"A tendência é que o jornalista vire um organizador de dados", diz Gustavo Faleiros
Em aula aberta sobre Introdução ao Jornalismo de Dados, promovida pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais, Gustavo Faleiros, jornalista formado pela PUC-SP, bolsista do Knight International Journalism Fellowship e mestre em Política Ambiental pela Universidade de Londres, ministrou palestra em que trata do assunto como tendência nas redações para os próximos anos.
Atualizado em 24/02/2014 às 18:02, por
Christh Lopes*.
À IMPRENSA, o especialista falou a respeito do jornalismo de dados. Na sua opinião, será essencial que todo jornalista tenha noções da função.
Crédito:Arquivo pessoal Gustavo Faleiros fala sobre crescimento do jornalismo de dados
IMPRENSA - Os dados são a unidade básica da informação e devem ser tratados com o maior cuidado possível. Ao passo que o jornalismo exige rapidez, como o profissional pode ser qualitativo e otimizado em jornalismo de dados? Gustavo Faleiros - Atualmente, os projetos de jornalismo de dados são especiais, pois a capacidade que existe no meio das redações não permite que você trate com esse cuidado a quantidade de dados utilizados. É mais fácil talvez matar a rapidez do que a qualidade, como podemos ver em vários exemplos. Então, a única forma de chegar neste cuidado é criar times mais bem preparados. Estamos em um momento de transição, uma nova redação vai surgir, com anos de preparação e sempre com novos desafios, porque não é trivial o que estamos fazendo e os desafios que estão sendo colocados pela quantidade de dados.
Se você quer usar o Twitter como uma base de informação para qualificar algum debate hoje em dia, eles caçam alguns comentários na mídia social, mas isso ganhará muito mais relevância quando tiver alguém que tenha o poder de extrair uma grande quantidade de dados e fazer uma análise estatística.
Quais são as maiores dificuldades e os ganhos de trabalhar em jornalismo de dados? A maior dificuldade é o acesso às bases que sejam boas o suficiente para se montar uma história. Então, isso exige certo trabalho, mesmo que os dados estejam abertos. Você está falando de um cruzamento, então, se está querendo investigar, por exemplo, causas de morte e relacionar com registros hospitalares há vezes que não há muita similaridade. Então, nosso fim é sempre contar a história. A correlação nem sempre é possível. A dificuldade é achar a base de dados que corroborem para sua hipótese. De fato, você está chegando num momento de levantar hipóteses e buscar dados para ver se isso dará suporte à sua hipótese. Os maiores ganhos estão na resposta do público.
Como avalia o mercado para o jornalista de dados? Mercado claramente em expansão. Alguns dos maiores salários recentes no jornalismo na Inglaterra foram para pessoas que trabalham com o jornalismo de dados. O Financial Times e um outro meio contrataram, fizeram uma concorrência bastante acirrada para descobrir quem eram os jornalistas que deviam trabalhar com dados e análise dos mesmos dentro das redações. Mercado que está crescendo ligado a visualização, ligado à questão de análise de dados.
Como base da informação, os dados podem ser usados da forma que o jornalista desejar. Como a ética é trabalhada nesta nova função? A ética nos dados vai se tornar um tema chave daqui para frente, porque a forma como as pessoas trabalham os dados ainda é antiga. Devemos pensar que os dados vinham mastigados pelos experts. A visão que está sendo pouco levada ainda para o jornalismo é um pouco essa: o especialista falou, está no relatório tal ... Então, parece que é a verdade absoluta. Enquanto isso nunca foi questionado quando tínhamos acesso a um dado mastigado.
Como isso não ocorre agora, corre-se esse risco, dependendo da análise que for feita. O problema é que ela não está sendo cobrada. O lado que se movimenta do negócio está apagando um pouco isso. Mas não tenha dúvidas de que vai se estabelecer, porque é um pouco onde o diferencial do jornalismo será feito, pois falar nas redes sociais todos podem.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
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