Além da tragédia, por Silvia Bessa

Crédito:Léo Garbin Para redações inteiras de jornais, rádios e televisões de Pernambuco, a semana do fatídico 13 de agosto de 2014 foi a mais difícil de todos os tempos.

Atualizado em 15/09/2014 às 15:09, por Silvia Bessa.

de jornais, rádios e televisões de Pernambuco, a semana do fatídico 13 de agosto de 2014 foi a mais difícil de todos os tempos. Ouvi tal análise de duas dezenas de colegas, sobretudo de profissionais mais jovens ao se referirem à tragédia que matou o ex-governador Eduardo Campos, assessores e os pilotos do avião. Afora o impacto do desastre sobre os conterrâneos, destaco aqui como uma cobertura dessas expõe as dificuldades do fazer jornalístico - uma atividade que inevitavelmente tem que se contrapor ao senso comum.


Num episódio como este, espera-se que a mídia fale do acidente, das questões técnicas do acontecido, da dor da família, das pessoas que poderiam ter embarcado... Nunca esperam que se fale de política. Mas como, em se tratando de um político uma das vítimas, ignorar especulações sobre quem o substituirá e quem será o seu herdeiro, ou sobre como ficará o cenário eleitoral sem ele? Para nós, repórteres, tornou-se comum ouvir nas ruas pessoas dizendo que Eduardo sequer foi enterrado e já estavam procurando nomes para ocupar a vaga de vice. Ora, é preciso lembrar que está na natureza do jornalismo não olhar apenas o fato em si, mas ver suas consequências.


Curioso que, mesmo entre jornalistas, havia quem, por meio de redes sociais, reclamasse que a imprensa não estaria respeitando a dor da família e a própria tragédia. Foram várias as críticas à Folha quando na quinta-feira anunciou que o DataFolha havia feito pesquisa colocando Marina Silva como candidata à presidente no lugar de Eduardo. Colegas criticaram a postura “desrespeitosa” do instituto, numa visão meio ingênua dos fatos, o que aliás acabou tendo um desmentido indireto da própria família.


Vejamos: o irmão de Eduardo Campos, Antônio Campos, soltou nota oficial no período de indefinição sobre o nome de Marina defendendo que ela fosse candidata. O corpo do ex-governador e presidenciável não tinha nem sido sepultado. A viúva Renata Campos e os filhos corroboraram o recado: eles receberam o caixão vindo de São Paulo e desfilaram pelas ruas do Recife em carro aberto, muitas vezes de braços erguidos entoando o refrão “Eduardo/ guerreiro/ do povo brasileiro!”.


Para mim, nem a imprensa nem a família de Eduardo foram desrespeitosos à memória dele ao agir como agiram. A imprensa fez o seu trabalho de tentar, em meio a uma sucessão presidencial, divisar as consequências políticas e eleitorais da tragédia. A família reverenciou o familiar desaparecido como ele era: um líder popular, habituado

a disputas políticas e eleitorais.


O limite entre bom senso e exagero muitas vezes é quebrado em ocasiões como essas. Nos dias de hoje você pode ter tanto o popular que faz uma selfie ao lado do caixão quanto o profissional de imprensa que cobre um assunto desses como quem está cobrindo um evento festivo. São exageros que não representam o comportamento geral nem do povo, nem o comportamento geral dos jornalistas – que, em sua imensa maioria, estava lá para obter informações a fim de oferece-las ao público, razão principal do seu trabalho.