ABI - Ribeirão Preto presta homenagem a Herzog

ABI - Ribeirão Preto presta homenagem a Herzog

Atualizado em 17/11/2005 às 09:11, por .

Em expediente enviado à ABI, endereçado ao Presidente Maurício Azêdo, a Câmara Municipal de Ribeirão Preto encaminhou cópia da proposta do Vereador Beto Cangussu, aprovada em sessão realizada em 25 de outubro, na qual o parlamentar pede que seja incluída nos ata da sessão a moção em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto há 30 anos por agentes da ditadura militar no DOI-Codi de São Paulo.

A seguir, a íntegra do texto da proposta:

"Senhor Presidente,

Há exatamente 30 anos, Vlado, como era conhecido Vladimir Herzog, jornalista e Diretor do Departamento de Jornalismo da TV Cultura, era assassinado brutal e cruelmente pelos chacais da ditadura militar nas dependências do DOI-Codi.

Sua morte foi um divisor de águas na história do Brasil. Em 1975, as arbitrariedades contra jornalistas estavam se tornando cada vez mais comuns e a categoria cada vez mais revoltada com as práticas desumanas a que se via sujeita. Somente na semana da morte de Vlado, outros 11 jornalistas, em pleno exercício de suas profissões, foram presos. O clima de desespero e indignação era freqüente nas redações. Vlado, um fiel admirador dos grandes nomes da esquerda, praticava pequenos favores para o Partido Comunista, do qual tinha se aproximado em 1972, quando trabalhava na revista Visão. Nos autos governamentais, particularmente do Serviço Nacional de Informação, seu nome figurava como um espião da KGB, cargo que Vlado nunca ocupou.

Dois dias após sua morte, o corpo de Vlado foi velado. O laudo da perícia técnica da polícia apontava como causa da morte asfixia mecânica, termo técnico para designar suicídio. Sua esposa Clarice tentou de todas as formas acompanhar a necropsia, mas foi impedida por oficiais do DOI-Codi. No velório de Vlado e em seu enterro, no cemitério judaico do Butantã, amigos, jornalistas e estudantes se reuniram em um protesto silencioso. O rabino Henry Sobel, que não reconheceu o laudo oficial, conduziu a cerimônia e Vlado foi enterrado normalmente - os suicidas judeus são enterrados fora dos cemitérios.

Alguns jornalistas que estavam presos com Vlado foram liberados para acompanhar o enterro. Konder, último amigo a vê-lo com vida, em seu depoimento declarou: '(...) ouvimos quando o interrogador pediu que lhe trouxessem a pimentinha (apelido da máquina de choques elétricos que era usada pelos torturadores) e solicitou ajuda a uma equipe de torturadores. Alguém ligou o rádio e os gritos de Vladimir confundiam-se com os sons do rádio.'

Após a morte de Vlado, um processo criminal foi movido pelos advogados Heleno Cláudio e Sérgio Bermudes. As provas de que o jornalista teria sido assassinado eram mais do que suficientes para que a União e os torturadores fossem responsabilizados. Diziam os algozes que Vlado não estava preso, porém ele usava o macacão distribuído aos detentos. Diziam os assassinos que ele teria se enforcado com o cinto do macacão, mas os macacões distribuídos pelo DOI-Codi não possuíam cintos nem bolsos. Diziam que Vlado teria escrito uma confissão de próprio punho, onde admitia suas práticas subversivas, no entanto a assinatura do jornalista está ilegível em tal documento.

Por tudo isso, três anos após sua morte, em 27 de outubro de 1978, os advogados da família de Vlado venciam o primeiro processo movido contra a União, por seus arbítrios nos porões da ditadura.

Vladimir Herzog, desde pequeno marcado pela fatalidade, fugiu do nazismo de sua terra natal, a Iugoslávia, aos 9 anos de idade, para a Itália; veio para o Brasil, fugindo do fascismo e acabou assassinado nos porões da ditadura brasileira, um misto de fascismo, tirania, loucura e idiotismo.

Infelizmente, temos que ter a morte de pessoas inocentes para percebermos o quanto são estúpidos e mesquinhos os homens que detêm o poder de forma autoritária, pois, nas suas opiniões, aqueles que pensam diferente e subvertem a ordem estabelecida devem ser torturados, alijados de sua liberdade e mortos, como se sua vida fosse apenas um simples objeto de poder e dominação.

Diante do exposto, requeremos que a Câmara Municipal insira na Ata desta sessão homenagem a Vladimir Herzog e a todos que tombaram frente à crueldade dos patrocinadores da ditadura militar reinante em nosso País de 1964 a 1985.

Que cópia deste requerimento seja encaminhada às seguintes instituições: Associação Brasileira de Imprensa, Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Anistia Internacional, Comissão de Direitos Humanos da OAB, Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de São Paulo e Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, além da família de Vladimir Herzog."