A revista das Olimpíadas

A revista das Olimpíadas

Atualizado em 11/08/2008 às 13:08, por Nelson Varón Cadena.

Em meados de 1932 o Itaquece, navio de cabotagem da marinha mercante brasileira, zarpou do Porto de Santos rumo a Los Angeles. Levava 55 mil sacas de café sem comprador certo e 67 atletas brasileiros que deveriam representar o país nas olimpíadas. Antes assumiram o compromisso com o Comitê Olímpico Brasileiro de vender a mercadoria nos porões, porto a porto; esse era o preço do patrocínio estatal a ser pago por cada um dos esportistas, nessa condição transformados em promotores de vendas. Faziam parte da comitiva dirigentes e jornalistas, entre os quais Fernando de Castro Rebello e Victorio Emmanuel Pareto. Já em solo americano, assistindo as performances da nadadora Maria Lenk e do saltador de vara Lucio de Almeida Castro, os dois cogitaram criar uma revista especializada em esportes olímpicos.

No final do referido ano "Olympia", que esse era o nome da publicação, revista semanal com 32 páginas, Capa em policromia, chegava às bancas, logo esgotando a sua primeira edição, resultado da chuva de papel picado (mini-panfletos) promovendo o seu lançamento pelas principais ruas do Rio de Janeiro. Expediente este antes utilizado por Assis Chateaubriand para o lançamento de O Cruzeiro e por isso mesmo uma ação promocional já testada e de impacto garantido. O logotipo da publicação incorporara a imagem do lançador de disco, o "discóbolo" de Miron, escultor que viveu no século V antes de Cristo. O editorialista definia o seu estilo: "Não abusaremos de louvores intermináveis, recheados de adjetivos bombásticos para com os medalhões".

Olympia preencheu uma lacuna no mercado editorial que se ressentia da falta de um veículo segmentado na temática esportiva, desde o desaparecimento de Sport Ilustrado (1921), Sports (1923) e Mundo Desportivo (1926). E mesmo sendo editada quatro meses após o fim dos jogos olímpicos, este seria o tema predominante nas primeiras edições com muitas fotos dos atletas, provavelmente recortadas de publicações estrangeiras; o corte na mão grande da tesoura evidencia-se em quase todas as páginas. Mas este era um recurso válido na época e no caso específico a única maneira de retratar o evento, já que a cobertura sequer fora prevista, pois no tempo de realização das olimpíadas não existia.

A imagem de Johnny Weissmuller o nadador olímpico que o cinema transformaria em Tarzan era o destaque recorrente nas primeiras edições da publicação que também mostrava o projeto de um estádio para o Palestra Itália e as performances de nossos melhores atletas olímpicos, os resultados do turfe semanal e rankings de melhores tenistas elaborados pelo "corpo redactorial" da revista, assim denominado no expediente, composto por dez jornalistas. A sede era no Rio de Janeiro (Rua 13 de Maio), mas tinha sucursais em São Paulo (Edf Martinelli) e Porto Alegre (Rua Lima e Silva).

Se o nome e objetivo da publicação remetia ao amadorismo, a campanha pela profissionalização do futebol, um paradoxo, seria a sua maior bandeira. Olympia mobilizou a opinião pública e participou na linha de frente na luta para que os jogadores de futebol recebessem uma remuneração. Considerava o amadorismo coma sua áurea de espírito olímpico uma hipocrisia e uma forma de exploração dos atletas, enquanto os clubes enriqueciam. Campanha vitoriosa que lhe rendeu desafetos, mas também grande prestígio.

Não tenho a menor idéia de quanto tempo a revista circulou. Não há qualquer registro de sua existência nos catálogos de revistas publicados, livros sobre história da imprensa ou das revistas, ou na Internet, o que é lamentável, considerando a sua qualidade. Sei de sua existência por que possuo a coleção de 1932-1933.