Alberto Tamer, um dos mais respeitados jornalistas econômicos, completa 50 anos no Estadão

Alberto Tamer, um dos mais respeitados jornalistas econômicos, completa 50 anos no Estadão

Atualizado em 14/04/2008 às 18:04, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

Alberto Tamer, um dos mais respeitados jornalistas econômicos, completa 50 anos no Estadão

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Alberto Tamer dispensa apresentações: o jornalista econômico completa neste mês 50 anos no jornal o Estado de S. Paulo . Ele já foi repórter, editorialista, correspondente internacional e é colunista há 14 anos. Com 76 anos e em plena atividade, já tem sete livros publicados.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Tamer faz um panorama de seu trabalho, e conta histórias da sua carreira com bom humor e perspicácia, como o fato de ter sido o grande incentivador da contratação da primeira mulher na redação do Estadão, ainda na década de 70, a jornalista Dinaura Landini; ou quando foi o primeiro repórter do Estadão a ir para a Amazônia.

Como bom repórter que é, Tamer nunca deixou de acompanhar as novidades. E diz que o melhor da internet é que sabe que pode ficar tranqüilo, pois "quando chegar na minha casa vou abrir o computador e vou ter tudo que os jornais vão dar. Tenho nesse momento trinta jornalistas cobrindo uma reunião pra mim".

Portal IMPRENSA - O senhor completa 50 anos de profissão.
Alberto Tamer -
Completei dia 15 de março. 56 de jornalismo e 50 de Estado de S.Paulo .

IMPRENSA - Se pudesse fazer uma retrospectiva desses anos, qual seria algum ponto positivo e algum negativo da sua carreira profissional?
Tamer -
Eu comecei minha carreira profissional em 1952 cobrindo política. Até 58 cobri Jânio, Assembléia Legislativa. No começo foi uma fase de aprendizado. Na verdade, eu comecei no jornalismo na rádio Excelsior. Aí eu fazia política e redigia o jornal da rádio também. Aprendi muito. Trabalhei no Jornal O Tempo , foi meu primeiro jornal. Foi um jornal que inovou, quase revolucionário, o primeiro a usar o lead. Aprendi muito lá, e primeira fase foi cobrindo política. A segunda fase, em 58, eu estava na Folha , e fui despedido, em plena lua-de-mel. Eu fazia a Folha da Noite , e estava desconfiado que alguma coisa ia acontecer, porque sempre demitiam os últimos admitidos quando havia aumento do sindicato, e eu era o último admitido. A Folha é uma curiosa, é até bom registrar isso aí, a Folha dava nota. Ou seja, você escrevia a matéria, saía a matéria, e o seu editor dava uma nota: 10 reais, 50 reais. E no fim do mês você precisava completar o seu salário. Se não completasse ficava devendo no mês seguinte, tinha que trabalhar o dobro. Eu sempre completava a minha parte. Foram no meu casamento, cumprimentaram, foi o diretor, todo mundo. Dez dias depois eu estava despedido. Consegui um lugar no Estado de S.Paulo por dois meses, pra cobrir uma pessoa, aí como repórter econômico. Não tinha propriamente economia naquela época, era agricultura, café e algodão.

IMPRENSA - Porque o senhor escolheu essa área?
Tamer -
Não escolhi, eu estava desempregado, estava envergonhado, humilhado perante a família da minha mulher, era só por dois meses, substituindo uma pessoa. O Julio de Mesquita Neto, que naquela época mandava, me admitiu por pena. O Abreu Sodré, que era presidente da Asssembléia Legislativa, me recomendou, disse que eu era honesto. Ai o Julio me viu, magrinho, hoje eu tenho 66 quilos, pesava 45, pele e osso. Me deu um prazo pra ficar lá. Eu disse que não sabia nada de economia, só tomar café. Ele disse: "não se preocupe filho, eu também não sei nada de economia, nós vamos enganando todo mundo". Ai fiquei lá, estava com tanta raiva da Folha, tão desesperado pra garantir o emprego, que comecei a dar furo todo dia, furo em cima de furo, um, dois por dia. A Folha me pediu pra voltar, mas eu nunca mais voltei. Aí, quando acabaram os dois meses, o Julio Neto me contratou. O Cláudio Abramo quis me despedir, porque era ele quem mandava na redação, fui o primeiro que o Julio neto admitiu à revelia dele. Foi o grito de liberdade dele contra o Cláudio.

IMPRENSA - Conte um ou dois furos que marcaram a sua carreira.
Tamer -
O meu primeiro furo...naquela época havia uma grande briga sobre o melhor fertilizante, não havia adubo pro café. Houve uma reunião para discutir fertilizantes, e todo mundo foi embora. Eu fiquei até as 23h, o jornal fechava H30 da manhã. E no fim aprovaram a secretaria da agricultura recomendava aos agricultores que usassem fertilizantes químicos, e não mais o adubo. Foi uma revolução, um furo fantástico. "Governo recomenda fertilizantes para o café". Furava a Folha todo dia.

IMPRENSA - O senhor já foi assessor de algum ministro?
Tamer -
Nunca aceitei cargo publico. O único cargo público que eu exerci foi em 75, 76 e em 80, 82, quando o Roberto Campos me convidou para ser adido cultural de imprensa dele em Londres. Curioso o meu contato com o Roberto Campos, não o conhecia e um dia fui cobrir pro Estado uma viagem dele. Naquela época tinha o repórter de setor, repórter de aeroporto, de palácio, e numa viagem foi um repórter atrás dele e ele foi falando tudo sem se importar. Daí entramos no avião, ele era ministro do Planejamento. Eu falei: "ministro, posso fazer uma observação? O senhor nunca faça o q acabou de fazer agora. Quando fala alguma coisa importante, não fala correndo no aeroporto pra pegar um avião pra um repórter de setor, que é quebra galho. Coisas que o senhor falou, o senhor confere, pergunta se tem alguma dúvida". E ele gostou da minha observação, e aí quando foi nomeado embaixador me convidou pra ir para Londres, mas não como funcionário do Itamaraty, como contratado local. E mesmo assim eu escrevia pro jornal com pseudônimo de Altino Tavares, o Julio Neto que inventou, por causa do meu tamanho, Altino Tavares. De Londres o Campos e eu dávamos paulada na política econômica.

IMPRENSA - O jornalismo era mais romântico antigamente?
Tamer -
Era só romântico. Eu deixei meus salários nos lugares que trabalhei. A rádio Excelsior pagava, a Nacional não pagava, deixei metade do meu salário lá. O Tempo era honesto, mas não tinha dinheiro, estava quebrando, pagava de vez em quando, pagava com vale. O Última Hora não pagou, deixei tudo no Última Hora , a gente fazia porque gostava, tinha paixão por aquilo. Era um jornalismo gostoso mas sofrido, passei muita fome. Na rádio Nacional eu fui despedido por justa causa. Éramos quatro na redação, todos passávamos fome, não tinha dinheiro para comer e não davam vale. Um deles todo dia na hora do almoço tomava uma pílula para perder o apetite pra fazer regime, e nós tomávamos para não ter fome.

IMPRENSA - Como o senhor acha que a internet mudou o jornalismo? Antes as informações demoravam muito pra chegar, hoje é tudo instantâneo.
Tamer -
A internet veio um pouco atrasada para nós jornalistas, porque nós sofremos durante muito tempo. Houve uma fase grande entre telex e internet, eu usei em Londres uma das primeiras máquinas de internet que o Estado tinha contrato com a Reuters. Ficava até 1h30 esperando a pilha de documentos serem passados. E aí uma hora ofereceram pra gente um aparelho enorme, você discava, botava o telefone em cima, e passava pra Reuters diretamente, e a Reuters passava. Foi a primeira internet, ela veio um pouquinho atrasada, mas veio num momento que o Brasil começava a ter mais economia, indústria, se ligando ao mercado mundial. Mas tem um problema com a internet: impede você ainda hoje, eu trabalho todos os dias, já percorri o mundo todo, China, Rússia, tem um problema que você perde o conato com a fonte.

IMPRENSA - Os jornalistas estão mais preguiçosos?
Tamer -
Não, porque pela internet você sai com uma ou duas pautas. Antigamente, você tinha o contato com a fonte, você ia entrevistar um sujeito que não conhecia, ele se engraçava com você e virava fonte. Hoje está mais difícil conseguir uma fonte. A gente fica prejudicado, porque tem algumas informações que o repórter saca quando vê, você diz uma coisa, mas com os olhos quer dizer outra coisa. O melhor da internet pra mim é o fato de você estar ligado ao mundo, 10h da manhã eu vou pra China, vou pra Rússia, hoje de noite estou lendo o Estadão de amanhã. Eu nem me preocupo, por exemplo, se nesse momento está tendo uma reunião do FED. Tranqüilo, quando chegar na minha casa vou abrir o computador e vou ter tudo que os jornais vão dar, tenho nesse momento trinta jornalistas cobrindo a reunião pra mim. E mais difícil você ser furado. Acabou essa coisa do contato pessoal.

IMPRENSA - O senhor gosta mais de ser colunista ou repórter?
Tamer -
Só repórter. Se eu pudesse voltar faria tudo igualzinho o que eu fiz, mas preferiria não ser editorialista. Fiz grandes reportagens na Amazônia, fui o primeiro jornalista de São Paulo a ser mandado pra Amazônia, fui o primeiro a contratar uma mulher pra redação, em 68. Escrevi uma série de reportagens sobre a Transamazônica. Eu era repórter especial. Mas um dia o Julio Neto me pediu pra escrever um editorial. Eu sai pra cumprir uma pauta e esqueci. Quando voltei ele me cobrou, eu disse que tinha esquecido. Daí eu falei: "eu faço agora". Saí da sala dele, tinha uma máquina, e em dez minutos voltei com o editorial. Daí passaram dez, quinze minutos, eu voltei lá, e ele disse que estava muito bom, ia publicar. Ele descobriu que tinha um jornalista que podia fazer um editorial em dez minutos, enquanto quem estava lá para fazer levava a tarde inteira. Eu virei editorialista e com isso desapareci um pouco, deixei um pouco de ser o repórter que eu queria ser. Ainda sonho em voltar pra Amazônia pra completar a reportagem que eu fiz.