Agenda de contatos ainda é fundamental na rotina de jornalistas

Guarda nomes, números e e-mails. Eventualmente um endereço, cargos e algumas anotações. Considerada uma das ferramentas mais poderosas dos jornalistas, a agenda de contatos foi tema de uma matéria publicada em novembro de 1987 pela revista IMPRENSA, que convidou alguns jornalistas para apresentar suas agendas e compartilhar as dificuldades em construir uma rede de contatos numa época em que celulares eram realidade apenas no desenho animado dos Jetsons.

Atualizado em 03/12/2012 às 10:12, por Camilla Demario.



Alexandre Garcia Alexandre Garcia, comentarista de política na TV Globo, usava na época uma agenda da Air France, que passava a limpo a cada começo de ano, com os números mais importantes guardados a sete chaves. “Valem ouro na hora de fechar meu comentário no jornal”, disse à revista quando ainda era editor de jornalismo da extinta TV Manchete.
Ricardo Noblat, descrito pela matéria como “metódico e organizado”, usava uma “agenda comprada em Paris, preenchida com lápis igualmente francês”. Hoje, diverte-se. “Imagina o que devem ter dito na época! A minha agenda era francesa só porque eu tinha ido à França. Não foi de propósito.” Ciumento, codificava seus contatos mais importantes e confessa que na época não gostava de dividir suas fontes com os colegas. “Dava o telefone, mas era com muita má vontade.”

O conteúdo da agenda era tão valorizado no jornalismo, que alguns repórteres chegavam a trapacear. “Tinha gente malandra que anotava um contato na agenda para, no caso de o chefe ver, achar que ele tinha o acesso”, conta Noblat. E confessa: “Uma vez eu contratei um repórter porque ele era o único em Brasília que tinha o número do general Otávio Medeiros [chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI)]”.
Memórias
Walace Lara, repórter da TV Globo, conta que, a cada mudança de cidade, fica mais difícil montar uma agenda de forma rápida. “Comecei em Poços de Caldas (MG), na época do telex. Na faculdade, montei outra com números de Alfenas. Tenho agendas guardadas de Fortaleza, São Luís e São Paulo. Acho que desde o começo vi que sem a agenda eu estava perdido.”
Alexandre Garcia também guarda até hoje a sua primeira agenda: “Comecei, metodicamente, em 2 de maio de 1971, no meu primeiro dia de Jornal do Brasil , ao receber os números de telefones úteis do chefe de redação da sucursal de Porto Alegre, da área política, e juntei com os que obtinha da área econômica. Ainda eram telefones de seis algarismos...”, lembra.
A primeira agenda de Noblat nasceu com seu primeiro emprego, como contínuo da sucursal do Jornal do Brasil, em Recife. “Foi por nepotismo, porque o chefe de redação era noivo de minha prima, mas contínuo não fazia nada: às vezes eu servia uma água, um café. Só que três meses depois teve um repórter lá que desistiu da profissão, disse que o negócio dele era cantar. Esse repórter era o Alceu Valença, e assumi o lugar dele.”

Ricardo Noblat Password
Guilherme Samora, editor-assistente da revista Quem , nunca perdeu uma agenda – e tem arrepios só de pensar nisso. Mesmo assim, por precaução, prefere gravar os nomes de personalidades com apelidos, para o caso de o contato ir parar em mãos indevidas. “Algumas pessoas muito conhecidas estão sempre com apelidos, que acabo inventando especialmente para as agendas. O método é bom, mas devo dizer que já me confundi uma vez ou outra!”, conta.

Garcia conta que não teve a mesma sorte. “Perdi uma agenda eletrônica lá pelos anos 1980. Havia tirado a agenda do bolso para gravar na frente do anexo do Senado, e, como saí com pressa, a agenda ficou. Foi uma tragédia. Alguns números ficaram perdidos para sempre”, lamenta.
Já Lara não só foi roubado, como tentou ainda negociar com o ladrão. “Fiquei tão desesperado que liguei para o meu número furtado e tentei negociar. O ladrão dizia: mas o senhor quer o aparelho de volta. E eu dizia para ele: não precisa devolver o celular, deixa só eu copiar os números que estão nele [risos]. Lógico que não deu certo.”
Menos é mais
Breno Baldrati, editor de Tecnologia da Gazeta do Povo , há cinco anos só usa agenda virtual, sincronizada entre Outlook e Gmail. “Se a de papel molhar, o cachorro morder, sabe Deus lá o que acontecer, você vai perder tudo.” E aproveita para indicar o site Evernote, que também funciona em plataformas móveis. “Dá pra fazer anotações, guardar links, textos, fotos. Para cada matéria eu abro um arquivo e junto tudo o que encontro. É ótimo para achar aquilo que você viu, mas não lembra onde.”
Mesmo preferindo a agenda de papel, Samora afirma que usa mais no dia a dia a digital. “No computador tenho um arquivo mais completo, com e-mails e até endereços, e na agenda do celular guardo meus contatos mais próximos e importantes. Com o passar dos anos, o papel vira uma pilha difícil de administrar.”Para Lara, o importante é criar uma fórmula de identificar as fontes sem correr o risco de se confundir. “Isso já aconteceu comigo. Liguei para um médico achando que ele era diretor de um determinado hospital, quando, na realidade, ele trabalhava em outro. Acontece, mas é desagradável”, conta.
Futuro
Digitais ou não, virtuais ou escritas à mão, com direito a rabiscos e marcas do tempo, a agenda continua sendo considerada pelos jornalistas um trunfo pessoal na hora de contar uma boa história. “Eu acho que essa é uma das coisas imutáveis do jornalismo, porque o jornalista não testemunha a maioria das coisas que escreve, alguém tem de contar pra ele. Então você tem sempre de ter uma boa quantidade de fontes: quanto mais, melhor”, define Noblat.