"A TV pública só será referência se tiver pluralidade cultural", diz Luiz Gonzaga Mineiro, ex-diretor do SBT e Record

"A TV pública só será referência se tiver pluralidade cultural", diz Luiz Gonzaga Mineiro, ex-diretor do SBT e Record

Atualizado em 03/12/2007 às 14:12, por Karina Padial/Redação Revista IMPRENSA.

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O jornalista Luiz Gonzaga Mineiro conhece como poucos os bastidores do telejornalismo brasileiro. Formado em 1977 pela Cásper Líbero, foi chefe de reportagem da extinta TV Manchete, diretor da Manchete em Brasília, editor regional do SBT na capital Federal por 10 anos antes de assumir o cargo de diretor Nacional de jornalismo da Record e, posteriormente, do SBT. Afastado da TV desde que saiu da emissora de Silvio Santos, em fevereiro desse ano, Mineiro foi uma das vítimas do temperamento inconstante do "homem do baú".

Na última sexta-feira (30/11), Mineiro visitou os estudantes de jornalismo da PUC-SP a convite de seu amigo e ex-colega dos tempos de SBT, Marcos Cripa, professor da Universidade. O veterano jornalista revelou que está "sem paciência" para voltar a trabalhar em TV, versou sobre sua experiência no SBT e opinou sobre a estrutura da TV pública.

Luciano Abe
Luiz Gonzaga Mineiro pede TV pública plural

"Encerrei minha carreira na televisão". A afirmação categórica foi feita depois da discussão sobre o projeto de jornalismo colocado em prática no SBT, em 2005, mas que não durou muito tempo por opção do próprio Silvio Santos. Mineiro discorda quando falam que o dono da emissora não gosta de jornalismo. "Ele não gosta é de conteúdo qualificado".

O ex-diretor de jornalismo conta que quando a nova equipe chegou no SBT, ela foi recebida como uma injeção de ânimo na programação, já que faltava peso e credibilidade. O projeto era uma novidade e foi elaborado cuidadosamente durante sete meses com a proposta de acabar com a letargia que existia na grade.

A caminho da liderança
Antes do SBT, Mineiro foi o homem forte do jornalismo na Record. "Eles investiram em equipamento, em tecnologia, se qualificaram e agora o resultado está aí".

Na hora de falar sobre a influência que os donos das emissoras tinham sobre o conteúdo que vai ao ar, Mineiro defende seus ex-chefes. Para ele, o que existiu foi uma relação de equilíbrio e bom senso no qual ele respeitava os valores dos superiores e eles o tratamento dado às informações. "No SBT não existia nenhum mecanismo de controle, nenhuma interferência. Eu tinha autonomia total". O Bispo também não questionava suas decisões: "Pude fazer as mudanças que quis. Tive liberdade para trabalhar, para mudar equipe. Jamais me disseram para fazer isso ou aquilo".

Equipe essa, aliás, que demanda muito investimento financeiro. "Os salários dos apresentadores são estratosféricos. Não adianta colocarmos desconhecidos porque o comercial não vende. Então pagar um alto salário para um apresentador conhecido e respeitado vale a pena porque dá lucro. É uma distorção de mercado. As diferenças salariais entre o pessoal de vídeo e a redação, o chão de fábrica são absurdas". A curiosidade fica por conta da Globo. Segundo Mineiro, em comparação com outros canais, os donos das bancadas na emissora dos Marinho ganham menos.

O Brasil na TV
Mineiro é um crítico do processo de implantação da TV pública. Concorda coma criação dela, mas acredita que ainda não existe um modelo pronto. "Cada um está pensando a TV [pública] de um jeito. Mas ela só vai ser uma referência se abranger a pluralidade cultural, o que eu chamo de variedade de sotaque, uma democracia de costumes e interesses da sociedade brasileira".

Para o jornalista, o risco dela se transformar em chapa branca pode vir da falta de fiscalização da sociedade organizada que deve cobrar e participar da produção de conteúdo. "A questão é que não somos educados para reclamar da imprensa, a mídia colocou a classe média de joelhos, faz a cabeça completamente e não chama à responsabilidade sobre o papel da sociedade como fiscal e parte do processo. Não separa estado de governo e não educa para a ação política".

Para o jornalista, a grande mídia não consegue ver nem explicar o que acontece fora dos grandes centros. Para ele, é preciso que se perceba que o Brasil é grande e complexo e vai muito além de São Paulo, Rio e Brasília, por mais importantes que estes centros sejam.

A crítica continua com a cobertura das eleições de 2006. "A campanha contra o Lula foi maciça na imprensa. No dia seguinte à vitória dele, a imprensa que sinalizava para seus leitores um resultado diferente do que aconteceu, não teve como explicar como ele ganhou". Apesar disso, Mineiro deixa bem claro que isto não quer dizer que as denúncias não eram verdadeiras. "Mas na campanha havia outras informações que faziam parte do noticiário e não foram veiculadas. Estas outras pautas, elegeram o Lula. A classe média está até hoje está tentando entender o que aconteceu. Foi apenas sonegação de notícias na direção de interesses políticos de veículos. Só isso".

Dessa forma, Luiz Gonzaga Mineiro encerrou sua conversa falando sobre a importância da atividade do jornalista. "É uma profissão de responsabilidade. O jornalista pode até ganhar por 7 horas, mas trabalha 24".