"Acho fundamental associar a figura do âncora com a de alguém que opina", diz Boechat

Em entrevista ao UOL, o jornalista Ricardo Boechat, que completa 62 anos no próximo dia 13, defendeu o posicionamento de apresentadores em telejornais, questionou o novo formato do "Jornal Nacional" e falou sobre a possibilidade de se aposentar.

Atualizado em 08/07/2015 às 10:07, por Redação Portal IMPRENSA.

jornalista , que completa 62 anos no próximo dia 13 de julho, defendeu o posicionamento de apresentadores em telejornais, questionou o novo formato do "Jornal Nacional" e falou sobre a possibilidade de se aposentar.
Crédito:Reprodução Jornalista criticou formato antiquado dos telejornais no Brasil
"Acho fundamental associar a figura do âncora com a de alguém que opina. Porque, caso contrário, você tem um leitor de textos. Eu aprendi a ler com quatro anos, não é por isso que estou sentado naquela bancada. Tenho a impressão de que teríamos um telejornalismo mais atraente e que prestaria um serviço melhor à população se os seus apresentadores analisassem as notícias, se posicionassem diante dos fatos, diferentemente do que acontece no Brasil", disse.
Boechat, que está há dez anos na rádio BandNewsFM e no "Jornal da Band", disse que os telejornais ainda seguem a mesma linha de apresentação desde a década de 1960. Ele destaca que a mudança vai além de colocar o apresentador para percorrer o estúdio, referindo-se ao novo modelo do "JN".
"Aqui, quando se fala em inovar um modelo de telejornal, faz com que o âncora se levante da cadeira. Desculpe, mas esse movimento básico eu também aprendi quando criança. Nem âncoras merecem ser chamados, pois não estão ancorando nada, não estão exercitando a opinião, não estão correndo risco", declarou.
"Com a quantidade de fatos surpreendentes que produzem, você fique ali lendo a cabeça da matéria e passando para seguinte com o mesmo procedimento e, no fim, emposta a voz e dá 'boa noite'? Uma voz empostada, um locutor de supermercado precisa ter. Me parece que há um pouco mais de responsabilidade e demanda, diante da função que exerço e procuro fazer isso me posicionando, interpretando os fatos de acordo com as minhas convicções e ponto de vista", completou.
No mês passado, Boechat e o pastor Silas Malafaia se envolveram em uma polêmica. O jornalista teria sido criticado por "afirmar que pastores evangélicos incitam a intolerância religiosa". O caso começou após o líder evangélico utilizar seu perfil no Twitter para desafiar o jornalista para um debate.
Em seu programa, o jornalista respondeu e ressaltou a pregação de intolerância por parte de igrejas neopentecostais. "O Silas Malafaia me desafiou para um debate. Ô Malafaia, vá procurar uma r***. Não me enche o saco. Você é um idiota. Um paspalhão. Pilantra. Tomador de grana de fiel. Explorador da fé alheia. E agora vai querer me processar pelas coisas que eu falei. Você é um tomador de grana. De novo, vá procurar uma r***, usando o português bem claro", comentou.
Mais tarde, o pastor fez um vídeo comentando a resposta do jornalista no qual afirmou que irá processá-lo por difamação. Ele ainda voltou a desafiá-lo para um debate. "O jornalista Boechat fez uma acusação generalizada em seu programa. Ele, em seu programa, perdeu a linha, me xingou, me difamou. Eu vou dar uma oportunidade a ele na justiça pra ele provar aquilo que ele disse de mim. O povo vai saber quem é você, Boechat. Tá desafiado pra um debate. Eu vou te engolir, porque você não tem argumento".
Boaechat afirmou que apenas ouviu na Band que pegou "pesado"."Não sei se o pastor Malafaia ligou para o Johnny Saad (dono da TV Bandeirantes), certamente se ligou deve ter sido atendido porque eles se conhecem. Mas a mim não chegou nenhum reflexo [da possível conversa]", explicou.
O âncora também passou a investir nas redes sociais. A ideia foi da mulher, a também jornalista Veruska Seibel. O objetivo é ampliar o diálogo com o público e não ficar apenas no rádio ou na TV. Ele avalia que a internet expõe ainda mais seu lado humano.
Para Veruska, o marido, às vezes, exagera nos palavrões, "Tenho avisado que está demais", disse. Boechat explica que suas emoções estão mais afloradas, além de não enxergar o palavrão como uma ofensa, mas sim como um recurso de linguagem "absolutamente crítico".
Com 45 anos de profissão, Boechat disse que deseja se aposentar daqui uns três anos. Mas ressalta que a burocracia em reunir os papéis necessários pode dificultar o processo. "Tenho tempo para me aposentar, mas isso envolve ir ao INSS, levantar papéis, essas coisas que não tem nada a ver com a minha natureza... Ainda tenho a oportunidade de continuar trabalhando, o que me dá muito prazer".