Ilhabela. No Imprensa Livre tem um jornalista que ganha o piso e oito que não ganham, e que têm acúmulo de função. O Correio do Litoral tem dois jornalistas e três estagiários, um jornalista ganha o piso, mais dois correspondentes, que sou eu e um outro.
É um ambiente para nossa profissão extremamente frágil. O Imprensa Livre, dizem, não posso afirmar isso, todo mundo diz, mas não tenho como provar, que pertence ao ex-prefeito Paulo Julião, que é sócio de Manoel Marcos na construção de um shopping em área tombada pelo Condephaat, eles e o presidente da Câmara de S. Sebastião. Tudo isso se comunica, o ex-prefeito Paulo Julião que apareceu na Veja na matéria sobre corrupção nas prefeituras do Brasil, ele aparece com candidato a prefeito de Ilhabela, a praça de Ilhabela, que está sendo reconstruída sem autorização do Condephaat em área tombada – prédio Fórum e cadeia – leva o nome Coronel Julião, é o pai do ex-prefeito. É uma situação pra lá de complicada, que gera esse tipo de comprometimento
Então o que vim pedir aqui, primeiro fiscalização, apoio e ver se vocês tem espaço para um jornalista aqui em São Paulo...
Estou desistindo de Ilhabela...Moro lá há três anos, desde a greve da Gazeta Mercantil, quando eu e outros colegas fomos demitidos. Eu era coordenador de equipe de jornalismo do Investnews e do Panorama Setorial da Gazeta na madrugada e da agência Gazeta...
Eu vim pedir ajuda, a coisa está complicada. A última ameaça foi há 10 dias, que me deixou apreensivo... Todo mundo sabe onde todo mundo mora, me chateia muito esse tipo de coisa, toda a matéria que contenha faz com que o jornal seja recolhido de bancas, com fizeram com o Estadão....
Os limites do certo e do errado estão muito confusos por lá. Não existe de minha parte uma tentativa de perseguição de alguma coisa. Existe a tentativa de fazer um jornalismo sério, tanto que inauguração de escola sempre apareci, alguma coisa que seja promocional... Agora acho que o jornalismo sério inclui também esse tipo de denúncia, e os jornais não tem visto assim, e a prefeitura não tem visto assim, e as pessoas que cercam não tem visto assim.
Já procurei a polícia, a promotoria pública. Pela primeira vez, depois da matéria do Estadão, nomearam um promotor efetivo para Ilhabela. Antes, o que existia, o promotor substituto, ele não poderia ficar mais de dois meses.
Mas eu nunca fui processado por ter publicado essas matérias...Por exemplo quando a Barbara foi lá fazer a primeira matéria, o prefeito balançando a minha matéria e falou “isso aqui é mentira”, eu respondi: “Se está errado, processa”. Ela (a Barbara) fez a reportagem em cima da minha matéria e não foi processada. Depois disso, dessas matérias, ele juntou um ex-delegado e advogados e foi até o Estadão ameaçar de processo. Processar o Estadão é bacana, lá questionaram o porquê do processo e o prefeito rebateu dizendo que queria direito de resposta, o que foi questionado pelo jornal sob a alegação de que o prefeito fora ouvida em todas as matérias, não fazia sentido.
A partir disso, o Estadão mandou uma repórter lá (em Ilhabela) e uma série de histórias começaram a aparecer.
Eu acho que a verdade tem que aparecer e as pessoas que estão envolvidas tem que ser expostas. Infelizmente, uma delas é o meu vizinho. É um cara que fala bem, que sorri. Mas não vou em nenhum momento me calar.
Eu acho que o jornalismo que estudei é assim. O jornalista é representante da população, e a obrigação dele é levar a informação que chega ou não à população. Quando não consegui fazer chegar, quando o jornal cerceou, eu achei outros caminhos: a internet, outros jornais. Quer dizer, esse ambiente não é o nosso ambiente, não é o jornalismo que eu quero ver sendo praticado. Tenho 14 anos de jornalismo. Não foi isso que estudei. Estudei para fazer um jornalismo sério. Por isso quis ser jornalista. Por isso vim aqui, para pedir ajuda... Acho que ficaram alguns jornalistas torcendo para que isso produza seus efeitos."






