A voz do dono e o dono da voz

A voz do dono e o dono da voz

Atualizado em 10/11/2004 às 14:11, por Renato Moraes.

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Toda vez que pressente as mudanças de temperatura e sua influência na camada de ozônio, a Rede Globo corrige sua rosa dos ventos, mesmo que saindo depois e chegando antes (basta vídeofolhear algumas edições datadas do Jornal Nacional). Seu porta-voz oficial é o Jornal Nacional que, ao completar trinta e cinco anos de existência, mereceu este livro-síntese. Ao longo de 408 páginas, recheadas com quatrocentos e vinte ilustrativas imagens (fotos, reproduções de cartas, telex, memorandos, documentos, stills de bastidores etc.) reconstitue-se boa parte de sua história.

É aí, justamente, que reside o nó da questão. Ao contrário das polêmicas que pipocaram na imprensa no rastro do lançamento de "Jornal Nacional - A Notícia Faz História", sempre batendo na mesma tecla do inadmissível episódio de manipulação editorial do debate final da campanha presidencial de 1989, são outras as questões controversas que saltam aos olhos de um leitor arguto. Prato requentado, o affair envolvendo os candidatos Lula e Collor, quem sabe vira, um dia desses, tema da próxima novela das oito, permeada do princípio ao fim com uma pergunta intrigante do tipo "quem ameaçou matar Lurian?".

Intrigante mesmo é se oferecer aos brasileiros, notadamente os mais jovens, uma publicação desse porte e natureza, que, por razões que a própria razão desconhece, passou ao largo de fatos da maior importância, envolvendo a imprensa, o Jornal Nacional, a Rede Globo e a memória do Brasil. São eles, em ordem sequencial, o cruel extermínio de Vladimir Herzog pela ditadura militar, em 1975, e a última e fracassada greve de jornalistas no país, realizada em São Paulo no ano de 1979, liquidada pelos proprietários dos principais veículos de comunicação e seguida de retaliações em série - leia-se, demissões - a alguns de seus artífices. A Globo, entre elas.

Que na próxima edição do livro, se faça a necessária correção, acompanhada das devidas explicações. Assim como se auto-explica a popular expressão passado a limpo, nada melhor do que limpar o passado.

JORNAL NACIONAL - A NOTÍCIA FAZ HISTÓRIA

Obra coletiva do Memória Globo

Jorge Zahar Editora

408 páginas

R$29,50