Adeus às armas, por Gabriel Priolli
No momento em que escrevo, ainda não sei quem ganhou a eleição. Mas sei que ela ou ele, todos nós e cada qual perderemos bem mais que um ple
É normal que as paixões se exacerbem numa disputa renhida como esta, mas é inaceitável que cheguem ao ponto de ameaçar a convivência civilizada com o barbarismo da violência política. Se chegamos a isso, se há gente em toda parte agredida e constrangida por sua opção de voto, vamos ser bem claros: a mídia tem responsabilidade direta nisso.
Seja a tradicional, industrial-corporativa, seja a nova, artesanal-militante. Nos excessos progressivos que vêm cometendo por estímulo mútuo, desde o início do período petista no governo federal, ambas contribuem para o destempero de linguagem, o sectarismo de argumentos e a beligerância desenfreada, que castigam a frágil democracia brasileira. Vivemos, na plenitude, os efeitos perversos da partidarização da imprensa e sua incapacidade, ou mesmo desinteresse, de arbitrar minimamente o embate político, com o aporte de alguma razão à passionalidade geral.
O cidadão tem a opinião formada por jornais, revistas, rádios e televisões que desistiram, há muito, de praticar o dever mínimo de apresentar o “outro lado” dos fatos. Quando, por divergência ideológica, os engulhos o impedem de conectar-se com essas fontes informativas monocórdias e monotemáticas, refugia-se no mundo dos blogs e das redes sociais. E então encontra a contrafacção de seu incômodo, para desopilar. O unilateralismo com sinal trocado, a mesma disposição em sacrificar a leitura equilibrada da realidade em favor do denuncismo e do proselitismo.
Se o oponente político não é tão somente o diferente, o diverso, o dessemelhante, com o qual dialogamos em busca dos consensos possíveis e com o qual disputamos o dissenso no voto, civilizadamente, em paz, então esse oponente é convertido em inimigo. Com quem não se conversa e a quem se procura destruir, nas urnas ou como for, porque luta de extermínio não tem prazo nem campo para se travar.
A radicalização política é uma decorrência inevitável de um processo de inclusão social de proporções inéditas no País, que deslocou as posições de classe na pirâmide social e abalou valores, direitos e ideias há séculos cristalizados. Os recém-chegados ocupam espaços e pedem outros, sempre mais, e os incomodados não podem se retirar. Até que se acomode uma nova ordem social, atritos serão inevitáveis. Mas o processo será menos doloroso se a mídia onde todos se informam depuser armas e fomentar conversações de paz.
foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV.
gpriolli@ig.com.br.





