Aliado de políticos suspeitos de corrupção, grupo de ultradireita faz ataques sistemáticos a jornalistas peruanos
Baseado na Colômbia, o jornalista John Otis escreve para veículos como o Wall Street Journal e é consultor do Comitê de Proteção para Jornalistas (CPJ), entidade internacional com sede em Nova York e atuação em diferentes países do mundo, inclusive o Brasil.
Atualizado em 24/07/2023 às 11:07, por
Redação Portal IMPRENSA.
Em matéria publicada ontem no site do CPJ, Otis entrevistou o colega Gustavo Gorriti, fundador e editor-chefe do premiado site de notícias investigativas IDL-Reporteros, com sede em Lima, a fim de expor as táticas usadas pelo grupo de ultradireita La Resistencia para estimular a retórica anti-imprensa no Peru. Não por acaso, muitas das iniciativas são parecidas com as observadas no Brasil.
Dentre as ações do La Resistencia estão interrupções de coletivas de imprensa, confrontos com manifestantes de esquerda e piquetes nas casas e escritórios de proeminentes jornalistas, políticos e ativistas de direitos humanos. As alegações dos integrantes do La Resistencia contra a imprensa do país vizinho também são parecidas com as da extrema direita brasileira: os jornalistas estão agindo para que o Peru adote o comunismo. Crédito: Reprodução IDL-Reporteros Integrantes do La Resistencia atacam escritório onde funciona a redação do IDL-Reporteros Somente na porta da redação do IDL-Reporteros e em frente à casa de seu fundador, o grupo organizou mais de 20 protestos nos últimos cinco anos. Com alto-falantes e megafones, membros do La Resistencia bradaram ameaças de morte e ofensas anti-semitas contra o jornalista Gorriti, que tem 75 anos e é judeu.
Um dos maiores ataques ocorreu em maio último, quando cerca de 50 integrantes do La Resistencia detonaram explosivos, acenderam sinalizadores e jogaram sacos de lixo e cacos de vidro no escritório do IDL-Reporteros.
Imagens das ações foram compartilhadas nas redes sociais e amplamente divulgadas por veículos de direita, como a estação de TV Willax e o jornal Expreso.
Corrupção e Odebrecht
Gorriti não é o único ameçado pelo grupo de extrema direita. Outros alvos recorrentes são Antonio Zapata - historiador peruano e colunista do La República, também sediado em Lima - e os jornalistas do Instituto de Defesa Legal, dedicado a combater a corrupção no país.
O La Resistencia foi fundado em 2018 por Juan José Muñico, um metalúrgico de 47 anos de um bairro operário de Lima. Quando tinha 22 anos, ele foi interrogado nas investigações do assassinato de um soldado peruano ocorrido em 1998. O crime não foi solucionado. Atualmente ex-policiais e militares fazem parte do grupo.
Nos últimos oito anos, o IDL-Reporteros publicou uma série de denúncias sobre corrupção no sistema judicial do Peru e sobre a Odebrecht , construtora brasileira que admitiu ter pago propinas a políticos peruanos para ganhar contratos de obras públicas no país.
O trabalho do IDL-Reporteros colaborou para que políticos, advogados, juízes e empresários peruanos fossem investigados por corrupção, incluindo a derrotada candidata presidencial Keiko Fujimori. Filha de Alberto Fujimori, ex-presidente que cumpre pena de 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e abuso de poder, Keiko conta com o apoio do La Resistencia e está sob investigação por lavagem de dinheiro, num caso amplamente coberto pelo IDL-Reporteros.
Criminalização do jornalismo
Em maio, o Congresso peruano aprovou um projeto de lei que aprofunda a criminalização do exercício da atividade jornalística no país. Ao alterar os Códigos Penal e Civil, a nova legislação aumentou as penas por "uso indevido" dos meios de comunicação e os valores de indenizações que devem ser pagas por profissionais de imprensa em casos de condenação em ações judiciais de crimes contra a honra. As medidas também contemplam penas de privação de liberdade.
De acordo com a Associação Nacional de Jornalistas do Peru (ANP), a decisão ocorre num contexto de crescentes repressão e violência contra profissionais de imprensa, aprofundando as condições de desproteção dos jornalistas que atuam no país. Ainda segundo a entidade, só nos últimos 5 anos 146 jornalistas foram processados no Peru por conta de suas investigações e reportagens.
Por sua vez, a Federação Internacional de Imprensa (FIP, na sigla em espanhol) destacou que as mudanças contrariam as recomendações da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que priorizam para crimes contra a honra medidas civis. A entidade também afirmou que a mudança constitui um "claro ato de intimidação contra o trabalho jornalístico", já que incentiva a censura e o silenciamento de vozes críticas.
No final do ano passado e nos primeiros meses de 2023, o Peru viveu um quadro de profunda crise política e social, com protestos violentos e o bloqueio de estradas por quase todo o país. Relatório da ANP informa que, durante a crise, foram registrados 183 ataques contra jornalistas.





