Academia e pesquisa

Academia e pesquisa

Atualizado em 23/03/2010 às 17:03, por Igor Ribeiro e  editor-executivo da revista IMPRENSA*.

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Revista IMPRENSA - Sua noção mais política e social veio após o "Notícias de uma guerra particular", quando você foi trabalhar com o Luiz Eduardo Soares.

Rodrigo Pimentel - Sim, ele era subsecretario de direitos humanos, da cidadania e da justiça durante o governo do Garotinho, estava dentro de um emblema. O Garotinho levava o Luiz a algumas reuniões da Secretaria de Segurança Pública e levava em outras o coordenador setorial de segurança pública, era uma confusão. Na verdade o que o Luiz queria - até hoje um grande amigo meu - era modernizar a polícia do Rio de Janeiro e colocar uma nova cultura na polícia, mas a resistência que ele enfrentava era muito grande.
Setores da corporação não aceitavam. Muita gente gosta muito do Luiz Eduardo, até hoje eu converso com alguns delegados que dizem que o Luiz Eduardo modernizou isso aqui, criou a delegacia legal, colocou todas as delegacias em rede... Hoje o delegado não pode mais rasgar o RO (registro de ocorrência), você faz um RO e fica arquivado em um servidor, é transparente. A porta da delegacia legal é um blindex para que as pessoas vejam o que esta acontecendo lá dentro, não tem carceragem, pois Luiz entendia que delegacia não é lugar de tomar conta de preso. Então tem delegado que acha que ele foi o grande transformador da Polícia Civil, mas tem setores conservadores que não aceitam nenhum tipo de mudança, ainda mais se ela vier de alguém de fora da corporação: "O quê? Esse cara é pesquisador antropólogo, sociólogo? Tá louco! Vai pra academia, pra universidade, mas aqui não é seu lugar!" Então o Luiz arrumou muita confusão, sim. Ele denunciou a banda podre, arrumou inimigos na Civil, teve que sair do Rio, foi para nova York...

IMPRENSA - Nesse momento que você voltou para a Polícia Militar?

Pimentel - Sim. Tinha saído do Bope, mas foram dias tão proveitosos os que eu passei lá que eu entendi a importância de um pesquisador na segurança pública. Antes eu achava um absurdo ter pesquisadores dentro de uma secretaria de segurança pública, achava mesmo. Também tinha questões preconceituosas em relação às pessoas do mundo acadêmico. Mas hoje você só faz segurança pública se você tiver dados, e se esses dados forem analisados. Você não faz segurança pública sem saber o que está acontecendo, e era isso o que o Luiz Eduardo queria fazer. É esse o papel do antropólogo e do sociólogo hoje: pegar os dados, olhar, estudar, se debruçar e a partir daí planejar a política de segurança pública. Se você não tiver dados, não tabular, esquece, porque ai você não tem segurança pública. Antes, no Rio de Janeiro, não se tinha nada: não sabia quais ruas tinham mais crimes, os dias da semana com mais delitos. Acho que essa é a contribuição do mundo acadêmico para todas as polícias do mundo. O Viva Rio tem muita pesquisa na área de segurança pública, não é o foco deles, mas tem. Toda vez que eu quero um dado de armas de fogo no Rio de Janeiro, eu vou no Viva Rio porque os dados são mais precisos - eles literalmente invadiram o deposito de armas da Polícia Civil e contou arma por arma, porque a polícia não tinha nem tempo nem vocação pra fazer isso.

IMPRENSA - Esse tabulamento acaba ajudando inclusive a processar informação para a mídia, não?

Pimentel - Claro! Por exemplo, o especialista fala na TV que a culpa [da violência] no rio é do AR-15. Aí pegamos a pesquisa e comprovamos como aquilo que está sendo falado é sensacionalista. A imprensa no Rio tem o tesão de falar em armas anti-aéreas, mas ai você vai lá, busca a definição de arma anti-aérea, cruza com os dados do Viva Rio e vê quantas armas assim foram apreendidas no Rio de Janeiro: nenhuma, e continua a imprensa falando nisso. "Mas a polícia do Rio hoje tem 6 mil fuzis e 40 mil pistolas. Numa ação eventual em uma rua tal às duas da manhã pode acontecer de a viatura dar de cara com o traficante e o traficante estar com algum fuzil..." Isso acontece, mas no contingente geral, as armas da polícia são mais novas e com mais manutenção, são mais precisas, mais modernas... Falamos tanto nisso! Mas são mentiras que você vai desconstruindo aos poucos.

IMPRENSA - Sua convivência com o Luiz Eduardo ajudou então em todo esse trabalho.

Pimentel - Luiz Eduardo apresentou o mundo acadêmico pra mim, eu estudava administração e depois fiz uma prova para uma pós em sociologia. Acho que de policial só havia eu, todos os candidatos eram de áreas bem humanas, história, geografia, antropologia... Me formei em administração, fui fazer a pós, o Luiz dava aula na UERJ e foi assim pelo menos uns quatro meses, estudando. Isso foi em 2000 ou 2001, é recente. Depois disso outros polícias fizeram e eu não vou dizer que fui o primeiro policial a fazer sociologia no Rio de Janeiro não, tinha o capitão Bitencourt, por exemplo. Mas ajudei um pouco a entusiasmar outros oficiais... Aí depois a PM encomendou à Universidade Federal Fluminense um curso de polícia com ênfase na área de pesquisa que funciona até hoje. Então aos poucos a mentalidade está mudando. Hoje você já tem coronel da PM falando em análise de dados, em pesquisa de otimização...