"A realidade foi espetacular, mas o espetáculo foi medíocre”, diz Eliane Brum sobre a Copa
Jornalista falou nesta sexta-feira (25/7) em Congresso da Abraji e criticou o "controle da informação" no Mundial.
Atualizado em 25/07/2014 às 16:07, por
Lucas Carvalho*.
Nesta sexta-feira (25/7), durante o 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a jornalista Eliane Brum comandou o painel “Uma Foca na Copa”, sobre sua primeira experiência de cobrir um Mundial de futebol. O evento que acontece até o dia 26 de julho, em São Paulo, é promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
Eliane começou a palestra explicando o motivo pelo qual aceitou o a proposta da Folha de S. Paulo . “Eu só aceito convites que me tirem do lugar e me obriguem a ser outra, num lugar outro”, disse, apesar de admitir a pouca experiência na editoria. “Aceitei seguir a Seleção Brasileira na Copa desde que não fosse no sentido de uma reportagem esportiva – o jogo em si, de acordo com as regras, etc. – por que não tenho conhecimento para isso. Mas a Copa em seu significado”, ressalta a jornalista. O objetivo, segundo ela, era apurar o evento “pelas margens”.
Crédito:Lilo Clareto/Divulgação Eliane Brum voltou a ser foca na cobertura do Mundial deste ano A jornalista produziu 19 matérias, sendo 12 contracapas do jornal impresso e sete exclusivas da Folha Online. Eliane diz ter desenvolvido duas linhas narrativas, de acordo com seu estilo de texto, para acompanhar o torneio. Na primeira, ela destaca o que chamou de “brasilidades”: aspectos da cultura nacional e histórias humanas que só poderiam se revelar durante a realização do evento no País.
Entre os textos encaixados nesse modelo, estão “ ”, história sobre o contraste entre as dificuldades enfrentadas pelo Teresópolis F.C., clube da terceira divisão do campeonato carioca que atua na cidade em que a Seleção Brasileira treinou para o Mundial, e o time nacional; “ ”, um diálogo entre um policial militar e um manifestante em Belo Horizonte (MG); e " ", sobre um vizinho da Arena Corinthians que simboliza o conceito popularizado por Nelson Rodrigues; entre outros.
A segunda linha foi focada no que ela classificou como “o espetáculo, a corte e a torcida” ao redor da Copa. Nesse aspecto, ela destacou, entre outros, os textos “ ”, sobre os anônimos que lutam para chamar a atenção na televisão; “ ”, sobre o “brete de bois” que é a zona mista após os jogos, em que jornalistas têm a chance de conseguir uma palavra com atletas ou membros da comissão técnica; e " ", sobre os bastidores de uma coletiva de imprensa organizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Visão jornalística
Eliane afirma que essa experiência a fez perceber seu verdadeiro lugar no evento esportivo: “uma estrangeira”, tanto como cidadã quanto como jornalista. “Naquele fatídico jogo [em que a Seleção foi eliminada do torneio], três repórteres brasileiros vieram me abordar para saber a minha visão da partida, achando que eu era uma jornalista alemã”, conta.
Mas, mais do que o rótulo de “gringa” que recebeu de entrevistados e colegas de profissão – algo inédito em sua carreira, ela diz –, o que mais espantou Eliane foi o que ela chamou de “controle da informação” durante a Copa, e principalmente, “a forma como isso era natural para uma parte significativa da imprensa”.
A jornalista destaca que muitos colegas pareciam usar apenas as coletivas de imprensa como fonte de informação. Um meio que, segundo ela, “não vale de muita coisa” para um repórter, pois trata-se do simples interesse daquela entidade em se promover “com a nossa agenda”. “É reproduzir um release como se fosse notícia”, ela opina.
Eliane também apontou outros problemas da cobertura, como a exclusividade reservada aos grupos de comunicação que possuíam os direitos de transmissão e o “ranking” de preferência da CBF: Rede Globo, veículos que acompanham a Seleção nos últimos quatro anos (excluindo os que “chegaram agora”) e, de acordo com as palavras do então assessor de imprensa da entidade, Rodrigo Paiva, “10% de jornalistas estrangeiros”.
“A Copa foi sensacional do ponto de vista narrativo. A realidade foi espetacular, mas o espetáculo foi medíocre”, encerrou a jornalista. À IMPRENSA, Eliane disse que achou interessante compartilhar sua experiência com colegas e estudantes no congresso, à convite da Abraji. Entretanto, não sabe se vai continuar acompanhando futebol. “Me apaixonei [pelo esporte]. E falar sobre futebol é falar sobre o Brasil, não é? Mas ainda não sei”..
* Com supervisão de Danúbia Paraizo
Eliane começou a palestra explicando o motivo pelo qual aceitou o a proposta da Folha de S. Paulo . “Eu só aceito convites que me tirem do lugar e me obriguem a ser outra, num lugar outro”, disse, apesar de admitir a pouca experiência na editoria. “Aceitei seguir a Seleção Brasileira na Copa desde que não fosse no sentido de uma reportagem esportiva – o jogo em si, de acordo com as regras, etc. – por que não tenho conhecimento para isso. Mas a Copa em seu significado”, ressalta a jornalista. O objetivo, segundo ela, era apurar o evento “pelas margens”.
Crédito:Lilo Clareto/Divulgação Eliane Brum voltou a ser foca na cobertura do Mundial deste ano A jornalista produziu 19 matérias, sendo 12 contracapas do jornal impresso e sete exclusivas da Folha Online. Eliane diz ter desenvolvido duas linhas narrativas, de acordo com seu estilo de texto, para acompanhar o torneio. Na primeira, ela destaca o que chamou de “brasilidades”: aspectos da cultura nacional e histórias humanas que só poderiam se revelar durante a realização do evento no País.
Entre os textos encaixados nesse modelo, estão “ ”, história sobre o contraste entre as dificuldades enfrentadas pelo Teresópolis F.C., clube da terceira divisão do campeonato carioca que atua na cidade em que a Seleção Brasileira treinou para o Mundial, e o time nacional; “ ”, um diálogo entre um policial militar e um manifestante em Belo Horizonte (MG); e " ", sobre um vizinho da Arena Corinthians que simboliza o conceito popularizado por Nelson Rodrigues; entre outros.
A segunda linha foi focada no que ela classificou como “o espetáculo, a corte e a torcida” ao redor da Copa. Nesse aspecto, ela destacou, entre outros, os textos “ ”, sobre os anônimos que lutam para chamar a atenção na televisão; “ ”, sobre o “brete de bois” que é a zona mista após os jogos, em que jornalistas têm a chance de conseguir uma palavra com atletas ou membros da comissão técnica; e " ", sobre os bastidores de uma coletiva de imprensa organizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Visão jornalística
Eliane afirma que essa experiência a fez perceber seu verdadeiro lugar no evento esportivo: “uma estrangeira”, tanto como cidadã quanto como jornalista. “Naquele fatídico jogo [em que a Seleção foi eliminada do torneio], três repórteres brasileiros vieram me abordar para saber a minha visão da partida, achando que eu era uma jornalista alemã”, conta.
Mas, mais do que o rótulo de “gringa” que recebeu de entrevistados e colegas de profissão – algo inédito em sua carreira, ela diz –, o que mais espantou Eliane foi o que ela chamou de “controle da informação” durante a Copa, e principalmente, “a forma como isso era natural para uma parte significativa da imprensa”.
A jornalista destaca que muitos colegas pareciam usar apenas as coletivas de imprensa como fonte de informação. Um meio que, segundo ela, “não vale de muita coisa” para um repórter, pois trata-se do simples interesse daquela entidade em se promover “com a nossa agenda”. “É reproduzir um release como se fosse notícia”, ela opina.
Eliane também apontou outros problemas da cobertura, como a exclusividade reservada aos grupos de comunicação que possuíam os direitos de transmissão e o “ranking” de preferência da CBF: Rede Globo, veículos que acompanham a Seleção nos últimos quatro anos (excluindo os que “chegaram agora”) e, de acordo com as palavras do então assessor de imprensa da entidade, Rodrigo Paiva, “10% de jornalistas estrangeiros”.
“A Copa foi sensacional do ponto de vista narrativo. A realidade foi espetacular, mas o espetáculo foi medíocre”, encerrou a jornalista. À IMPRENSA, Eliane disse que achou interessante compartilhar sua experiência com colegas e estudantes no congresso, à convite da Abraji. Entretanto, não sabe se vai continuar acompanhando futebol. “Me apaixonei [pelo esporte]. E falar sobre futebol é falar sobre o Brasil, não é? Mas ainda não sei”..
* Com supervisão de Danúbia Paraizo





