“A transformação ESG precisa ser de verdade”, por Roberta Lippi
Nunca se falou tanto sobre ESG e diversidade como em 2020 e 2021. Por um lado, é empolgante ver que, de fato, tais assuntos e a necessidade
Opinião
O jornal americano The Wall Street Journal publicou uma matéria que está causando grande repercussão no mercado financeiro nos EUA. A reportagem revela uma investigação aberta pela Securities and Exchange Comission (SEC) para avaliar denúncias de que uma gestora de ativos ligada a um grande banco estaria exagerando na propaganda sobre seus esforços em ESG, induzindo investidores ao erro.
O tema não é muito diferente do que já chamava-se anteriormente de “greenwashing”, que é quando uma organização faz um marketing duvidoso ou mentiroso sobre suas ações ligadas a meio ambiente e sustentabilidade. Mais uma vez notamos que, para muitas organizações, o discurso ainda está bem distante da prática.
urgente de mudança parecem ter entrado efetivamente na pauta.
Crédito:PxhereMas... quando olhamos para os números, tem alguma coisa que não está batendo. Vou comentar aqui especificamente sobre diversidade em conselhos, tema ao qual estou mais envolvida diretamente. Acompanho anualmente o ranking Board Index Brasil, da consultoria Spencer Stuart, que analisa os perfis dos conselhos de grandes empresas brasileiras. Em 2020, o índice mostrou que as mulheres representavam apenas 11,5% das posições em conselhos de administração em empresas de Nível 1, Nível 2 e Novo Mercado da B3. No levantamento de 2021, que acaba de ser divulgado, o número subiu para 14,3%. É um avanço? Sim, é um avanço. Mas o ritmo de crescimento é desproporcional ao espaço que as discussões sobre diversidade ocuparam nesses últimos tempos nas agendas e nos discursos das companhias e dos investidores, além dos muitos esforços de entidades independentes que estão se dedicando a essa causa – entre eles o Programa Diversidade em Conselho (PDeC), do qual faço parte há cerca de cinco anos. O PDeC é uma iniciativa conjunta entre cinco entidades – B3, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), International Finance Corporation (IFC), Spencer Stuart e WomanCorporateDirectors (WCD) – que visa uma maior inserção feminina em conselhos.
Para aqueles que insistem em dizer que tudo é uma questão de tempo, fica o recado claro de que isso não é mais suficiente. Nesse ritmo, vamos demorar mais de 30 anos para chegarmos a um resultado de equilíbrio de gênero nos conselhos. Diversidade racial, então, nem se fala. E olha que gente preparada para ocupar esses espaços é o que não falta. Só pelo PDeC já passaram 140 executivas e empresárias de altíssimo nível que estão mais do que prontas para serem conselheiras.
As iniciativas independentes, porém, apesar de estarem fazendo um árduo e importantíssimo trabalho de mobilização, não conseguirão fazer a mudança sozinhas. Cada um precisa fazer a sua parte – incluindo os acionistas, conselheiros e investidores. Todo esse discurso sobre ESG e diversidade precisa estar refletido em uma transformação de verdade.
* é sócia da Brunswick Group, consultoria internacional de comunicação estratégica. Jornalista com pós-graduação em gestão empresarial pelo Insper e especialização em comunicação internacional pela Universidade de Syracuse/Aberje, tem 25 anos de experiência na área de comunicação, com foco em posicionamento corporativo, mídia, crises, comunicação interna e treinamento de executivos. É membro desde 2015 do Programa Diversidade em Conselho, iniciativa de B3, IBGC, IFC, Spencer Stuart e WCD para ampliar a diversidade em conselhos de administração.





