A primeira mutação da ABI

A primeira mutação da ABI

Atualizado em 31/03/2008 às 14:03, por Nelson Varón Cadena.

A Associação Brasileira de Imprensa-ABI comemora segunda feira próxima 100 anos de atividades, originalmente chamada de Associação de Imprensa, denominação que a identificou até 21 de julho de 1915 quando uma reforma dos estatutos pretendeu lhe dar uma abrangência que não tinha e não teria tão cedo, então configurada como uma representação classista restrita ao Rio de Janeiro. Siglas aparte, a entidade conviveu meio século com o autoritarismo e restrições à liberdade de opinião (governos Hermes da Fonseca, Wenceslau Braz, Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes, Getúlio Vargas, Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo) e no âmbito interno cedeu à tentação do caciquismo: dois de seus dirigentes (Herbert Moses e Barbosa Lima Sobrinho) perpetuaram-se no poder durante 60 anos. Honraram a cadeira. Cumpriram um papel institucional no contexto autoritário aqui referido, mas, méritos aparte, impediram a salutar renovação desejada em qualquer agrupação representativa.

No seu primeiro século de existência a ABI sofreu profundas transformações, nela poderíamos identificar vários perfis, cada um deles inserido num período cronológico específico. Mas é nos seus primeiros trinta anos de vida que se dá a mutação definitiva, corrigem-se os códigos do DNA projetado por Gustavo de Lacerda.

Viés assistencialista
A ABI deveria ter sido uma trincheira operária, uma tribuna sindical, no entender de seu idealizador. Utopia de Gustavo de Lacerda que não obteve eco na sua pregação socialista. Então, nasceu (07/04/1908) com um outro objetivo: o de prestar assistência aos profissionais de imprensa e seus familiares, através de uma caixa de pensões, atendimento médico, pecúlio e residência para os mais desfavorecidos no "Retiro dos Jornalistas", projeto que durante vinte anos foi prioridade. Outras bandeiras seriam deflagradas, neste período inicial marcado pela hostilidade dos donos dos jornais e os embates internos: a instituição do Curso do Jornalismo e a realização de Congressos de Jornalísticas com regularidade. Projetos, o primeiro arquivado, o segundo interrompido após o memorável conclave de 1918.

No período revolucionário a ABI mirou a sua representatividade social e durante quase uma década empenhou-se na construção da Casa do Jornalista, uma imponente sede na rua Araújo Porto Alegre, contraponto dos seis endereços provisórios onde funcionara até o momento, incluindo a sala de um quartel de polícia (Borbonos). O novo prédio, considerado um marco arquitetônico pelas suas linhas arrojadas e técnicas de brise-soleil implementadas no seu espaço interno, determinava um novo perfil para a instituição: o de uma academia com representatividade semelhante à de Letras, sem o beneficio da imortalidade, prerrogativa apenas da presidência. Ainda, sem um glamour do chã das cinco, ou a imponência do fardão dos botões dourados.

As três caras do presidente
O fato é que trinta anos após a sua fundação a ABI não era mais a trincheira operária idealizada por Gustavo de Lacerda e sim o espaço e tribuna de representatividade dos proprietários e diretores dos jornais. Institucionalmente, por força das circunstâncias aqui referidas, desenvolvia códigos de convivência com o poder que significavam, também, a sua sobrevivência. Getulio Vargas compreendia e estimulava esses sinais.
e o seu governo viabilizava a Casa do Jornalista, através de doações do Estado e créditos obtidos junto ao Banco do Brasil.

Evidenciavam-se as três caras do executivo: o Presidente Vargas fazia doações para a entidade; o ditador Vargas perseguia jornais e jornalistas e o funcionário público Vargas recebia e arquivava, e quando conveniente atendia, os protestos da ABI, demandas em favor de jornalistas presos ou de jornais impedidos de circular.