Acredite se quiser!

Acredite se quiser!

Atualizado em 19/08/2009 às 09:08, por Silvia Dutra.

Quem lê minhas colunas aqui já deve ter percebido que eu tenho uma queda por coisas estranhas, pouco comuns. As notícias sobre política e economia me dão tédio. Quando leio jornais do Brasil, sinto também nojo e acabo confusa entre tantos nomes e histórias de falcatruas e corrupções que se embaralham, nos escândalos que se sucedem. Portanto admito, sem qualquer vergonha, que procuro nos jornais e revistas coisas que me divirtam, que tornem meu dia mais leve e que alimentem minha insaciável curiosidade pelas estranhezas desse mundo.

Por sorte vim parar num país onde, ao que parece, muita gente compartilha do mesmo gosto que eu tenho pelo bizarro. E descobri que um jornalista fez toda sua carreira (além de fama e fortuna) só escrevendo sobre curiosidades, estranhezas, exageros, exorbitâncias e coisas dessa natureza.

Trata-se de Robert Le Roy Ripley, que nasceu na California em 1893 e, aos 14 anos, vendeu seu primeiro desenho de humor para a revista Life, por US$ 8. Com 15 anos, conseguiu seu primeiro emprego na imprensa, no San Francisco Bulletin e, logo depois, foi contratado pelo San Francisco Chronicle para fazer desenhos e ilustrações. Anos depois, vivendo em New York e trabalhando para o jornal "The Globe", teve a idéia de criar uma coluna de fatos curiosos sobre Esportes em geral. Deu à coluna o título "Believe it or not" (Acredite se quiser). Para sua surpresa, a reação dos leitores foi entusiasmada e os editores o incentivaram a prosseguir na mesma linha, mas ampliar o alcance para outros temas e não apenas o mundo dos esportes.

Ripley começou então a escrever e desenhar sobre fatos bizarros acontecidos nos States e no resto do mundo e não demorou muito para sua coluna ser republicada em centenas de jornais americanos. Lembrem-se que naquela época não existia Internet, nem Google, e encontrar material para manter vivo o interesse dos leitores devia ser um trabalho muito complicado.

Em 1929, a Bolsa de Valores de New York quebrou. Os Estados Unidos e o mundo mergulharam numa depressão econômica pavorosa, mas Ripley tinha acabado de ser contratado pelo magnata da imprensa americana, William Randolph Hearst, e ganhava naquela época a absurda quantia de meio milhão de dólares anuais.

Rico, famoso, contratou dúzias de assistentes e começou a viajar pelo mundo, procurando fatos curiosos, bizarros, estranhos, para alimentar sua coluna. Tornou-se um viajante compulsivo e conheceu 201 países, se aventurando por remotas áreas do mundo, especialmente Índia e China, e visitando pessoas e culturas que a maioria dos americanos sequer sabiam que existiam.

Durante essas viagens, ele foi colecionando souvernirs dos diferentes locais visitados e reunindo histórias, fatos e hábitos curiosos que mais tarde se tornaram o material para seus 74 museus de estranhezas que existem até hoje em todo os Estados Unidos e em mais 13 países.

O material atrai milhões de visitantes por ano. Eu mesma já visitei dois: o de San Francisco, na California, e o de Saint Augustine, na Flórida. E em ambos me diverti bastante. Lembro que o de San Francisco tem uma janela pequena, como se fosse aquelas redondinhas, de navios, bem no meio de uma parede. É claro que ninguém consegue passar por ali sem querer ver o que tem atrás daquele vidro.

Eu também fui olhar. E o que vi me fez rir: numa tela de televisão, o meu próprio traseiro sendo mostrado por uma câmera em outras partes do museu, para gente que ficava se divertindo observando qual seria a reação dos que passassem por aquela janela perdida no meio daquela parede, num dos corredores do museu. Mais a frente foi a vez de eu também observar e rir com a curiosidade de outras pessoas caindo na mesma brincadeira que eu.

Mas sobre o que Ripley escrevia, desenhava ou fotografava, vocês devem estar se perguntando? Sobre fatos estranhos e curiosos, como gente que tivesse nascido com a língua bipartida, feito um lagarto. Ou com dois pares de pupilas em cada olho. Gente capaz de esculpir um dragão num grão de arroz, gente com talentos, aleijões, manias, que tivessem sido vítimas ou protagonistas de fatos inusitados. Xipófagos, casamentos contraídos por pares de gêmeos idênticos, coincidências estranhas, premonições confirmadas por fatos, gente tatuada dos pés à cabeça, aquelas mulheres orientais que colocam argolas para alongar o pescoço, rituais religiosos diferentes dos praticados pelos americanos, enfim, tudo e qualquer coisa que fugisse ao que era considerado "normal, civilizado".

O próprio Robert Ripley era uma figura excêntrica, que usava ternos em cores extravagantes, tinha como animal de estimação uma jibóia, abusava de bebidas alcoólicas e era um mulherengo notório, tendo vivido com cinco ou mais namoradas sob o mesmo teto todas ao mesmo tempo. Era um homem extremamente flexível, de mente aberta às variedades de pensamento e estilo de vida de seus semelhantes, que admitia que o homem sempre foi a coisa mais estranha que ele encontrou em todos as centenas de países que visitou.

O que eu acho ainda mais interessante na história dessa figura do Jornalismo americano é que ele fez tudo isso numa época em que nem os transportes, nem os meios de comunicação eram tão eficientes quanto são hoje. E ao longo de sua vida foi adaptando a carreira às mudanças tecnológicas que iam surgindo.

Manteve as colunas nos jornais, mas se aventurou por outras mídias. Teve programas em rádio, shows na televisão, abriu museus para compartilhar com os outros sua enorme coleção de objetos, fotos, miniaturas e souvenirs interessantes e, até hoje, seus desenhos são publicados em 200 jornais ao redor do mundo, em 42 países e em 17 idiomas. Há também livros com os fatos mais estranhos coletados e até jogos infantis baseados em suas aventuras.

Aos 58 anos de idade, Ripley morreu durante a gravação do décimo terceiro programa de sua série de shows para a televisão, num episódio exclusivo sobre como diferentes culturas e povos lidam com a morte e rituais fúnebres. Ele desmaiou durante a gravação, foi levado ao hospital e logo depois declarado morto. Num parece história inventada por Gabriel Garcia Marquez? Mas é a pura verdade.