Adotar o cargo de ombudsman ainda é um desafio para jornais em todo mundo
A espessa parede que um dia dividiu os meios de comunicação de seus leitores caiu. A máquina de demolição tem nome: redes sociais. Com elas,as críticas chegam instantaneamente, já que o público tem acesso direto aos veículos.
Atualizado em 13/12/2013 às 17:12, por
Edson Caldas*.
Diante deste cenário, há quem defenda o fim da necessidade de um ombudsman, o jornalista designado a avaliar o jornal e atender o leitor — ou, como a tradução do sueco definiria, "aquele que representa".
Crédito:Reprodução/Divulgação Ombusmen relatam as dificuldades de executar o papel
Atualmente, apenas dois jornais brasileiros possuem o cargo. A Folha de S.Paulo , primeiro a criar a função no país, em 1989, e O Povo , de Fortaleza, que adotou a função a partir de 1994.
A entidade internacional Organization of News Ombudsmen, por sua vez, registra um movimento inverso do outro lado do Atlântico. Kirk LaPointe, CEO do grupo, informa que os membros só aumentam na Europa. “Ainda assim, temos tido algumas perdas nos Estados Unidos”, aponta o executivo. De acordo com ele, a mais notável é a do Washington Post .
No início de março, o diário norte-americano confirmou o fim do posto na publicação, mantido por 43 anos. “Acho que é um caminho terrível para o jornalismo”, enfatiza Patrick Pexton, último ombudsman do periódico, em entrevista à IMPRENSA. “Os editores se perguntam, ‘por que deveríamos ter um ombudsman pago para criticar o jornal, quando temos milhões de leitores fazendo isso de graça?’”
Pexton ocupou a função durante dois anos e diz discordar da posição de tais chefes. “O ombudsman está na redação todos os dias”, explica. “Os ombudsmen normalmente têm décadas de experiência como repórteres e editores, têm riqueza de experiência para julgar os erros (e sucessos).”
O profissional ainda tem como função garantir o alto padrão na cobertura jornalística, além de fortalecer a imagem do periódico. Afinal, muitas vezes, a única coisa que o leitor quer é ser ouvido. Pexton se recorda de já ter salvo muitas assinaturas, simplesmente por ter dado um retorno ao leitor, ter respondido um e-mail. Na época, ele contava com um assistente que o ajudava a lidar com as mais de 200 mensagens que recebia diariamente.
Lidar com o volume de material recebido é, justamente, o maior desafio da função para Margaret Sullivan, atual ombudsman do New York Times . “É difícil decidir quais reclamações ou problemas abordar”, explica. “É também um desafio criticar jornalistas em uma instituição de tanto valor, especialmente porque sou quase colega deles.”
Para ela, o ombudsman faz com que o público se sinta representado e é capaz de articular questões mais amplas, que envolvem liberdade de imprensa e de expressão. “Isso vai ser perdido”, diz, referindo-se a veículos que abandonam o cargo.
Ser criticado
Ouvir observações sobre uma reportagem e ter de admitir possíveis falhas não é a tarefa mais fácil. Suzana Singer, que está em seu terceiro mandato como ombudsman da Folha de S.Paulo , defende que, quando o cargo é criado e jornal o leva a sério, está se comprometendo a responder as críticas que chegam. “O veículo precisa dar satisfação e isso é uma coisa que jornalista não gosta. E dá trabalho”, frisou em entrevista à IMPRENSA, em maio deste ano.
Pexton lembra que, no Post , uma repórter chegou apelar a autoridades cada vez mais altas no jornal para conseguir que algo que ele havia escrito fosse alterado. “Entretanto, ela perdeu e ainda feriu sua reputação no caminho.”
Erivaldo Carvalho, ombudsman do jornal O Povo , atribui a resistência de meios de comunicação brasileiros em adotar a função ao que ele chama de discurso autorreferente. “O jornalista pertence a uma empresa que, tradicionalmente, enxerga-se como a ‘palmatória do mundo’. Ou seja, nós, jornalistas, somos especializados em erros alheios.”
“Adoramos dizer que o governo está errado, que a artista fez um péssimo show, que a prefeitura está acabando com a cidade. Estamos introduzidos em um universo em que nos permitimos ver erros em todos os cantos do mundo, mas só do batente do jornal para fora”, avalia Carvalho. “Cada jornalista tem dentro de si uma resistência.”
Crédito:Reprodução/Divulgação Ombusmen relatam as dificuldades de executar o papel
Atualmente, apenas dois jornais brasileiros possuem o cargo. A Folha de S.Paulo , primeiro a criar a função no país, em 1989, e O Povo , de Fortaleza, que adotou a função a partir de 1994.
A entidade internacional Organization of News Ombudsmen, por sua vez, registra um movimento inverso do outro lado do Atlântico. Kirk LaPointe, CEO do grupo, informa que os membros só aumentam na Europa. “Ainda assim, temos tido algumas perdas nos Estados Unidos”, aponta o executivo. De acordo com ele, a mais notável é a do Washington Post .
No início de março, o diário norte-americano confirmou o fim do posto na publicação, mantido por 43 anos. “Acho que é um caminho terrível para o jornalismo”, enfatiza Patrick Pexton, último ombudsman do periódico, em entrevista à IMPRENSA. “Os editores se perguntam, ‘por que deveríamos ter um ombudsman pago para criticar o jornal, quando temos milhões de leitores fazendo isso de graça?’”
Pexton ocupou a função durante dois anos e diz discordar da posição de tais chefes. “O ombudsman está na redação todos os dias”, explica. “Os ombudsmen normalmente têm décadas de experiência como repórteres e editores, têm riqueza de experiência para julgar os erros (e sucessos).”
O profissional ainda tem como função garantir o alto padrão na cobertura jornalística, além de fortalecer a imagem do periódico. Afinal, muitas vezes, a única coisa que o leitor quer é ser ouvido. Pexton se recorda de já ter salvo muitas assinaturas, simplesmente por ter dado um retorno ao leitor, ter respondido um e-mail. Na época, ele contava com um assistente que o ajudava a lidar com as mais de 200 mensagens que recebia diariamente.
Lidar com o volume de material recebido é, justamente, o maior desafio da função para Margaret Sullivan, atual ombudsman do New York Times . “É difícil decidir quais reclamações ou problemas abordar”, explica. “É também um desafio criticar jornalistas em uma instituição de tanto valor, especialmente porque sou quase colega deles.”
Para ela, o ombudsman faz com que o público se sinta representado e é capaz de articular questões mais amplas, que envolvem liberdade de imprensa e de expressão. “Isso vai ser perdido”, diz, referindo-se a veículos que abandonam o cargo.
Ser criticado
Ouvir observações sobre uma reportagem e ter de admitir possíveis falhas não é a tarefa mais fácil. Suzana Singer, que está em seu terceiro mandato como ombudsman da Folha de S.Paulo , defende que, quando o cargo é criado e jornal o leva a sério, está se comprometendo a responder as críticas que chegam. “O veículo precisa dar satisfação e isso é uma coisa que jornalista não gosta. E dá trabalho”, frisou em entrevista à IMPRENSA, em maio deste ano.
Pexton lembra que, no Post , uma repórter chegou apelar a autoridades cada vez mais altas no jornal para conseguir que algo que ele havia escrito fosse alterado. “Entretanto, ela perdeu e ainda feriu sua reputação no caminho.”
Erivaldo Carvalho, ombudsman do jornal O Povo , atribui a resistência de meios de comunicação brasileiros em adotar a função ao que ele chama de discurso autorreferente. “O jornalista pertence a uma empresa que, tradicionalmente, enxerga-se como a ‘palmatória do mundo’. Ou seja, nós, jornalistas, somos especializados em erros alheios.”
“Adoramos dizer que o governo está errado, que a artista fez um péssimo show, que a prefeitura está acabando com a cidade. Estamos introduzidos em um universo em que nos permitimos ver erros em todos os cantos do mundo, mas só do batente do jornal para fora”, avalia Carvalho. “Cada jornalista tem dentro de si uma resistência.”





