A sete palmos do chão, por Gabriel Priolli
Um dos meus primeiros trabalhos em jornalismo, há pouco mais de 40 anos, foi a cobertura do enterro de Ranieri Mazzilli, em São Paulo. Hoje
Atualizado em 20/07/2015 às 15:07, por
Gabriel Priolli.
Crédito:Leo Garbin
em dia, ouve-se pouco o nome dele, mas esse deputado do PSD paulista presidiu a Câmara Federal de 1959 a 1965, e foi presidente interino da República em duas ocasiões: depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e depois da derrubada de João Goulart, em 1964.
Tratava-se, portanto, de um político graúdo, para quem presumíamos, na redação da TV Cultura, um funeral bastante concorrido. Mazzilli tinha trajetória de destaque em São Paulo e era membro do MDB, o partido da oposição. Apesar de a ditadura estar em pleno vigor, cerimônias como essa, em geral, funcionavam como atos políticos dos oposicionistas, na carência de outros espaços para realizá-los. Era um enterro que daria ibope, tínhamos plena certeza.
Eu era foca em jornalismo, mas não em política, com participação ativa nos debates e atos estudantis da época. Saí da emissora entusiasmado com a oportunidade que a pauta me dava, levando comigo o cinegrafista Nilo Mota, que iria produzir as imagens da história que contaríamos. Mas nunca imaginei que seríamos personagens dela – e cômicos, ainda por cima. O enterro tinha tanta gente quanto imaginávamos.
Enquanto eu me ocupava em identificar os políticos presentes, para as entrevistas, percebi que o Nilo havia sumido. O tempo passava, eu não o via fazer as imagens, fui me angustiando. Comecei a me desesperar quando os discursos à beira da tumba acabaram e os coveiros começaram a baixar o caixão. Onde está o bendito Nilo, pensava.“Tem um cara aqui dentro!”, eis que grita um coveiro das entranhas da terra, para espanto geral. Logo depois, ouviram-se as gargalhadas.
Sim, é claro. O homem nas profundezas era o Nilo, que havia se enfiado na tumba, segundo ele, “para fazer um plano bonito” do caixão descendo na direção da lente da câmera... Pagamos um mico realmente histórico, naquele dia 21 de abril de 1975. Por que recordo isso, agora? Não sei bem. Talvez porque vivamos um tempo político de democracia agonizante, em que a deposição de presidente via golpe militar é pregada livremente por extremistas, e o Parlamento enterra a própria reputação no predomínio de bancadas ultrarreacionárias.
Talvez porque muitos veículos da imprensa estejam pela hora da morte, esperando apenas para fazer a imagem bonita da tampa da tumba se fechando sobre eles, enquanto o público ri de suas opções editoriais. Ou talvez, apenas, porque eu viva demais da nostalgia de um jornalismo vigoroso, crítico, ousado, e queira muito sair junto com ele do buraco onde se enterrou.

em dia, ouve-se pouco o nome dele, mas esse deputado do PSD paulista presidiu a Câmara Federal de 1959 a 1965, e foi presidente interino da República em duas ocasiões: depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e depois da derrubada de João Goulart, em 1964.
Tratava-se, portanto, de um político graúdo, para quem presumíamos, na redação da TV Cultura, um funeral bastante concorrido. Mazzilli tinha trajetória de destaque em São Paulo e era membro do MDB, o partido da oposição. Apesar de a ditadura estar em pleno vigor, cerimônias como essa, em geral, funcionavam como atos políticos dos oposicionistas, na carência de outros espaços para realizá-los. Era um enterro que daria ibope, tínhamos plena certeza.
Eu era foca em jornalismo, mas não em política, com participação ativa nos debates e atos estudantis da época. Saí da emissora entusiasmado com a oportunidade que a pauta me dava, levando comigo o cinegrafista Nilo Mota, que iria produzir as imagens da história que contaríamos. Mas nunca imaginei que seríamos personagens dela – e cômicos, ainda por cima. O enterro tinha tanta gente quanto imaginávamos.
Enquanto eu me ocupava em identificar os políticos presentes, para as entrevistas, percebi que o Nilo havia sumido. O tempo passava, eu não o via fazer as imagens, fui me angustiando. Comecei a me desesperar quando os discursos à beira da tumba acabaram e os coveiros começaram a baixar o caixão. Onde está o bendito Nilo, pensava.“Tem um cara aqui dentro!”, eis que grita um coveiro das entranhas da terra, para espanto geral. Logo depois, ouviram-se as gargalhadas.
Sim, é claro. O homem nas profundezas era o Nilo, que havia se enfiado na tumba, segundo ele, “para fazer um plano bonito” do caixão descendo na direção da lente da câmera... Pagamos um mico realmente histórico, naquele dia 21 de abril de 1975. Por que recordo isso, agora? Não sei bem. Talvez porque vivamos um tempo político de democracia agonizante, em que a deposição de presidente via golpe militar é pregada livremente por extremistas, e o Parlamento enterra a própria reputação no predomínio de bancadas ultrarreacionárias.
Talvez porque muitos veículos da imprensa estejam pela hora da morte, esperando apenas para fazer a imagem bonita da tampa da tumba se fechando sobre eles, enquanto o público ri de suas opções editoriais. Ou talvez, apenas, porque eu viva demais da nostalgia de um jornalismo vigoroso, crítico, ousado, e queira muito sair junto com ele do buraco onde se enterrou.






