A reportagem- veneno de Joel Silveira

A reportagem- veneno de Joel Silveira

Atualizado em 23/03/2009 às 10:03, por Nelson Varón Cadena.

Grã-Fino" era sinônimo de arrivista, expressão cunhada pela imprensa nos anos 40 para se referir aos nouveaux-riches, fortunas construídas com pouco trabalho e muito glamour, gente espalhafatosa, exagerada, capaz de pendurar uma melancia no pescoço para aparecer nas colunas sociais. O neologismo afrancesado era pura chacota e refletia o pensamento de famílias tradicionais, incomodadas com o barulho dessa turma e ao mesmo tempo enciumadas com a facilidade de se projetar na mídia. Muitos anos depois a mesma imprensa os chamaria de "emergentes", expressão igualmente pejorativa. O fato é que o surgimento do Grã-Finismo como fenômeno social teria passado batido na imprensa brasileira não fosse a verve irreverente do repórter Joel Silveira , em 1943, escalado pela revista Diretrizes para retratar a finesse dos salões paulistanos. O resultado foi uma reportagem contundente e uma reação à altura dos personagens que se sentiram injuriados.

Durante uma semana o repórter visitou bares, restaurantes, salões de chã de São Paulo, entrevistou grã-finos, leu com atenção as colunas sociais e compareceu a algumas festas; extraindo dessa sua experiência observações que transcreveu no papel com muita ironia, num estilo cáustico, devastador. Silveira começa a sua matéria traçando um panorama dos ricos paulistanos: "Os milionários são muitos... Uma noite no Jequiti-bar conheci alguns deles: o milionário Lafer, o milionário Pignatari, o milionário Matarazzo, o milionário Crespi... Era um grupo terrível, avassalador. Com um gesto de mão qualquer um deles poderia me aniquilar. Mas os milionários apenas sorriam e bailavam com as mulheres, todas muito belas. É noite e São Paulo rico está reunido ali na pista".

Coisas inúteis
Então descreve os seus hábitos: "Durante o dia as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pif-paf, compraram a revista Sombra, tomaram chã na livraria do Jaraguá, jantaram no Popote e falaram das amigas. Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isto: apenas assinaram papéis. À tarde foram ao Automóvel Clube, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes. Mas o que perderam não representa uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia... O Jequiti é o mar noturno onde todos se encontram... um ponto de reunião do grã-finismo, um ponto onde Fifi marca encontro com Lelé para falar mal de Zuzu".

O repórter arrisca definir as castas da grã-finagem paulistana que, no seu faro observador, seriam quatro: "O primeiro grupo é formado pelos grãs-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores sem muitos escrúpulos... Circulantes de jóias as senhoras do segundo grupo, o grupo reserva, tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos... Mas há um terceiro grupo lamentável e melancólico... gente que nasceu de família recente, de médicos de Barreto ou comerciantes de Bauru... As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento contanto que se tornem dignas do Roof, ou do Jequiti. É o grupo do estribo e do penacho, as mulheres usam terríveis penachos...". Ao quarto grupo, o dos poetas e literatos Silveira despensa comentários mais amenos, mas não deixa de apontar o seu estilo "recitativo" e petulante.

A víbora
A crônica-reportagem de Joel Silveira teve enorme repercussão com reação de alguns dos mais de 30 nomes citados de empresários, madames e intelectuais e artistas inseridos na grã-finagem (poupa apenas Di Cavalcanti e releva as circunstâncias de Oswald de Andrade), uma reação que chamou a atenção de Assis Chateaubriand que nele enxergou um instrumento para seus propósitos: "Quero a víbora trabalhando aqui comigo". Silveira relutou inicialmente, porém, desempregado (a revista Diretrizes tinha fechado as portas e o DIP andava no encalço de alguns jornalistas) aceitou a oferta, "mas com uma condição contratual: não pode me chamar de filho de puta".

Dois anos depois da matéria sobre o grã-finismo o repórter volta ao mesmo cenário, escalado para uma reportagem com o mesmo teor e muito mais veneno: a cobertura do casamento da filha do Conde Matarazzo com João Lage que descreve a partir da narrativa de uma fonte privilegiada, um dos convidados à chamada "festa do século". Silveira era usado por Assis Chateaubriand para se vingar do Conde que lhe negara uma grana, um desses empréstimos que o dono dos Associados costumava solicitar de grandes empresários brasileiros para pagar a perder de vista, ou perder para sempre. E assim o Diário da Noite publicava reportagem de página dupla: à direita o casamento da filha do Conde, à esquerda com o mesmo destaque, ordem do patrão para pirraçar o industrial (então, a maior fortuna do Brasil) o casamento de um operário da fábrica Matarazzo, realizado no subúrbio, entre gente humilde.