A utilização de órtese em PVC na vida de pacientes com dificuldades em locomoção, por Noely Lima, da UFPA

A utilização de órtese em PVC na vida de pacientes com dificuldades em locomoção, por Noely Lima, da UFPA

Atualizado em 07/11/2005 às 13:11, por Noely Lima e  aluna da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A utilização de tubos de PVC na confecção de órteses está beneficiando pacientes com dificuldades de locomoção. Trata-se do projeto "Confecção de Órteses e Adaptações em PVC Tubular e Materiais de Baixo Custo", apresentado pelo Laboratório de Tecnologia Assistida, ligado ao curso de Terapia Ocupacional da Universidade do Estado do Pará (Uepa). O projeto foi desenvolvido pelo professor Jorge Lopes Rodrigues Júnior, que construiu a órtese com material extraído de um tubo de PVC. A técnica tem o objetivo de baratear tratamentos de saúde com equipamentos feitos a partir de adaptações em tubos de PVC e uso de materiais como couro e velcro.

O projeto já ganhou certificação e foi escolhido entre 105 tecnologias certificadas neste ano, sendo um dos finalistas do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2005. No total, foram selecionados 40 finalistas na terceira edição do prêmio. Oito projetos serão escolhidos e ganharão um prêmio de R$ 50 mil cada. A premiação será feita no dia 24 de novembro, em São Paulo. Segundo o professor, foram feitas várias etapas até chegar nos 40 selecionados. "No começo eram mais de 600 trabalhos inscritos e ficamos entre os 150. Depois fizeram uma nova seleção e conseguimos ficar entre os 40. Agora é só esperar o resultado da etapa final. Mas, independentemente do resultado, já estamos satisfeitos, pois o projeto se tornou conhecido", comentou o professor.

De acordo com Jorge Lopes, a tecnologia é barata e eficiente, já que uma placa com o material que geralmente é usado, o termomoldável plástico, custa 400 dólares e possibilita a fabricação de apenas quatro órteses. Já com a tecnologia em PVC é possível fazer 40 órteses, pois, seis metros de tubo PVC custam no máximo R$ 50 reais.

"Nossa maior preocupação era com as pessoas de baixo poder aquisitivo, pois um paciente do SUS, na maioria das vezes, não possui condições financeiras para comprar uma órtese feita com o termomoldável plástico, pois é um material muito caro, já que é importado. Os pacientes do SUS possuíam muita dificuldade para adquirir a órtese", explicou. A procura pelo trabalho é grande, tanto que já atende pacientes vindos de outros consultórios e centros de saúde. "Já ultrapassamos os muros da Uepa, pois, hoje, atendemos pessoas até do interior do Estado. Estamos com uma lista de pessoas que se inscreveram e estão aguardando para ganhar a órtese", afirmou o professor. Segundo ele, se conquistar o prêmio, o dinheiro vai ser investido no Laboratório de Tecnologia Assistida da Uepa.

Para chegar até o tubo PVC, Jorge pesquisou outros materiais, como plástico, alumínio e ferro, mas só obteve um bom resultado com o tubo em PVC. "O tubo em PVC foi o material que teve o melhor resultado", comentou Jorge. O professor começou a pesquisa quando ainda era estudante do curso de Terapia Ocupacional da Uepa, mas, mesmo depois de formado, continuou a fabricar as peças sem cobrar nada dos pacientes. "Na época que fazia estágio tive contato com pacientes que possuíam diversos problemas de locomoção e que não podiam pagar por uma órtese. Então sabia que seria importante desenvolver algo que fosse utilizado na recuperação e saúde dessas pessoas", declarou o terapeuta. Segundo ele, a falta de recursos é o principal problema enfrentado pelo projeto. "Os tubos são bancados pela Uepa, mas não temos uma grande quantidade de material, o que impede a fabricação de um número maior de órteses. Se tivéssemos mais apoio, iríamos mais longe", afirmou. De acordo com Jorge, pelo menos 300 pacientes já foram atendidos no laboratório de Terapia Ocupacional, utilizando a órtese de PVC. Atualmente são cerca de 30 pacientes por mês.

O professor conta com a ajuda de dois estagiários do 3º ano do curso de Terapia Ocupacional. O estagiário Éden Fernando Batista Ferreira, afirmou ser muito gratificante participar do projeto. "As pessoas chegam aqui triste, angustiados com os problemas de saúde que impedem a locomoção e saem daqui com a auto-estima elevada. Quando começam a recuperar os movimentos a alegria volta no rosto dos pacientes e isso é muito gratificante para nós, que estamos envolvidos com o processo", disse o estagiário. Segundo ele, antes de utilizar a órtese o paciente passa por uma avaliação e uma entrevista, que são realizadas pelos terapeutas ocupacionais da Uepa. "Além de serem avaliados no laboratório os pacientes também são visitados em casa, pois é importante saber como é a vida do paciente em casa, se existe escada na casa da pessoa, se tem rampa, qual a disposição dos móveis, enfim, tem que haver um acompanhamento sério", explicou Éden. Alan dos Santos Reis, também ajuda na fabricação das órteses. "Apesar das dificuldades com a falta de materiais, conseguimos chegar bem longe, prova disso é o prêmio", disse Alan.

A artesã Raimunda do Socorro da Costa Cavaleiro, de 44 anos, foi uma das beneficiadas com o projeto, adquirindo a órtese de tubo de PVC. Vítima de um acidente de carro grave, que lhe deformou a mão direita, a artesã voltou a trabalhar graças a órtese que ganhou. "Eu fazia tratamento com o terapeuta ocupacional, mas vivia muito triste, pois me tornei uma pessoa infeliz depois do acidente, onde perdi os quatro dedos da mão direita e um quarto da mão. Chorava com muita freqüência, bastava lembrar do acidente que a angústia tomava conta do meu coração. Então o terapeuta Jorge Lopes se sensibilizou com o meu problema. Ele criou uma órtese para a minha mão", contou a artesã, que afirma ter recuperado a alegria de viver depois que começou a usar a órtese em tubo de PVC. "Eu tinha certeza que jamais voltaria a trabalhar como artesã, pois havia perdido o meu instrumento de trabalho, que era a minha mão, mas, graças a Deus, estou podendo desenvolver o meu trabalho novamente", contou dona Raimunda, que se orgulha em poder fazer as coisas sozinhas. "A órtese é adaptada para o tipo de vida que levo, ou seja, tem até uma abertura para colocar a agulha, pois faço crochê e pintura. Recuperei a alegria de viver", disse.