A repórter que entrevistou Nossa Senhora

A repórter que entrevistou Nossa Senhora

Atualizado em 08/12/2007 às 01:12, por Rodrigo Manzano.

Você conhece a Carolina Chagas?
Pois então, eu conheço. Meu passatempo predileto é encontrar pessoas que conheçam a Carolina Chagas - não são poucas - para falar sobre ela.

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A Carolina Chagas já fez muita coisa bacana, passou por diversas redações e tem milhares de amigos por aí. Mas ela está ficando famosa por um feito muito prosaico: a Carol é a mais conhecida autora de biografias dos santos. Diz que no Paraíso, onde moram os dignos santos da Igreja Católica, todos querem ser biografados pela Carolina. Em 2002, ela escreveu "O livro das graças", uma coletânea de pequenas histórias sobre os santos e santas. Depois escreveu "Nossa Senhora!", sobre as diversas configurações da Mãe de Jesus esparramadas pelo planeta afora. E veja bem se ela não é o Ruy Castro da hagiologia: numa só fornada, Carolina Chagas acabou de lançar as biografias de outros três notáveis: Nossa Senhora de Aparecida, Santo Expedido e Santo Antônio, todas (estas e aquelas) pela Publifolha.

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Veja bem, se você acha que fazer uma matéria com o presidente de uma companhia multinacional é difícil, se está reclamando que lá em Brasília ninguém dá bola para seus pedidos de entrevista ou se o assessor de imprensa nunca retorna seus telefonemas, pare de se queixar. Imagine o que é escrever a biografia de um santo ou de uma santa. E de Nossa Senhora, então!

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Mas a Carolina acredita piamente nos santos, em especial em São José. Tempos atrás, ela mandou um e-mail com a simpatia do santo de sua devoção. Envolvia um sorteio de frutas e uma penitência anual: a fruta sorteada no papelzinho deveria ser banida do cardápio durante os próximos 365 dias. Liguei para a Carol e perguntei se eu poderia colocar nos papéis apenas as frutas que não gosto e as que nunca como. Ela disse que não. Desisti, portanto, da simpatia.

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Mas isso não chuva para o capote da Carolina. Se eu contar que ela lançou, faz uns três anos, um livro lindo sobre prédios comerciais em São Paulo, você acreditaria? Pois sim, lançou. Escrever um perfil do Santo Expedito depois de conversar com os prédios é nada. Ou quase nada.

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A Carol tem talento no DNA, já que é filha do Carmo Chagas, aquele mineiro que, junto com outros mineiros, fundaram o jornal mais interessante dos últimos 500 anos: o Jornal da Tarde, dos Mesquita. Não este Jornal da Tarde, mas aquele Jornal da Tarde , lembra-se? E além de ser filha do Carmo, é, digamos, afilhada do Otto Lara Resende, que foi tema da sua dissertação de mestrado na PUC.

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Eu conheci a Carolina Chagas no mestrado. Ela corria atrás do fantasma do Otto e eu, do Glenn Gould. É claro que ela levou vantagem sobre mim, já que o Otto falava português e o GG, inglês. Com sotaque de Toronto. A sua dissertação fez o maior sucesso na Folha . So não o fez no Estadão porque até hoje o pessoal lá da Ponte do Limão morre de inveja da boa idéia que a turma do tênis cor-de-rosa teve ao chamar o genial Otto Lara Resende para refrescar a página 2 do jornal dos Frias.

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Quando estamos sem fazer nada na redação daqui da IMPRENSA - é muito raro, bom dizer - eu chamo a repórter Angélica Pinheiro, da revista, (que, além de mim, é a única fumante em toda a empresa), para conversar e falar sobre a Carolina Chagas. A Angélica foi foca da Carol. Quando não temos assunto, eu vou logo tratando de abrir um novo tema:
- E a Carol, hein?
E assim a conversa flui, ao menos um cigarro, sobre a biógrafa dos santos.

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Hoje eu pedi à Angélica que escrevesse seis linhas sobre a Carol, sobre os tempos em que ambas trabalharam no iG, para eu pôr aqui na coluna. Ela escreveu dez, sinal que gosta muito dela. Diz a repórter: "Santa Carol! Como uma editora pode ser tão doce neste mundo malvado do jornalismo. Lembro-me bem, quando a Carol 'piscava' ainda no antigo ICQ. 'Angélica, pode vir aqui?', lia-se em muitas mensagens. Em tom baixo, porém firme, explicava em detalhes como deveria melhorar um texto. Nunca ouvi a Carol gritar. Nem quando a redação mais parecia o inferno na terra. Ela também tem feeling. Sabe reconhecer as potencialidades. Será que eu digo isso porque ela me escolheu entre uma boa meia dúzia de estagiários? (risos) Ah! Pode ser também. Mas há outras evidências dessa qualidade. Não, por acaso, comandava uma trupe de bem umas 50 pessoas. Cada uma, ao seu modo, tentando construir o jornalismo on-line que considerava o ideal. Minha ex-chefe sabe como ninguém delegar tarefas. E também cobrá-las. De uma maneira que, intuitivamente, considero a ideal. Sem a ansiedade que corrompe nossos pares (me incluo dentro dessa)".

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Eu preciso confessar: fiquei com inveja da Angélica.

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Lá em casa, ganhamos um vinho tinto da Carol. É um bordeaux legítimo. Eu não me lembro a marca do vinho, até porque a gente só se refere a ele como "o vinho da Carol". Eu prometi para ela que tomaríamos o vinho em uma ocasião especial. Já faz três anos, quase. O vinho continua lá, na horizontal, como mandam os enófilos. A ocasião especial - à altura da Carol - ainda não chegou. Enquanto isso, a gente continua matando os chilenos.

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Você deve estar se perguntando por quê escrevo sobre a Carol. Basicamente por duas razões. Serei honesto: adoro a Carol, e essa é a primeira razão. A segunda é, digamos, mais estratégica. Fui acusado, por três pessoas, ao longo da semana, de ser pessimista e, com a coluna de sexta-feira passada, apresentar apenas o lado ruim das redações. Então, para emanar o espírito natalino que toma conta do planeta nessa época do ano, resolvi falar de uma coisa realmente boa: a Carol. Assim, ninguém descobre que eu sou, de verdade, uma pessoa dramática.

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Isso tudo para mostrar que, apesar dos pesares, é possível encontrar gente bacana esparramada nas redações.

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Você conhece a Carolina Chagas?
Então deveria.