“A sobrevivência dos jornais de bairro com a perda de anunciantes durante a pandemia de Covid-19”, por Wagner de Alcântara Aragão
A sobrevivência dos jornais de bairro, contudo, tem sido duramente afetada pela pandemia de Covid-19 e pela crise.
Opinião
É bem provável que a continuidade do jornalismo impresso seja garantida por publicações comunitárias, como os jornais de bairro. Esses títulos, geralmente tabloides, costumam se constituir em um dos elementos concretos que caracterizam uma localidade – como são a praça, o comércio, a escola, o posto de saúde. Não raro ganham ares de patrimônio daquele entorno.
Assim, mesmo que estejam também na internet, é a presença física desses jornais na padaria, no açougue, nas bancas de esquina que restaram, na oficina, é essa presença material que dá identidade à publicação. Não afirmo isso mediante conclusão científica comprovada. Expresso isso no campo da premissa. Mas que os indícios levam a essa constatação, levam.
São publicações que dependem demais das médias e pequenas empresas, locais, desassistidas de políticas econômicas. No período mais crítico da pandemia precisaram paralisar as atividades; perderam receitas, cortaram custos – entre estes, verbas em publicidade.
Foi essa conjuntura que motivou a mim e minha orientadora de doutorado, a professora Myrian Regina Del Vecchio-Lima, ambos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a realizarmos pesquisa que intitulamos “Covid-19, lockdown e evasão de anúncios: a sobrevivência de um jornal de bairro na pandemia”, e que apresentamos no 19º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Promovido pela SBPJor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo), o evento ocorreu em novembro último.
Optamos por um estudo de caso, o do Caderno do Bairro, de Curitiba, onde está nosso programa de pós-graduação. O jornal alcança bairros da região sul da capital paranaense, densamente habitada, uma das mais carentes em infraestrutura e com os piores indicadores socioeconômicos do município. Justamente quando a população mais precisou de informações e orientações locais, isto é, durante o período mais agudo da pandemia, a circulação do tabloide esteve ameaçada.
Constatamos que, ao contrário da maior parte dos jornais de bairro de Curitiba, o título em questão não chegou a suspender ou cancelar edições. De acordo com a associação que representa as publicações, 60% dos títulos interromperam sua circulação. Para evitar essa medida drástica, o Caderno do Bairro diminuiu pela metade o número de páginas (de 16 para oito), reduziu a tiragem e baixou em 50% o preço dos anúncios.
Precisou também adotar medidas no âmbito editorial. Com o tabloide mais enxuto, conteúdos tradicionais – como páginas dedicadas a conselhos de segurança dos bairros – migraram para a versão online.
Mas, decisiva mesmo para a manutenção das edições impressas (a periodicidade é mensal) foi a publicidade oficial, em especial da Prefeitura de Curitiba. A pesquisa apontou que faz parte da estratégia de Comunicação da administração municipal reservar orçamento considerável para aporte em veículos de mídia comunitários.
O problema, conforme assinalamos, não está nesse tipo de subsídio. Entendemos ser dever do poder público se comunicar com a sociedade, e por vezes a linguagem publicitária se apresenta como a mais eficaz. O problema está na falta de marcos regulatórios que fixem critérios objetivos e transparentes para a destinação de verbas de publicidade oficial, a fim de que não se configurem em um instrumento de controle do jornalismo, e sim de fomento à comunicação pública.
Os detalhes da pesquisa podem ser conferidos no artigo, disponível nos anais do encontro da SBPJor.
O para acessar é este: .
* é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.





