A punição corporal no ensino público do Primeiro Mundo
A punição corporal no ensino público do Primeiro Mundo
Pais, educadores, líderes comunitários, ativistas pelos Direitos Civis de crianças e adolescentes de todos os Estados Unidos vão se reunir em Washington, de 24 a 26 de junho, para entregar ao presidente Barack Obama um documento com assinaturas pedindo que seja definitivamente banido o uso de punição corporal nas escolas públicas.
Organizado pela entidade "O espancamento termina aqui" ( The hitting stops here ), o movimento quer aumentar a consciência nacional para uma realidade que coloca os Estados Unidos na posição vergonhosa de ser o único país ocidental desenvolvido que permite tal prática.
Foi com grande surpresa que descobri, anos atrás, que em alguns estados americanos professores e administradores de escolas da rede pública podem recorrer à punição corporal para garantir a disciplina. Geralmente, usam uma palmatória, chamada de paddler , porque parece mesmo o remo de um barco, numa escala menor. No lado oposto ao cabo, fazem buracos circulares para diminuir a resistência do ar e o instrumento então é usado para aplicar golpes nas nádegas de estudantes.
Os motivos podem ser tão banais quanto fazer um comentário que desagrade o professor, esquecer em casa uma tarefa ou chegar em classe alguns minutos atrasado. Beliscar o aluno, sacudí-lo violentamente, levantá-lo pelas roupas, cabelos, orelhas e outras barbaridades são práticas legais em 21 estados e, frequentemente, utilizadas nos seguintes treze, também conhecidos como paddling states : Missouri, Kentucky, Oklahoma, Texas, Arkansas, Louisiana, Mississipi, Alabama, Geórgia, South Carolina, North Carolina, Tenessee e Florida, segundo dados do Bureau de Direitos Civis do Departamento da Educação. Os demais são: New Mexico, Colorado, Idaho, Arizona, Indiana, Kansas, Ohio e Wyoming.
Nos anos 2000-2001 foram computados 342.038 atos desse tipo contra alunos da rede pública, segundo estatísticas do Departamento da Educação. A violência atinge indiscriminadamente desde crianças nas primeiras séries da educação primária até adolescentes que estão para concluir o ensino médio. Entre setembro de 2006 e junho de 2007, novos 223.190 casos. Mississipi e Arkansas são os piores estados: respectivamente 7,5% e 4,6% de seus estudantes receberam algum tipo de punição corporal durante o ano letivo.
Ainda de acordo com o Bureau de Direitos Civis, crianças afro-americanas são desproporcionalmente mais atingidas que seus colegas brancos. Ativistas contrários à prática acreditam que isso tenha relação direta com os altos índices de evasão escolar por negros. As consequências são nefastas: envolvimento com drogas e marginalidade, sub-empregos, pobreza e fortalecimento das tensões e estereótipos raciais. Depois dos negros, latinos e outras minorias são os alvos, assim como estudantes com deficiências mentais ou problemas de aprendizagem. Há relatos de que até mesmo estudantes grávidas foram submetidas a essa violência.
O problema é tão sério e abrangente que motivou a criação de várias organizações pela sociedade civil. A entidade "Pais e Professores contra a violência na educação" ( Parents and Teacher against violence in education ) é uma das que há anos tenta estender para as crianças nas escolas a mesma proteção contra a violência física que a Lei garante aos adultos. Também foi criado o "Conselho Nacional para Abolir Punição Corporal nas Escolas" ( National Council to Abolish Corporal Punishment in Schools ), que fornece informações e aconselhamento legal para os pais protegerem seus filhos nos estados onde a prática é permitida. Impossível não pensar que talvez essa seja uma das raízes da violência latente que periodicamente transborda nas escolas americanas em episódios como o massacre na Columbine High School do Colorado, e tantos outros chocantes exemplos similares.
Avanços no entendimento da psicologia infantil e nas técnicas pedagógicas garantiram há décadas a abolição dos castigos corporais nas escolas de mais de cem países. Surpreendentemente, os educadores de 21 dos 50 estados da maior potência do mundo ainda praticam rotineiramente esse absurdo. E você pensava que a educação americana era muito avançada não é não? Surprise, surprise...
Para saber mais sobre o assunto, acesse os seguintes sites: , e .
No último, você vai encontrar links para outras entidades similares, estatísticas, fotos, depoimentos de pais e crianças, vídeos, podcasts, entre outras informações.






