A suicida e o beijo de língua

A suicida e o beijo de língua

Atualizado em 14/11/2008 às 13:11, por Rodrigo Manzano.

Eu não acredito em boas intenções, sobretudo as dos jornalistas. Dias desses, dormi ao som do televisor anunciando uma tentativa frustrada de suicídio e acordei na manhã seguinte com o mesmo televisor e a mesma emissora me mostrando dois rapazes sendo obrigados pela polícia pernambucana a se beijarem na boca. Não há intenção que justifique a presença dessas imagens no noticiário. Aliás, se alguma intenção há, deve ser das piores.

O problema não é a falta de limites. Os limites estão aí, disponíveis. Aliás, sequer precisariam ser escritos, porque mais vale o bom senso pairando na atmosfera e sendo consultado em momentos como esses dois, do que manuais de jornalismo, códigos de ética, guias de procedimento que não servem para nada. Tive um professor de português no ensino fundamental, Ary Neves, que nos provocava dizendo que, com o vocabulário que tínhamos, os dicionários em casa deviam servir de escoro para a geladeira manca. Pois bem, nas redações, os manuais de jornalismo e ética também devem estar escorando algum eletrodoméstico velho, porque para nada servem.

Foi-se o tempo da delicadeza. A velha orientação de que suicídios só podem ser noticiados em caso de pessoas célebres não é mais obedecida. Tudo bem, podem argumentar os cínicos, a mulher "tentou" se suicidar e foi salva pelo corpo de bombeiros. Sim, mas que diferença real há entre a tentativa e o suicídio consumado senão a frustração do objetivo original? Nas retinas do telespectador, o ato heróico de salvamento não substitui a violência simbólica da exposição nas telas de uma mulher cujo sofrimento a leva ao portal da morte. Nesse caso, vale a premissa de que a dor de um suicida é tão particular que só a ele pertence. Nem mesmo aos seus familiares, muitas vezes incrédulos diante da triste notícia. A última coisa de que um suicida frustrado precisa é de exposição na mídia. E a última coisa que eu desejava, naquela noite, era dormir com a imagem de uma mulher sentada no beiral da cobertura de um prédio, onde tentava decidir entre sua vida, infeliz, e a morte, talvez um descanso. Felizmente, ela viveu. Mas vai pagar um alto preço por isso, após aparecer na televisão.

Uma noite depois, acordo sob o horror de um Abhu Graib pernambucano. Policiais militares torturam dois rapazes. A tática: que se beijem na boca. A única maneira de confrontar a opinião pública com o comportamento abusivo dos policiais é, de fato, noticiar o acontecimento. Mas exibir o vídeo é violentar, mais uma vez, a imagem dos rapazes que não precisariam ser expostos fazendo um ato absolutamente involuntário, sob a pressão da força física e da repressão do Estado. O ato da polícia não é pior que a decisão do editor em pôr no ar as imagens, àquela altura já disponibilizadas no Youtube e afins. Caso o telespectador queira alimentar seu desejo perverso diante da humilhação alheia, que procure onde se oferece o prato feito. Os cínicos, novamente, poderiam argumentar que se trata de prova de que realmente os policiais submeteram os rapazes à tortura e humilhação. Sim, se o repórter viu, se o editor viu, se o editor-chefe viu, sua autoridade permite que noticiem o caso, mas não exponham os meninos. Até porque, pelo menos no trecho exibido pela televisão, não aparecem os rostos dos policiais, apenas os das vítimas da violência.

Por último, os cínicos ainda podem tentar me convencer de que a exibição da mulher em sofrimento, no beiral de um prédio e dos meninos constrangidos, sob coação, alerta a sociedade para um mal premente, neste, e festeja um final feliz, naquele. Balela. Pergunto aos cínicos: se a pobre mulher, prestes a se jogar, decepcionada com a vida, fosse sua mãe ou sua irmã, poriam a imagem no ar? E se um dos meninos fosse seu filho, seu irmão, seu sobrinho, poriam? E se a mulher, em vez de uma telefonista do serviço público, fosse uma desembargadora e o menino, filho de juiz?

Sim, as regras não valem para todos. E os manuais de jornalismo e de ética estão ancorando um objeto penso: a nossa reputação profissional.